Sociedade

Brito e Costa. A mulher que se acha “gira” e que explicou a um ministro o que é a democracia

O i entrevistou a presidente da Associação Raríssimas em 2011 e recupera agora o que Paula Brito e Costa disse na altura

Quem é a mulher que está à frente da Raríssimas, como fala de si e como lida com os outros... mesmo que sejam ministros? Em agosto de 2011, o i entrevistou Paula Brito e Costa, a mulher que está a ser investigada pelo Ministério Público por gestão danosa e uso pessoal de dinheiros da instituição e lembra hoje algumas das frases mais marcantes dessa entrevista. O caso da alegada gestão danosa foi tornado público após uma investigação da TVI que deu conta de que Brito e Costa terá usado fundos da Raríssimas para inúmeras despesas pessoais avultadas.

Nessa entrevista ao i, a já presidente da associação contava que criou a Raríssimas por sugestão de um médico depois de inúmeras viagens ao estrangeiro com o filho Marco, que nasceu com Cornelia de Lange, uma doença rara. À data da entrevista, Marco já tinha morrido.

Questionada sobre o momento em que recebeu a notícia, Brito e Costa respondeu que “o Marco era um menino muito esperado”: “Com 21 anos o que é que queremos? Filhos louros, de olhos azuis, Bernardos, Francisquinhos, esses filhos de quem toda a gente está à espera.”

Filha de um fuzileiro rígido que a obrigava até a “comer com ovos debaixo dos braços” por causa da postura, e de uma doméstica, Brito e Costa dizia-se “saloia” porque vivia em Caneças e o seu “esqueleto é todo alentejano”. Admitia não conseguir, porém, estar muito tempo longe da cidade, tendo mesmo questionado: “Depois onde é que compro as minhas botinhas?”

 Deu aulas de ginástica – foi ginasta de alta competição e praticou também natação e artes marciais –, altura em que conheceu o marido, que era seu mestre. Tinha 16 anos, o marido era 12 anos mais velho e considera--o a sua “alma gémea”.

Foi também manequim profissional durante nove anos porque, como justificou, “uma pessoa quando é gira é gira”. Recusou, no entanto, a ideia de que ser uma mulher bonita lhe tivesse trazido vantagens. “A inteligência é que traz vantagens.”

“Enviei email a ministro com o significado de democracia”

Na mesma entrevista confessou também que não se imaginava num cargo político: “Não sei mentir, ou minto mal, ajo com a minha cabeça e não me deixo influenciar por opiniões externas, portanto, jamais conseguiria. Por que razão então é que a maior parte dos políticos olha para os representantes das associações como uma ameaça, como alguém que só está ali para fazer braço-de-ferro? Não, vivemos em democracia! Uma vez enviei um email a um ministro com o significado de democracia do dicionário e no fim disse-lhe que era tudo aquilo que ele não fazia.”

A Casa dos Marcos, onde são apoiadas crianças com doenças raras, como explicava, foi assim chamada por causa do seu filho Marco. “O Marco chegou aos 16 anos e não tinha escola para onde ir. Não havia respostas sociais para meninos como ele. Ou iam para cerci’s – que eu respeito, mas foram criadas para satisfazer necessidades de há 30 anos – ou não tinham escola.
E um dia ele pergunta-me: ‘Mãe, não tenho uma escola?’ ‘Tens aquela, se não quiseres não tens.’ E ele responde, chateado: ‘Ai não tenho uma escola, então tens de me fazer uma escola!’”, contou na altura Paula Brito e Costa.

Confrontada com os custos relacionados com o tratamento de doenças raras, a presidente da Raríssimas questionou: “O que é muito dinheiro? Não temos um Serviço Nacional de Saúde? Não temos uma Constituição que é muito específica nos direitos de cada um à saúde? A vida humana não tem preço: é isso que os médicos estudam nas universidades mas esquecem quando saem de lá. Estes doentes são da responsabilidade do Estado, porque é que temos de andar a pedinchar? Nunca me digam que um medicamento órfão é demasiado caro. É uma mais-valia para os doentes? Então não interessa quanto custa.”

(A entrevista completa está disponível no site ionline.pt)