Politica

O movimento que estraga a história oficial do MPLA

Passam 60 anos da criação do Movimento Anticolonialista em Paris. O MAC nasceu com ideias panafricanistas, mas depressa teve de ceder aos nacionalismos na luta anticolonial.

No projeto de resolução apresentado pelo Movimento Anti-Colonialista português na IIConferência dos Povos Africanos, em Túnis, em 1960, o carimbo final do documento inclui o nome do grupo político com as siglas em grande ‘MAC’ e a lista de países: Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique.

Era o culminar de uma reflexão que começara três anos antes em Paris e que visava, com os ideais do panafricanismo e a influência marxista, juntar na mesma causa os grupos que lutavam pela libertação do colonialismo português. Uma união de forças que seria, no entanto, chumbada na capital tunisina pela visão maioritária de que a luta pela autodeterminação tinha de ser nacionalista.

É isso que escreve Viriato da Cruz – que, nesse mesmo ano de 1960, iria criar na Guiné-Conacri o MPLA (junto com Mário Pinto de Andrade e Lúcio Lara, que estiveram na génese do MAC, junto com Amílcar Cabral, Marcelino dos Santos, entre outros) – em comentário manuscrito ao manifesto do MAC: «O movimento revolucionário anticolonialista, em cada um dos nossos países, não depende, nem pode depender de qualquer outro movimento revolucionário de países vizinhos ou afastados, qualquer que seja o regime social destes. Em cada um dos nossos países, o movimento anticolonialista é independente».

O próprio Viriato da Cruz já pusera a circular, para ser discutido entre os intelectuais nacionalistas em Paris, desde o ano de 1958, um manifesto que viria a servir de base à fundação do MPLA, de acordo com o livro de Carlos Pacheco MPLA – Um Nascimento Polémico.

«O MAC estivera muito bem [...], não podíamos ter deixado de o criar, mas era urgente começar a pensar em movimentos nacionalistas», disse o médico Eduardo dos Santos (não confundir com José Eduardo dos Santos), citado por Carlos Pacheco.

«Lembro-me que, em 1957, quando lançamos o MAC, do qual faziam parte estudantes das várias colónias portuguesas africanas, como Agostinho Neto, eu próprio, Lúcio Lara, Amílcar Cabral, Mário de Andrade, Carlos Pestana e Iko Carreira, começamos por desenvolver um profundo trabalho de consciencialização e de mobilização de muitos jovens na Casa dos Estudantes do Império e de trabalhadores no Clube Marítimo Africano», afirmou Edmundo Rocha, em entrevista publicada pelo site Central Angola.

«O Agostinho Neto pertence a esse tal MAC, era um grupo de intelectuais africanos que aqui estava a estudar, que tinha uma solidariedade quer ideológica, quer de objetivos, quer de idade. Eles tinham uma diferença de sete a dez anos para a nossa geração, a minha e do Gentil Viana», explica ao SOL Adolfo Maria, antigo membro do MPLA, integrante da Revolta Ativa.

O papel desempenhado pelo MAC na luta pelas independências dos países africanos de expressão portuguesa acabou por sofrer uma erosão maior do que a do tempo – o reescrever da história. Para a historiografia oficial, interessava ao MPLA surgir como pioneiro na organização da luta anticolonial em Angola e, para tal, estabeleceu como data fundadora o 10 de dezembro de 1956 em Luanda, data essa que se tornaria incompatível com o surgimento do MAC em 1957. No sedimentar dessa história estão nomes que contribuíram para as discussões em torno do manifesto do MAC, como Lara e Mário de Andrade.

«O MPLAtentou durante muito tempo esconder isso. Quando eles vão à conferência de Túnis o Hugo de Menezes, o Lúcio Lara, o Amílcar Cabral – vão como MAC, e é isso até que serve para demonstrar que o MPLA não existia naquela ocasião», conta Adolfo Maria, que em 1959 se cruza em Paris com Mário Pinto de Andrade, depois de já calejado nas lutas anticoloniais em Benguela.

Escreve Pacheco que o próprio Mário de Andrade confessou em 1990, pouco antes de morrer, que essa fora uma mentira necessária em que participara porque «o movimento precisava de se legitimar internacionalmente sob pena de desaparecer» e que «o ardil político» visava dar-lhe «um cunho de maior autenticidade nacional».

O MAC«era um movimento daqui de Lisboa», considera Adolfo Maria. E, no entender de Viriato da Cruz, «naquele momento histórico, o MAC, frente apoiada pelos comunistas portugueses, já não era um instrumento eficaz de resposta aos problemas cruciais da luta contra o colonialismo», regista Carlos Pacheco.

«Muitas pessoas das colónias foram politizadas pelo PCP e, a um momento dado, o partido tentou que engrossassem as fileiras do PC. E não é por acaso que há o MUD Juvenil e que o Lara vai ao V Congresso do PC defender a ideia, contrária à que estava em norma, a luta pela independência tinha de ser primordial para os africanos», diz Adolfo Maria.

De Túnis, chegaram a telefonar para Amílcar Cabral em Paris, a pedir que embarcasse imediatamente para a Tunísia, porque todos recomendavam «a conveniência de, no futuro, se apresentarem com uma formação nacional própria». Só que nem o fundador do PAIGC, nem Lara, nem os outros conseguiram que a All African Peoples aceitasse o MAC como membro. E ali mesmo, no Hotel Bristol, a 31 de janeiro de 1960, surgiria a sucessora do MAC, a FRAIN-Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional das Colónias Portuguesas, uma organização de movimentos nacionalistas.

Entre os documentos Amílcar Cabral da Fundação Mário Soares, encontra-se uma carta de 29 de março de 1961, onde se lê a dada altura: «O MAC deixará de existir, mas os seus elementos devem aproveitar-se para as novas condições. O seu núcleo diretivo impulsionará a formação de movimentos de cada colónia e desempenhará as funções de ‘comissão coordenadora’ da luta de libertação, na retaguarda do inimigo».