Sociedade

Venezuela. O pernil que azedou a relação entre Maduro e Portugal

O pernil de porco é para o Natal dos venezuelanos o mesmo que o bacalhau é para os portugueses. Presidente venezuelano prometeu entregá-lo no cabaz oferecido aos mais pobres, mas a falta de pagamento terá travado a importação

A braços com uma “revolta do pernil” na Venezuela, com protestos nas ruas de gente que reclama por mais comida, incluindo que o governo cumpra a promessa de dar às famílias mais carenciadas o prometido cabaz de Natal com produtos essenciais, entre eles o pernil de porco que faz parte da tradição desta época festiva, o presidente da Venezuela resolveu apontar o dedo além-mar, até Portugal, para acusar o país de ser o causador da carência.

“O que se passou com o pernil? Fomos sabotados e posso dizer de um país em particular: Portugal”, disse o presidente venezuelano numa comunicação. “Estava tudo pronto, comprámos todo o pernil que havia na Venezuela, mas tínhamos que importar e sabotaram a compra”, continuou.

As declarações de Nicolás Maduro parecem ser uma cortina de fumo, pois em causa poderá estar a falta de pagamento do governo venezuelano, que terá levado as empresas portuguesas com faturas em dívida a não negociar nova remessa.

A Raporal, uma das empresas envolvidas na exportação de carne para a Venezuela em 2016, disse ontem, em comunicado, que o governo de Nicolás Maduro ainda deve 40 milhões de euros referentes ao contrato de fornecimento desse ano, “dos quais 6,9 milhões de euros dizem respeito ao cumprimento do pagamento à Raporal”.

A empresa explica que “tem recebido de forma parcelar valores a abater na conta corrente referente a este contrato, sendo que a última ocorreu em agosto de 2017”, na mesma altura em que os Estados Unidos congelaram as contas de Nicolás Maduro.

A empresa foi mesmo recebida ontem de manhã pelo embaixador da Venezuela em Lisboa que “se comprometeu, em nome da Venezuela, a realizar o pagamento integral em falta referente ao fornecimento de 2016, até março de 2018”.

A empresa garante ainda que “não tem conhecimento de qualquer ato de sabotagem de Portugal em relação ao fornecimento de pernil de porco à Venezuela, mas antes confirma que é a Venezuela que não tem cumprido pontualmente as suas obrigações de pagamento dos fornecimentos” do ano anterior.

A empresa acrescenta ainda que “não forneceu em momento algum, o governo venezuelano, no ano em curso”. O i tentou contactar a embaixada da Venezuela, sem sucesso.

Negócios de Mário Lino A empresa responsável pelo envio do pernil de porco é a Agrovarius, que pertence ao grupo Iguarivarius liderado pelo ex-ministro do governo Sócrates, Mário Lino e no ano passado vendeu 14 mil toneladas de carne à Venezuela, num total de 63,5 milhões de euros, segundo noticiou o jornal “Negócios” a 11 de novembro de 2016.

A empresa foi criada com o objetivo de exportar produtos alimentares,  e teve sempre a Venezuela como principal mercado. Em 2010 foram vendidas 2500 toneladas de pernil de porco congelado, valor que foi aumentado anualmente, chegando às 14 mil toneladas de 2016.

A empresa entretanto diversificou a sua carteira de negócios com a Venezuela, e tinha, em 2016, contratos na ordem dos 100 milhões de dólares (que correspondem a 91,6 milhões de euros) em petróleo e gás, materiais de construção e componentes industriais. Em junho do mesmo ano, foi ainda distinguida pela bolsa de Londres como uma das mil empresas europeias com maior crescimento.

Mário Lino é presidente do conselho de administração da Iguarivarius, pertencente ao Grupovarius, que inclui também a Agrovarius. Enquanto ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Lino foi um dos principais elos entre o governo de Hugo Chávez, o antigo líder venezuelano, e o Executivo português.

A relação entre os dois países aprofundou-se tanto no tempo de Chávez e Sócrates (Portugal vendeu também o célebre computador Magalhães para as escolas venezuelanas) que, quando o então presidente visitou Portugal chegou mesmo a fazer um discurso de agradecimento especial aos ministros “Pino e Lino, Lino e Pino”, referindo-se a Manuel Pinho, ministro da Economia e da Inovação, e a Mário Lino. O momento chegou a ser satirizado pelo grupo cómico Gato Fedorento no seu programa televisivo semanal “Zé Carlos”.

Em 2011, Mário Lino, já fora do governo, deslocou-se à Venezuela, estava Passos Coelho no poder, integrado na comitiva empresarial que acompanhou o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas. Segundo a “Sábado”, já nessa altura como representante da Iguarivarius.

O i contactou o Grupovarius, mas a empresa não quis prestar quaisquer esclarecimentos sobre a matéria. Não foi possível o contacto com Mário Lino.

Ministro responde O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, em declarações à TSF, garantiu que o governo português “não tem seguramente esse poder de sabotar pernil de porco”, remetendo para as empresas as questões referentes às exportações.  No entanto, Santos Silva afirmou que é um “cientista profissional” e, por isso, “vamos apurar os factos e depois tiraremos as conclusões”.

“Quanto a consequências sobre a comunidade portuguesa residente na Venezuela - afirmou o ministro, citado pela Lusa -, julgo que não haverá nenhumas porque não faz sentido que haja. Os portugueses que trabalham na Venezuela e os seus descendentes são um grupo que contribui imenso para a economia e a sociedade venezuelana”.