Cultura

Joan Didion. Contar os degraus a partir do fundo do abismo

A reedição entre nós de “O Ano do Pensamento Mágico”, e um documentário sobre a autora realizado pelo sobrinho, dão-nos boas razões para lembrar uma das figuras de culto que marcou o período de maior influência do jornalismo, quando os factos eram tão importantes que se confiava à literatura a sua interpretação


Alguém que tenha nutrido um interesse, mesmo que vago, pelo que de melhor se viu nas últimas décadas quando o jornalismo era elevado a uma arte, dificilmente terá deixado de sentir o apelo inquietante da escrita de Joan Didion. A sua prosa apurou um modo de clareza ferina, em que o instinto do repórter segura numa linha ou duas aquelas impressões que fixam um assunto entre a bala que o atinge e o epitáfio que todos vão recordar. E esse talento para a concisão alia-se a um charme que fez do seu estilo uma marca, apurado ao longo dos dez anos em que trabalhou na “Vogue”. Celebrada como a escritora por excelência no reino magazinesco – que, nos EUA, pela proliferação e diversidade dessas publicações, assumiu um prestígio sem paralelo noutros países, e que passou grandemente ignorado em Portugal –, o que a distingue e torna a sua escrita tão memorável é a sua capacidade de se conceder desvios como quem atalha caminho.

Numa das mais perspicazes análises da sua obra, num artigo na “The New Yorker” – revista com a qual Didion também colaborou – Louis Menand sinaliza esse erro comum, quando se avalia a não-ficção de Didion, de interpretar a sua sensibilidade como uma destilação do ar dos tempos, essa noção de que “ela falava por nós”, sublinha, citando uma passagem da biografia não autorizada “The Last Love Song” (“A Última Canção de Amor”), em que Tracy Daugherty ultrapassa a falta de acesso a Didion e aos seus amigos e familiares, mimetizando o seu tom, e indo ao ponto de parafrasear de forma “inteligente e elegante” tantas das coisas que a escritora tinha ela mesmo confessado nos seus ensaios.

Menand corrige esta perceção, recordando a forma como Didion se descreveu num ensaio nas páginas da revista “Life”, em 1969: “sou uma mulher que, há já algum tempo, se tem sentido radicalmente alheada da maioria das noções que parecem interessar às outras pessoas”. E concluiu, deste modo, que aquilo que torna tão sedutora a sua abordagem introspetiva, confiando na sua capacidade para intuir ou ler esse subtexto que explica o mundo ao seu redor, está no facto de ela não ser como nós. De ser uma figura peculiar, alguém que tira da bolsa um espelho e que, ao encarar-se nele, acaba espiando atrás do seu ombro algum aspeto decisivo que lhe permite deslindar um enigma que nos tinha enfeitiçado. Afinal, é muito provável que o enigma fosse ela mesma, o modo como a sua atenção cerca e caça uma explicação.

Este ano, o interesse por este ícone do New Journalism, hoje com 82 anos, ganhou um novo impulso com o documentário “Joan Didion: The Center Will Not Hold”, realizado pelo sobrinho da escritora, o ator e cineasta Griffin Dunne, e coproduzido pela sua neta, Annabelle Dunne. Tendo assumido numa entrevista ao “The New York Times” que, sendo tão próximo da tia, o filme nunca poderia ter sido outra coisa que não uma carta de amor, se este é um retrato parcial e afetivo, até uma elegia para alguém ainda vivo, o certo é que os episódios traumáticos que marcaram uma nova fase na obra de Didion, com a publicação, em 2005, de “O Ano do Pensamento Mágico”, deixam margem para que as revelações sobre a sua vida pessoal nos envolvam ainda mais.

Como Megan Garber aponta num artigo na “The Atlantic”, pode encarar-se este documentário como o terceiro capítulo numa trilogia que começa com o livro acima referido e prossegue em “Blue Nights” (que terá em breve uma edição portuguesa pela mesma editora que agora reeditou “O Ano do Pensamento Mágico”), e que são obras que entram num território de “autobiografia extrema”. O primeiro livro acabou por se tornar o grande best-seller de uma autora que gozava há muito o estatuto de ícone, mas que só então se tornou uma verdadeira celebridade. Garber sublinha que o documentário não infringe o registo daqueles livros de memórias, mantendo o controlo sobre o teor das confissões, revelando só aquilo que serve estrategicamente a um dos testemunhos literários que mais longe foi na descrição da dor provocada pela perda de alguém cuja pele nos diz onde começamos e acabamos. O documentário é, assim, uma extensão daquelas memórias, agora com ajuda dos familiares e amigos, e usando um outro meio que não a escrita, sem deixar de se guiar, até estilisticamente, por esta.

