Cultura

Os Últimos Jedi. A galáxia é uma poça rasa de água turva

Só com grande dificuldade se aceita que uma saga sobre a luta contra a tirania se mostre tão subserviente. A revolução, afinal, é uma farsa

Não há filme no universo Star Wars ao qual tenha calhado um fardo leve. Os laços emocionais com que os empresários aguçam os dedos de contar dinheiro são, na realidade, correntes pesadas; o jogo das expectativas raramente é justo e o sentido de descoberta é simultaneamente coletivo e privado. Manobrar a saga é um complicado ato de equilibrismo e hoje é a vez de um novo número, “Star Wars: Os Últimos Jedi”, o segundo filme da trilogia começada há dois anos pela Disney. Tem muito por que responder. O penúltimo filme do tronco central convenceu mesmo os fãs orgulhosos e mal intencionados que comprar os direitos a um universo não é o mesmo que esvaziá-lo da sua promessa. E a primeira obra paralela demonstrou que até as arestas do enredo são relevantes e humanas. Deste episódio VII esperava-se um feito complicado, uma manobra arrojada, um mortal antes do triplo rodopio encarpado do fim. Por outras palavras, abandonando por momentos a metáfora, aguardava-se o rótulo de autenticidade da nova saga, a prova de que é verdadeiramente novo e importante o caminho que percorre. O salto, porém, falha a corda. Se ainda há lá um equilibrista, ele aguenta-se no limite.

No seu melhor, “Os Últimos Jedi” é um filme belo, impressionante e imprevisível, que se aproxima a vários momentos do novo e até o chega a calcorrear com timidez. Este texto protege as reviravoltas e passos fundamentais da luz descarada, mas é útil dar algumas migalhas. Pode dizer-se sem prejuízo, por exemplo, que a ação arranca momentos depois do fim do episódio VII, “O Renascer da Força”, o acarinhado regresso à saga, realizado por J. J. Abrams e em parte escrito por Lawrence Kasdan, o homem responsável pelo enredo de “O Império Contra-Ataca” – que, na doutrina popular, é a grande obra de referência. Como ele, “Os Últimos Jedi” é também uma história de guerra e descoberta. Se nesse ano de 1983 Luke Skywalker (Mark Hamill) descobre Yoda e o caminho dos jedi; em 2017 Rey (Daisy Ridley) faz o mesmo com Luke. E se no filme de há 34 anos o Império se vinga de um sobressalto inesperado às mãos dos esfarrapados rebeldes, neste ano a Primeira Ordem procura fazer o mesmo. As pequenas variações de um mesmo tema são de esperar, claro, e neste último episódio há quanto baste de tensão e vias travessas para alimentar a esperança de que a repetição, apesar de tudo, não será total. A densidade em Kylo Ren (Adam Driver) e Snoke (Andy Serkis) é indispensável a esse otimismo. 

Revelemos um pouco mais das cartas sem fazer romper a luz toda. Ao longo de “Os Últimos Jedi” há uma promessa que vem já inscrita no seu nome e no império de propaganda que o promove. Alguma coisa, dizem-nos, acabará. E como quatro mil milhões de dólares são caros e numa trilogia não há apenas dois filmes, supomos que esse fim é, na verdade, o nascimento que não aconteceu por completo no episódio VII, cujo arcaboiço é muito próximo ao do primeiro filme, de 1977. Este último episódio traz de facto a destruição de estruturas centrais ao universo “Star Wars”, e aí dá-se um passo importante. Mas, pelo menos por agora, essa derrocada não é transformadora. É somente geracional. Há coisas que são velhas e que desaparecem, é verdade, mas apenas para que quem vem de novo lhes repita sensivelmente os motivos.

A revolução que “Os Últimos Jedi” propõe é, em última análise, uma farsa e uma repetição, e nunca o espaço de manobra e possibilidade pareceu tão fechado como à entrada para o último episódio, que virá daqui a dois anos e é realizado novamente por J. J. Abrams. O norte-americano ainda pode salvar a série caso aumente a parada bem para lá do triplo salto encarpado. O fardo, porém e mesmo para ele, é complicado de carregar.

Há leituras mais benevolentes deste último filme “Star Wars” e que dizem também mais respeito às ferramentas de Rian Johnson, o primeiro realizador e argumentista a desempenhar ambos os papéis sem ajuda desde que George Lucas abandonou a sua saga (vêm daí os quatro mil milhões). Johnson – “Looper” (2012) – dá às novas personagens alguma da dimensão que só o passar dos anos e o alargar da mitologia concederam às figuras de Han Solo, Leia (Carrie Fisher) e Darth Vader (James Earl Jones).

O realizador americano é habilidoso também nas cenas de guerra espacial e terrestre, e o combate no planeta mineral de Crait surge-nos grávido de chance e novidade. Acontece o mesmo com a aparência quase transcendental de Leia, que de alguma forma já representa a morte da sua atriz, embora também aqui possa haver surpresa. Tanto maior por isso a desilusão de concluir que a irreverência do argumento e os passos imprevisíveis que ele vai dando não têm fundura verdadeira ou liberdade. A promessa de ambiguidade moral desvanece-se e o sentido de aventura, assim como o de rebelião, são menos preciosos quando a pairar sobre eles está uma profecia muito empenhada em se fazer concretizar – em nenhuma cena é isto mais evidente do que na finalíssima. 

Em “Star Wars”, tudo é rumo e possibilidade. Quando desaparecem, não há muito que lhes sobreviva. Johnson, foi anunciado há um mês, vai comandar uma nova trilogia, que se seguirá ao último episódio da atual e se passará pela primeira vez longe dos Skywalker. Não é coisa de causar surpresa: afinal de contas, a realização de “Os Últimos Jedi” é uma das poucas a atravessar e acabar incólume nesta última encarnação Disney. Talvez seja esse o seu melhor lugar, num começo. Este seu passo do meio é quase uma pirueta ao contrário.