Um estudo científico conclui que a beleza está relacionada com o conservadorismo de direita, mas existem vários exemplos na política nacional que parecem provar o contrário.
Oartigo científico ‘The right look:Conservative politicians look better and voters reward it’ (A imagem certa:políticos conservadores são mais bonitos e os eleitores recompensam-nos) que foi publicado no Journal of Public Economics conclui que os políticos mais bonitos são de direita. Oestudo dos autores Niclas Berggren, Henrik Jordahl e Panu Poutvaara, que tem como base a política norte-americana, europeia e australiana, indica como explicação o facto de «as pessoas bonitas ganharem mais, o que as torna menos inclinadas a apoiar a redistribuição».
«Isso faz lembrar aquela frase que a direita não gosta dos pobres, que os incomoda. Aqueles lugares comuns em versão estudo científico», afirma Rodrigo Moita de Deus, ex-dirigente do PSDe consultor de marketing político, entre gargalhadas. Moita de Deus descredibiliza o estudo afirmando que se «há um partido que se distinguia pela beleza dos seus candidatos era o Bloco de Esquerda».
A questão da beleza da direita é posta em causa por João Villalobos, consultor de comunicação, e por João Almeida, deputado do CDS. Villalobos compara «Catarina Martins (esquerda)e Manuela Ferreira Leite (direita)»para afirmar que «não me parece que a conclusão do estudo faça sentido», enquanto o deputado centrista recorda as notícias na comunicação social em que «os candidatos a quem se fazia essa referência eram de esquerda e não de direita». Os candidatos em questão são João Ferreira, do PCP, e Ricardo Robles, do Bloco de Esquerda. OSOL tentou entrar em contacto com eles, mas sem sucesso.
«Álvaro Cunhal, comunista, despertava mais paixões entre as mulheres do que qualquer outro político português», recorda João Villalobos, «Sá Carneiro era baixinho e com um nariz pronunciado. Era o seu carisma que lhe conferia uma ‘beleza’ particular». Villalobos lembra ainda que o ex-Presidente da República «Cavaco Silva é de direita mas embora a sua mulher o ache parecido com Cary Grant, essa é uma identificação que poucos esteticamente farão» e Moita de Deus traz à conversa o primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau que é um «jovem de esquerda que todas as mulheres acham lindíssimo e que se preocupa com as causas sociais». «Lá se vai a tese do estudo», acrescenta, rindo.
Sobre a questão da beleza física, todos discordam. «Há todo o tipo de pessoas nas diferentes ideologias», afirma João Almeida.
No entanto, e sobre a questão da apresentação, a opinião muda. A estética é importante para a política, uma vez que as pessoas identificam os políticos «ideologicamente pela forma como se vestem. Isso é evidente», afirma Moita de Deus. «Os partidos de centro direita têm uma forma mais formal, conservadora, de se apresentarem, os partidos de esquerda têm uma forma quase mais relaxada. Pode ter a ver com a proveniência dos políticos, com os seus estratos sociais, mas a diferença existe», acrescenta.
João Almeida faz o exercício comparativo:«Se estiver uma pessoa de esquerda de gravata e eu estiver sem gravata acham que o da gravata é o de direita». No entanto, o deputado acredita que existe uma «desformalização» ao nível empresarial «e a política acaba por acompanhar».
E a imagem está relacionada com a confiança, explica o ex-dirigente do PSD. «Eu não confiava num senhor com as calças rotas e t-shirt meio rasgada com mangas cavas para governar o país». Epelos vistos não é o único a pensar que a roupa tem importância na apresentação dos políticos. Villalobos explica que em 2005, enquanto trabalhava como consultor do PSD, questionou alguns participantes de um focus group sobre se o primeiro-ministro devia vestir roupa da marca Ermenegildo Zegna e sapatos Prada. «Na altura, achavam muito bem, porque o representante do Governo devia ter bom aspeto», explicou. «Neste exemplo, a resposta parece ser sim, há maior confiabilidade em quem se apresenta bem».
Moita de Deus acrescenta que a apresentação e a questão visual é tão importante que a utilização do Photoshop em tempo de campanha chega a ser «exagerada». «Especialmente nas eleições autárquicas, aquilo é disparatado. A certa altura temos nos cartazes pessoas que não correspondem ao que [os eleitores] vêem na rua». Arazão para a utilização da ferramenta de edição de imagem prende-se com a neurociência. «A memória visual é muito maior que a memória auditiva e por isso é que o estudo lhe dá as conclusões que dá», conclui. «Algumas», acrescenta entre risos.