Esgotado há uns anos, acaba de ser reeditado com uma nova tradução o livro com que Didion conseguiu reagir à perda do marido, o também escritor John Gregory Dunne. No final de 2003, o casal viu a única filha (adotiva) internada nos cuidados intensivos, poucos meses depois de se ter casado. Quintana Roo viu-se arrebatada logo após um dos períodos mais felizes da sua vida, por uma inexplicável espiral de graves padecimentos que terminariam, dois anos depois, com a sua morte, aos 39 anos, vítima de uma pancreatite. Quanto ao pai, que vinha sofrendo de uma série de insuficiências cardíacas e se viu obrigado a receber um pacemaker, não resistiu às andanças para trás e para diante nos corredores hospitalares, vendo a filha prostrada sem nunca obter dos médicos uma resposta clara sobre o que havia espoletado tudo aquilo.

“O Ano do Pensamento Mágico” é uma formidável reportagem de uma escritora que, reconhecendo que “a forma como escrevo é aquilo que sou, ou em que me tornei”, se dá conta de que será pela escrita que, uma vez mais, poderá refazer-se de uma queda que não acaba, e começar a contar os degraus no abismo e, aos poucos, subir alguns.

O título que vai buscar a sua inspiração ao sentido antropológico do termo “pensamento mágico”, em que, perante um desfecho terrivelmente doloroso, a mente começa a desenhar saídas, a fantasiar hipóteses alternativas, buscando um “se” que lhe permita convencer-se de que o desastre pode ainda ser revertido.

Afirmemos sem reservas que se trata de um livro ímpar, porque se a morte é a morte é a medida a partir da qual o amor desperta na sua fúria retroativa, esta exploração íntima avança sobre aquele limite em que a consciência, apoiada num vital instinto de sobrevivência, consegue construir literariamente uma obra em que a dor é escalpelizada e sentida ao mesmo tempo, em que o amor se abre e se explica, em que a autora se vê a negociar com a morte e depois pega na sua própria mão e conduz-se até à razão.

O contrabalanço de uma certa frieza analítica, o casamento entre o efeito que as ondas da dor provocam na intimidade dela e aquilo que registam as escalas científicas quanto ao impacto destas marés na vida de todos nós, fazem deste livro muito mais do que uma viagem ao fim da noite de uma pessoa que perde o parceiro de 40 anos. E não só o marido mas o grande hóspede e intermediário, o seu confidente, o seu parceiro de trabalho, o amigo batendo à máquina do outro lado da casa, tendo os dois mantido ao longo dos anos uma cumplicidade de tal modo profunda que se tornava desafiante para quem olhava de fora. Os textos de um não eram publicados sem que o outro os editasse, e, ao invés de um sentido qualquer de rivalidade, desenvolveu-se entre o casal uma codependência absoluta, que é o nome que o amor tem quando deixa os contos de fada e se adapta à vida no mundo real.

Em algum momento, todos teremos de organizar os nossos sentimentos em relação à morte. Sendo certo que, quando esta nos bater à porta, tirará o sentido das coisas, deslocando o peso e a medida de tal modo que cada passo inverta a sensação do nosso peso face ao mundo, como se fosse antes o mundo a afundar-se contra nós, é estranho que sejam tão poucas as obras que não se fiquem por um fascínio negativo e atordoante. Didion não hesita em munir-se de toda uma bibliografia da morte, servindo-se das defesas e modos de distanciamento que treinou enquanto jornalista. Este é o livro de autoajuda. E sobre um dos temas em que toda a literatura que o toca, se for honesta, se guardar em si uma réstia de esperança, cairá nesse desolador e banalizado género, que, na hora da morte, recupera a sua infinita dignidade.