Economia

Autoeuropa. Governo em alerta vermelho com “guerra” entre administração e comissão de trabalhadores

O novo horário de trabalho contínuo imposto pela administração da Autoeuropa foi recusado pela  Comissão de Trabalhadores, que já convocou um plenário para o próximo dia 20. Ministro Vieira da Silva chama de urgência a administração da fábrica de Palmela e a Comissão de Trabalhadores para discutir o futuro da empresa. A reunião está marcada para sexta, mas os riscos de deslocalização de parte da produção para outras fábricas do grupo alarmam o executivo

Depois de dois pré-acordos chumbados sobre mudanças de horários a administração da Autoeuropa decidiu unilateralmente avançar com o horário aos sábados a implementar a partir de janeiro do próximo ano sem esperar pela luz verde por parte dos trabalhadores da fábrica de Palmela. No entanto, deixa em aberto as mudanças de horário a partir de agosto –  altura em que entra em funcionamento a laboração contínua – assim como uma porta aberta para o diálogo com a comissão de trabalhadores (CT).

Uma decisão que é rejeitada pela CT ao alegar que “este modelo de horário e as suas condições são mais desfavoráveis e contrariam a vontade expressa pela maioria dos trabalhadores” e defende que seja retomado o processo negocial. Uma ideia que já tinha sido defendida pela estrutura liderada por Fernando Gonçalves quando o segundo pré-acordo foi chumbado e, como tal, convocou um plenário para o próximo dia 20 de dezembro. Discutir a situação da empresa e exigência de nova negociação, assim como a apresentação do caderno reivindicativo são os temas em cima da mesa.
Ao que i apurou esta decisão por parte da administração não causou surpresa, uma vez que, desde o verão que a empresa estava a dialogar com a CT para avançar com estas mudanças e na semana passada já tinha alertado os trabalhadores para a necessidade urgente de implementar a nova carga horária. “É indiscutível a necessidade de ter no início do novo ano um modelo de trabalho que responda às encomendas dos clientes para a primeira metade de 2018, sob risco de entrarmos em incumprimento com o programa de produção”, revelou.  

Nessa mesma newsletter apontava para a tomada de uma decisão que cumprisse a lei, mantivesse o emprego, assegurasse o crescimento da fábrica e o programa de produção. 

E foi a pensar nessa meta de 240 mil carros que a empresa irá avançar no final de janeiro com o modelo de trabalho de 17 turnos semanais “que cumpre a lei e garante a produção aos sábados a dois turnos”.

“O ano de 2017 está a terminar e precisamos de preparar o início do novo ano, com a introdução de um modelo de trabalho que seja legal e em linha com o plano já partilhado com todos. Este plano assegura o programa de produção e o emprego dos nossos 5500 colaboradores”, referiu ontem a administração da fábrica de Palmela. 

O que muda? O modelo de trabalho prevê produzir um total de 17 turnos semanais, três turnos diários de segunda a sexta-feira (manhã, tarde e noite), mais dois turnos ao sábado (manhã e tarde). Cada trabalhador produz um total de cinco dias, com o domingo a ser dia de folga fixa. Já a folga rotativa vai ser atribuída de “acordo com o calendário individual” de cada trabalhador.

A cada dois meses os trabalhadores têm direito a quatro fins de semana completos de descanso e mais um período de dois dias consecutivos de folga.

Para responder a este trabalho extra, a empresa compromete-se a pagar um prémio adicional de 100% por cada dia de trabalho ao sábado, em que pagamento será efetuado no final de cada mês. Além disso, vai existir um prémio adicional de 25% sobre os sábados trabalhados desde que sejam atingidas as metas de produção trimestrais. O pagamento deste prémio vai ser trimestral.

No entanto, se o trabalhador produzir durante o dia de folga, este dia vai ser pago como o equivalente ao pagamento ao sábado. Ao mesmo tempo, as horas semanais por trabalhador vão diminuir para um total de 38 horas.
Já na próxima semana a empresa irá distribuir informação e cartas individuais com a respetiva escala de trabalho aos colaboradores envolvidos neste modelo. 

O que é certo é que  estas condições de trabalho serão descontinuadas em finais de agosto. “De janeiro a agosto precisamos de qualificar e preparar uma quarta equipa. Vamos rapidamente dar início aos processos de vaga interna para a identificação de colaboradores necessários para as funções mais qualificadas e começar com as ações de formação necessárias”, revelou no comunicado aos trabalhadores.

Esta foi a solução encontrada pela empresa para “fintar” a concorrência de outras fábricas dispostas a produzir parte do T-Roc. Tal como o SOL avançou, á uma série de fábricas do grupo Volkswagen com baixo volume de produção preparadas para receber parte da produção do T-Roc. 

 A fábrica de Osnabrück é uma dessas unidades industriais. Atualmente produz o modelo Tiguan antigo, que tem apenas como destino o mercado norte-americano, apurou o SOL. Inaugurada em 2009, esta fábrica conta regularmente com o trabalho de portugueses destacados.

Outro exemplo apontado tem sido a fábrica Volkswagen Navarra, em Pamplona, que conta com dimensões mais próximas da fábrica de Palmela. Contactada pelo SOL, a empresa disse apenas que “só está autorizada a informação sobre a atividade que leva a cabo nas suas instalações, onde está a produzir o novo Polo”.

Governo envolvido Face a estes novos contornos, Vieira da Silva vai estar reunido esta sexta-feira com a administração e com a Comissão de Trabalhadores. Apesar de não querer comentar esta situação, o governante no final do mês de novembro já tinha admitido que o “tempo corria” contra a fábrica de Palmela. 

“Estamos numa situação preocupante, já que duas comissões de trabalhadores assinaram nos últimos meses, em momentos diferentes, mas próximos, dois pré-acordos com a administração da empresa que viabilizam o crescimento da produção necessária para assegurar que a Autoeuropa, por si só, dá resposta às necessidades do novo modelo que ali nasceu (o T-Roc]”, revelou na altura. 

Já o ministro da Economia mostrava-se mais otimista ao admitir que acreditava que iria ser encontrada uma solução para a empresa.