Cultura

Cíntia Gil: “Carta de Deneuve parece ter sido escrita por velhas bêbadas”

Desde a publicação da já chamada carta de Deneuve no “Le Monde” que o consenso inicial em torno do tema do assédio parece desfeito. Partindo desta ideia, o i  fez duas perguntas a (Pôr o nome e o cargo da pessoas):

1. Qual é para si a fronteira entre sedução e assédio?

 2. Qual a sua posição em relação à carta aberta subscrita por Catherine Deneuve e os contornos que está a ganhar o movimento #MeToo?

Cíntia Gil, diretora do Doclisboa 

1. É uma questão extremamente íntima, tem a ver com as relações entre as pessoas, que são subjetivas, mutantes. A resposta é a que cada um terá no seu momento. Claro que depois há a questão do poder. E é evidente que há casos muito claros de assédio em que o poder é usado como modo de persuasão e invasão. Vivemos numa sociedade de caráter heteronormativo e patriarcal e acho que é preciso reinventar estas relações de poder, tanto para as mulheres como para os homens, para se ultrapassar esta ideia de um feminismo baseado na anatomia e para que a liberdade sexual passe verdadeiramente por quebrar a fronteira entre homens e mulheres e a forma estanque como os papéis foram definidos.

2. A carta de Deneuve é que me parece uma carta escrita, nem sei se isto se pode publicar assim, por “velhas bêbedas”. Compreendo-a, porque é escrita por mulheres que viveram numa época em que a questão da libertação sexual foi fundamental, mas de uma maneira que hoje em dia já não é a mesma. Traz uma questão importantíssima, e que tem sido posta de fora da equação, que é a questão do desejo, e outra que é a da censura e dos mecanismos de opressão que estão a ser usados por parte destas so-called feministas, com destruição de personalidades e julgamentos em praça pública. Há um texto muito interessante da Atwood sobre isso. E é antifeminista, porque é a reprodução dos modelos mais castradores e antiquados desta sociedade.