Economia

Futuro dos correios nas mãos do regulador

Anacom vai contar com a ajuda do grupo de trabalho criado pelo Governo para avaliar se CTT está a cumprir o contrato de concessão.  


 

O futuro dos Correios na esfera privada está nas mãos da Anacom. O plano de reestruturação anunciado pela empresa para implementar até 2020 para estancar a quebra de 50% do negócio e o elevado investimento no Banco CTT fez soar alarmes junto dos partidos políticos, mas não foram suficientes para levar Governo a reverter processo de privatização que arrancou em 2013 pelo Executivo de Passos Coelho. Apenas os investidores pareceram suspirar de alívio, mas por pouco tempo, já que as ações voltaram a negociar no vermelho.

António Costa chegou mesmo a dizer que duvida que a multa aplicada pelo órgão regulador justifique o fim da concessão, deixando nas suas mãos qualquer eventual alteração no contrato de concessão que termina em 2020. «Se há ou não, nos termos do contrato de concessão, [lugar a rever a concessão] essa é uma avaliação que cabe à Anacom», disse o primeiro-ministro, no último debate quinzenal de 2017. «Se é suficiente, duvido que seja», acrescentou. 

Mas para ajudar o regulador a decidir, o Governo criou um grupo de trabalho onde estão também envolvidas as regiões autónomas. A informação que for recolhida ajudará a formar uma posição final. Foi este o sinal dado por António Costa no Parlamento. «Queremos carrear e consolidar a informação que nos permita, se necessário, transmitir à Anacom dados complementares que permitam à Anacom tirar as conclusões». salientou. 

Também o Presidente da República remeteu decisões para a entidade reguladora. «A decisão foi do Governo anterior, durante a presidência anterior, com um contrato, com determinado regime de direito e deveres. Compete à entidade reguladora verificar se esse contrato está a ser cumprido e se vai ser ou não cumprido no futuro», disse Marcelo. 

No entanto, o presidente executivo dos CTT, Francisco Lacerda, diz não temer tal resgate. «Uma análise desapaixonada e atenta vai mostrar que cumprimos as condições do serviço público».

Ações regressam ao vermelho

A saída de de mil trabalhadores - 200 até ao final deste ano e mais 800 até 2020 - e o fecho de balcões com pouca procura são algumas das medidas que já vieram agitar a opinião pública. A empresa espera poupar até 45 milhões de euros. A empresa fala ainda em reduzir o dividendo, cortar até 25% os salários dos membros da administração, reduzir os gastos com fornecedores e serviços externos e concessionar a gestão de postos de correios a terceiros.

Os cortes anunciados acalmaram os investidores e as ações chegaram a recuperar quase metade das perdas sofridas desde  final de outubro, após a empresa ter anunciado uma queda dos lucros de 57,6% para 19,5 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano. Ainda assim, insuficiente para travar o regresso às perdas. Na última sessão da semana, os títulos dos Correios a caírem mais de 1,5% a rondar os 3,5 euros por ação. 

Também os analistas do BPI melhoraram a recomendação para as ações de underperform para ‘comprar’, devido à evolução negativa da cotação (os títulos descem 31% desde a última revisão, no final de outubro). O preço-alvo mantém-se em 4,70 euros, apesar de o BPI reconhecer os riscos relacionados com as despesas operacionais da implementação do plano. O target traduz um potencial de valorização de quase 29%, tendo em conta a cotação atual (3,645 euros) e consideram os  títulos ‘atrativos’ para os investidores internacionais.

Maior acionista justifica-se 

Manuel Champalimaud, o maior acionista dos Correios, defende que a empresa tem de «acompanhar a evolução do mercado, ser mais competitiva e ganhar eficiência, reduzindo os custos nas áreas que estão em queda e investindo nas áreas de maior desenvolvimento». No entanto, garante que o «sacrifício será limitado» em termos de cortes dos postos de trabalho. São necessários para a «sustentabilidade da empresa».

Já em relação à eficiência dos serviços de correios, Champalimaud garante que, numa empresa com cerca de 12 mil funcionários e milhões de entregas por mês, «é impossível que não se registem algumas queixas e atrasos» e que estes problemas se devem «ao funcionamento da máquina e não ao facto de os CTT serem geridos pelo Estado ou por privados».

É neste sentido que, diz Champalimaud, caso o Governo decida «acabar com esta concessão, nessa altura entra a concorrência estrangeira, a marca depressa desaparecerá e o quadro de pessoal, aí sim, será muito sacrificado».

Também Francisco de Lacerda, deixou uma palavra de compromisso. «Vamos manter, queremos manter a qualidade, cumprimos e queremos continuar a cumprir as regras regulatórias, mas isso não nos impede em cada momento de encontrar as melhores soluções para equilibrar o cumprimento das regras de uma boa qualidade de serviço com a eficiência que qualquer empresa tem que permanentemente prosseguir».

Já em relação aos dividendos a distribuir aos acionistas e que têm sido alvo de fortes críticas, o responsável disse apenas: «São os que, em cada momento, pareçam mais adequados. Não são exagerados». Para este ano está previsto o pagamento de 38 cêntimos a ser pago em 2018.

Os trabalhadores estiveram em greve quarta e quinta-feira. O sindicato falou em adesão de 80%, a administração aponta para 17%.