Fogo volta a atacar em Tondela. “Estava sempre com a sensação que ia morrer”

Três meses depois dos incêndios que assolaram Tondela, o fogo voltou a vestir o concelho de luto. Há quem acredite que existe “uma maldição do fogo”

“Passou por aqui o diabo”, relata desesperado um homem ao telefone o que aconteceu na noite de sábado na Associação Cultural, Recreativa e Humanitária de Vila Nova da Rainha, em Tondela. Ontem de manhã, poucas horas após a tragédia que vitimou oito pessoas, reinava a tristeza por entre o nevoeiro que se abateu sobre a pequena aldeia. Pelas ruas à volta da associação iam se ouvindo as histórias e as palavras de quem tudo fez para salvar os vizinhos. “Parece que é uma maldição do fogo que aqui temos”, diz Maria do Céu Loureiro, numa alusão aos incêndios de outubro que também fustigaram a região.

“Quando vejo que não havia ninguém a sair [do edifício], venho ao salão e apanho com um bafo de calor”, relata Júlio Dias, um dos habitantes que ajudou no resgate. “Encontrei algum pessoal e começámos a tentar partir vidros. Nem uma pedra havia no chão”, continua contando que um amigo se lembrou de usarem os tacos de bilhar. Ao seu lado está António João Mota, um sobrevivente. Explica que o fumo começou ao pé da salamandra e que depois se “incendiou tudo, parecia que estavam a espalhar gasolina por todo lado”. Desde esse momento, “estava sempre com a sensação que ia morrer”, acrescenta.

As causas do incêndio estão ainda a ser investigadas pela Polícia Judiciária, no entanto a maior parte das pessoas que esteve na associação aponta a salamandra como sendo a origem mais provável do incêndio. “Se não rebentássemos a porta morriam lá todos”, continua Júlio, adiantando que “ficaram deitados uns em cima dos outros”. A saída para a rua ficou bloqueada pelos que queriam desesperadamente sair. Isto, porque a porta abria para dentro, foi preciso recorrer a um veículo todo-o-terreno para a arrombar.

Este fim de semana decorria a segunda etapa do tradicional torneio de sueca que, há mais de 15 anos, juntava os cidadãos de várias freguesias e até dos concelhos vizinhos. “Tanto fim de semana que só havia lá três ou quatro pessoas”, lamenta António Mota Correia, um jogador habitual que este ano teve “uma sorte daquelas”. “Tinha sido convidado para fazer parte da equipa da associação e disse que não”, conta.

Muitos vizinhos juntam-se na rua para prestar homenagem aos familiares das vítimas. Nazaré Silva conta que perdeu um primo no incêndio: “Tinha falado com ele meia hora antes. Ele até me tinha dito, porque o meu marido está doente, ‘ele que beba uns copos de bebida que isso passa’”.

Vítor, primo de Nazaré, não habitava a aldeia há anos (vivia em Coimbra) e voltou à freguesia dois dias antes de morrer para estar presente no funeral da mãe. Junto a ele, na associação, estava também o irmão que sobreviveu, mas que ainda está internado no hospital.

Ali na rua, junto a dezenas de pessoas estava também Ana Paula, sem paciência para muitas palavras. O marido é outro dos feridos graves e está em coma induzido no hospital de Coimbra. A má notícia chegou-lhe através de um vizinho que foi bater-lhe à porta durante a noite.

A associação era o principal ponto de convívio na aldeia, conta José Lagarto, um dos fundadores da instituição. “Era importante porque as pessoas divertiam-se aqui”, acrescenta lembrando que a associação da freguesia vizinha também ardeu durante os incêndios do verão. Para o presidente da junta de freguesia, Ventura Gonçalves, “pode custar recordar este facto”, mas “devemos partir para a recuperação”.

Marcelo enaltece a entreajuda O Presidente da República chegou ontem à aldeia pouco passava do meio-dia. Para a população, a presença de Marcelo Rebelo de Sousa é “um grande apoio”, porque “é nestes momentos que se veem os amigos”, afirma Maria do Céu Loureiro. Natural de Campo de Besteiros, uma das freguesias pertencentes a Tondela, Maria do Céu veio mostrar-se solidária com as vítimas. “Morreram pessoas do meu concelho”, justifica.

As primeiras palavras de Marcelo foram para “apresentar as condolências e o testemunho da solidariedade aos familiares das vítimas mortais e também aos familiares das vítimas que estão a ser assistidas”. O chefe de Estado, que se fez acompanhar pelo ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, e pelo deputado do PSD, António Amaro Leitão, dedicou grande parte da sua atenção a Jorge Coimbra, presidente da associação há mais de 18 anos, a quem deu um abraço sentido de compaixão.

“Se todos fossem como ele isto seria diferente”, ouve-se uma senhora dizer enquanto Marcelo passa pela multidão.

A mensagem que o Presidente tinha para a população era de apreço: “Todos estiveram à altura das circunstâncias numa situação daquelas que nós desejaríamos não ter ocorrido”, disse o chefe de Estado, “por isso mesmo é que aqui estou”.

Como já habituou o país, Marcelo não se deixou ficar pelas palavras. Visitou duas famílias de vítimas mortais e foi ao hospital de Viseu para deixar uma mensagem aos feridos: “Encontrei uma grande entreajuda e uma grande solidariedade. Muitos parentes e muitos vizinhos e muitos amigos, encontrei uma grande força de vontade”.

“Isto é um povo espetacular”, disse Luís Filipe Pereira, mais conhecido na aldeia por “Menino Jesus” por fazer parte da igreja Evangélica. A noite de sábado passou-a acordado para levar o marido de uma das vítimas mortais ao hospital.

“Somos amigos há 30 anos. Grande parte das pessoas que morreram fazem-me falta”, acrescenta.