Cultura

João Pedro Vale: “É assédio desde o momento em que coloca em causa a segurança da pessoa seduzida”

Desde a publicação da já chamada carta de Deneuve no “Le Monde” que o consenso inicial em torno do tema do assédio parece desfeito. Partindo desta ideia, o i  fez duas perguntas:

1. Qual é para si a fronteira entre sedução e assédio?

2. Qual a sua posição em relação à carta aberta subscrita por Catherine Deneuve e os contornos que está a ganhar o movimento #MeToo?

João Pedro Vale, artista 

1. Diria que se trata de assédio desde o momento que coloca em causa a segurança da pessoa seduzida, mas os contornos deste espaço de segurança são difíceis de definir, resultam de um processo de negociação que terá de ser gerido pelos agentes envolvidos.

2. Não concordo nem com uma posição nem com outra, porque me parece que ambas são extremadas, essencialistas e oriundas de um lugar de privilégio. Por um lado, existe uma grande dose de puritanismo e de caça às bruxas na instrumentalização, assimilação e mediatização do movimento #metoo. A forma como este movimento infantiliza o papel da mulher e o seu agenciamento e higieniza as relações pessoais e sociais parece-me perigosa na medida em que tenta estabelecer um modelo fascista para a forma como as pessoas se devem relacionar. Por outro lado, o excessivo reconhecimento e empoderamento do papel da mulher defendido pelas francesas parece-me ilusório, na medida em que reconhece para a generalidade das mulheres um privilégio que ainda poucas têm, pondo em causa as que não vêm desse lugar de privilégio. A minha simpatia inicial pelo movimento #metoo prendia-se com as possíveis consequências positivas que poderia ter para outras camadas menos privilegiadas da população, consequências essas postas em causa com a instrumentalização e mediatização de que esse movimento está a ser alvo.