Cultura

O Ano do Pensamento Mágico. Amar o que a morte tocou

O romancista português responsável pela nova tradução da obra em que Joan Didion lida com a perda do marido, fala do caso raro de um trabalho que o fazia levantar-se cedo para prossegui-lo como quem lê compulsivamente

Um dia após ter oferecido “O ano do pensamento mágico” a uma amiga, ela enviou-me uma mensagem de reclamação: “Não consegui parar de ler, fiquei acordada até às quatro da manhã e agora estou cheia de sono”. Se culpa houvesse, seria de Joan Didion, ainda que a minha oferta tivesse uma manipulação encapotada: usar a minha amiga como cobaia a fim de avaliar a sua experiência de leitura.

Uma vez que eu traduzira o livro, a minha perceção não era a mesma do leitor comum. Traduzir pode ser uma tarefa entediante e mecânica. Passam-se horas à procura de nomes de plantas ou procedimentos médicos, percebem-se as costuras mal-amanhadas do texto, as frases dissonantes, aquilo que precisaria de ser editado. Qualquer tradutor dirá que traduzir maus livros pode ser um ofício de desespero e irritação. Porém, de vez em quando aparece uma obra que faz com que acordemos mais cedo para trabalhar com o mesmo entusiasmo e deslumbramento da leitura de um bom livro, ou seja, exatamente aquilo que mantivera a minha amiga acordada madrugada afora.

Tinha sido isso, de facto, o que acontecera comigo nas semanas que passei a traduzir. Não encontrava as costuras ou via a necessidade de um editor melhorar coisa alguma. Traduzir aquele livro era o mais próximo que me acontecera de ler aquele livro, e isso é raro.

Por exemplo, quando traduzi o “Psicopata Americano”, de Bret Easton Ellis, um livro que me pegara pelos colarinhos no final da adolescência, suspendi o trabalho várias vezes durante pormenorizadas cenas de tortura. Certa tarde, enquanto traduzia a passagem em que o narrador degola um miúdo, outras duas crianças corriam ao redor das mesas no café onde eu estava a trabalhar. Fechei o computador e só regressei ao texto horas mais tarde. Mas com “O ano do pensamento mágico”, ainda que o livro tratasse da morte, da dor da perda, e houvesse trechos detalhadamente clínicos sobre ataques cardíacos e neurocirurgias, eu continuava a acordar bem cedo para traduzir como quem lê compulsivamente.

Quando a minha amiga acabou o livro em poucos dias, e valendo-me da sua perspetiva de leitora, mas também do facto de que está a terminar um doutoramento em literatura, quis saber o que a fizera adiar tarefas e obrigações para regressar ao livro. “Estava num jantar e só queria ir para casa ler mais”, disse-me. “Por outro lado, não queria que acabasse”. Talvez seja um exercício de sabotagem dissecar aquilo que nos dá prazer. Mas insisti para que me dissesse qual era o magnetismo.

“É uma leitura que nos abre um mundo inteiro”, disse, e comentou como se sentira próxima da autora, levada pela corrente da escrita, que salta no tempo e no espaço – do casamento na década de 1960 para a morte do marido em 2003, das ruas outonais de Manhattan para a luz e as ondas do Pacífico –, e que parece funcionar de acordo com o imprevisível fluxo de consciência de Didion, mas que, na verdade, tem a estrutura exemplar de uma peça musical. Não há costuras nem vozes desafinadas. Mesmo os diferentes recursos narrativos – a memória, com tudo o que tem de retrospetivamente lírico, as citações de poemas, as referências à cultura popular, os estudos médicos ou as estatísticas – funcionam com um propósito comum e maior, tal como os instrumentos musicais de uma big band, que após cada solo regressam à melodia.

“Pode ser por vezes um livro duro, mas há sempre uma delicadeza, uma generosidade, as pequenas histórias da vida a dois”, disse a minha amiga. De facto, ainda que o livro aborde destemidamente a morte, num misto de ensaio, jornalismo e romance, é também uma história de amor de dois escritores que foram casados 40 anos, trabalhavam em casa, nunca entregavam um texto sem que o outro o editasse, e que chegaram a escrever juntos os mesmos guiões de cinema.

É também a escrever sobre o amor que se percebe outra das características literárias de Joan Didion: a honestidade e o despretensiosismo, mesmo quando, ao escrever na primeira pessoa sobre a morte do marido, John Dunne, corria o risco de obliterar a importância de tudo o resto em favor da autopiedade. Mas este livro é o contrário. Didion escreve para entender o que se passou, para desfazer-se da autopiedade e libertar-se daquilo que ela própria chama de “vórtice”, o buraco negro que lhe engoliu a razão e a deixou sem vontade de comer ou escrever no ano após a morte de John.

“É um livro que mobiliza e desaloja várias coisas dentro de nós”, disse a minha amiga. “É a tentativa dela para não ficar maluca, para se agarrar à vida e manter-se presa à realidade. Há também um lado luminoso, mas sem nada daquela coisa feel good muito americana.”

Essa honestidade desarmante de Didion revela-se mesmo nos momentos mais privados, como quando ela recorda o episódio em que a revista “Life”, que não a deixara cobrir a guerra no Vietname, lhe pediu antes um texto em que falasse da sua vida: “Escrevi a crónica. Foi publicada. Na altura pareciam 800 palavras nada excecionais (...) mas no fim do segundo parágrafo havia uma frase tão contrastante (...) que poderia sugerir que a autora tinha sido raptada por extraterrestres: ‘Estamos nesta ilha do Pacífico em vez de pedirmos o divórcio.’ Uma semana mais tarde, chegámos a Nova Iorque. ‘Sabias que ela ia escrever aquilo?’, perguntaram muitas pessoas ao John, sotto voce. Se ele sabia que eu ia escrever aquilo? Foi ele quem editou a crónica. (...) Levou-me de carro à Western Union, na baixa de Honolulu, para que pudesse enviar a crónica”.

Há uns dias recebi um email da minha amiga: “A melhor frase do livro: ‘Uma pessoa apenas deixou de estar, mas o mundo inteiro parece vazio’”.

Já no século XI o poeta Yehuda Halevi escrevera sobre a nossa condição de bichos que amam e que morrem:

“É uma coisa assustadora amar aquilo que a morte pode tocar. É uma coisa humana, amar. É uma coisa sagrada amar o que a morte tocou”.

Será inevitável que, para escrever um grande livro sobre a morte, se escreva também sobre amor?

O livro de Didion diz-nos que sim.