Desporto

Caldas. O clube centenário que está a fazer história

Mais de seis décadas depois, o Caldas volta a marcar presença nos quartos-de-final da Taça de Portugal. Jorge Reis, presidente do clube, lembra: “O Caldas é uma equipa completamente amadora”

A história às vezes pode ser escrita só ao fim de mais de 100 anos. E o Caldas é a prova disso. Hoje, o clube do Campeonato de Portugal, competição do terceiro escalão do futebol português, vai disputar os quartos-de-final da Taça de Portugal. Embora não seja um feito inédito, já que o clube das Caldas da Rainha chegou a esta mesma fase em 1955/56, ano marcado pela ascensão à primeira divisão do campeonato nacional, a caminhada feita esta época não tem comparação. Ao contrário da década de 50, em que foram precisos apenas dois triunfos para carimbar a presença nos ‘quartos’, 62 anos depois os comandados de José Vala tiveram de passar por cinco eliminatórias para esta quarta-feira serem um dos oito finalistas da prova-rainha do futebol português. Não chegasse este apontamento, o clube centenário, fundado em maio de 1916, tem uma série de particularidades que fazem dele um caso invulgar e especial. Desde logo o facto de ser um clube 100% composto por amadores: dos cargos da presidência aos da direção, passando pelos jogadores, “todos filhos da terra”, como os caldenses gostam de salientar. Esta é, aliás, a principal referência que o presidente do Caldas, Jorge Reis, faz logo à partida. “São duas equipas do Campeonato de Portugal, mas são realidades completamente diferentes. O Farense [líder da série E do Campeonato de Portugal] é uma equipa profissional, o Caldas é uma equipa completamente amadora”, lembra ao i, aproveitando para acrescentar que independentemente disso “nada retirará a ambição e o querer vencer para passar à eliminatória seguinte”.

Do jogo para o trabalho Tal como o próprio presidente, todos os futebolistas do Caldas dividem as suas rotinas entre os treinos e os respetivos empregos ou estudos. O sacrifício feito por estes atletas é fácil de perceber e basta recuar ao último domingo para se ter um pequeno exemplo disso mesmo. Depois de o clube ter viajado até aos Açores, para arrancar mais uma vitória ante o Guadalupe na 15.ª jornada da série D do campeonato, em que segura o oitavo lugar, a comitiva caldense voltaria a aterrar na sua cidade às três horas da madrugada de segunda-feira. Pelas 9 horas da manhã de a maioria do plantel já estava presente nos seus postos de trabalho. A história é contada pelo presidente do clube ao i, que tinha entrado em contacto com alguns jogadores antes de aproveitar a hora de almoço desta segunda-feira para se deslocar ao Campo da Mata para analisar o “estado do relvado” para o encontro de hoje.

“As expectativas são enormes, não só pelo resultado que possa aparecer mas acima de tudo por termos novamente uma casa cheia, termos outra vez a festa da Taça. Isso é o mais importante”, realça o líder caldense, que espera que os jovens voltem a mostrar a mesma “entrega, dedicação, e qualidade” que evidenciaram nos últimos dois encontros, com o Arouca e a Académica, ambos da II Liga. Quanto aos objetivos, parece não haver dúvidas: “A meta é o Jamor! Eu até tenho dúvidas se depois irei acompanhar a equipa ou se irei fazer a festa junto dos adeptos no Jamor porque já lá fui várias vezes ver a final da Taça e aquilo é o ‘nosso’ Jamor, mas em ponto grande. É uma coisa extraordinária, mas digo com sinceridade, fico dividido se hei-de acompanhar a equipa ou os adeptos. Se calhar vou dividir-me [risos]”.

Reerguer o Caldas Apesar de o Caldas estar a atravessar um momento de festa, o clube chegou a estar longe destes tempos áureos. O líder do clube abordou este “divórcio” entre a população caldense e o emblema da cidade, que agora acredita estar em processo de reconciliação. “O Caldas atravessou uma fase difícil da sua vida há cerca de 11 anos. Tinha muitas dívidas, falava-se em mudar de denominação, o que não aconteceu, e o Caldas pode celebrar os 100 anos. Mas face a essas dificuldades que teve, a cidade divorciou-se um bocadinho do clube, afastou-se. Aos poucos temo-nos vindo a aproximar da cidade e o expoente máximo desta aproximação foi o jogo com a Académica. Foi uma coisa extraordinária. Voltamos a ter na Mata muitas famílias, muitas pessoas que já não vinham ao futebol há muitos anos”, refere. Uma reestruturação e um longo caminho que permitiu colocar o Caldas dentro do pote de clubes cumpridores. E muito mais do que isso, voltar aos trilhos do sucesso. Quanto ao futuro próximo, o presidente prefere não criar grandes expectativas. Por isso, e quando se fala num possível adversário caso garanta o apuramento para as ‘meias’, Rio Ave ou Desportivo das Aves, Reis prefere fazer uso do seu sentido de humor. “Se algum deles fizesse falta de comparência era bom. Ambas são equipas da Primeira Liga e têm condições que nós não temos. Nada nem ninguém nos retirará a ambição mas é muito difícil. Se fosse só uma mão, as coisas poderiam acontecer... mas em duas mãos é muito mais difícil uma equipa do Campeonato de Portugal, seja ela qual for, atingir a final da Taça”.