Tecnologia

Amazon. O supermercado que não tem caixas

A Amazon abriu ao público a sua primeira loja com o sistema informático “Just Walk Out”, que promete revolucionar a ida às compras dos clientes. Empresa diz que longas filas de espera nas caixas são coisa do passado

Visto de fora, o supermercado não se diferencia de tantos outros espalhados pela cidade de Seattle, Estados Unidos, mas lá dentro a realidade é bem diferente. Chamam-lhe o “supermercado do futuro”, mas também há quem receie esta evolução.

A Amazon, a maior empresa de distribuição online do mundo, abriu esta segunda-feira o primeiro supermercado sem quaisquer caixas registadoras – tudo funciona eletronicamente. As longas filas de espera, principalmente aos fins de semana, parecem ter chegado ao fim, promete. O sistema chama-se “Just Walk Out” (basta sair) e veio para ficar.

À entrada do espaço de 167 metros quadrados veem-se apenas pórticos eletrónicos – muito à semelhança dos do metropolitano de Lisboa –, onde os consumidores devem passar o smartphone com a aplicação Amazon Go. Cada cliente tem um código QR próprio. A partir daí, tudo depende das escolhas dos consumidores: nas prateleiras encontram-se os produtos de sempre e, se quiserem, podem levar refeições já feitas para casa. É só pegar nos produtos escolhidos, colocá- -los dentro dos sacos e passar pelos pórticos. Depois, os clientes receberão um email a anunciar que o preço da totalidade dos produtos foi descontado no cartão de débito ligado à conta Amazon Go.

As únicas – mas significativas – diferenças entre este e qualquer outro supermercado são os pórticos e as centenas de câmaras de infravermelhos e sensores de movimento espalhados pelo teto da loja. Estes registam os momentos em que os clientes retiram (ou voltam a colocar) os produtos das prateleiras, registando-os (e retirando-os se voltarem a arrumá-los) automaticamente na conta do cliente. Curiosamente, nenhum produto tem anexado qualquer dispositivo eletrónico ou de localização, o que gerou o interesse das primeiras cobaias. Para além de o sistema utilizar “visão computorizada, algoritmos de aprendizagem profunda e fusão de sensores”, a empresa não deu mais pormenores sobre o funcionamento do sistema nem sobre a sua fiabilidade, porventura por receio de que os seus concorrentes o copiem.

Ainda assim, e como um jornalista do jornal norte-americano “The New York Times” constatou, parece não ser um sistema permeável ao roubo. O jornalista pegou no produto com cuidado para as câmaras não captarem o ato, mas quando abandonou a loja recebeu na mesma um email a comunicar-lhe que o preço tinha sido descontado no seu cartão de débito.

Quatro anos de ensaio O percurso da loja começou há mais de quatro anos, quando se começou a desenvolver a tecnologia quase de raiz. No último ano, contudo, a loja começou a funcionar, mas apenas para os funcionários, numa fase de experimentação. Nessa altura, a empresa confrontou-se com várias falhas do sistema: a identificação errada dos clientes com fisionomias parecidas e, quando crianças foram integradas nos testes, alguns dos produtos deixaram de ser reconhecidos depois de as crianças os mudarem de lugar, danificando-os um pouco. Estas dificuldades foram ultrapassadas e a empresa cumpriu o prazo definido para o supermercado abrir ao público: inícios de janeiro de 2018.

Este novo sistema informático insere--se numa estratégia de penetração no mercado de retalho por parte da Amazon. Há dois anos, a empresa comprou a cadeia de supermercados britânica Morrisons e, no ano passado, a norte- -americana Whole Foods Market, por 11,1 mil milhões de euros. Esta última tem 451 lojas nos Estados Unidos e nove no Reino Unido.

A gigante da distribuição online faturou no terceiro trimestre de 2017 mais de mil milhões só com as suas lojas físicas, provindo grande parte das receitas da Whole Foods.

Apesar da expansão nos últimos anos, a Amazon não avançou informações sobre se irá voltar a crescer no futuro próximo, inclusive com novas lojas com este sistema. Ainda assim, Brian Olsavsky, diretor financeiro, deu a entender que os seus rivais podem esperar mais lojas nos próximos meses e anos. “Verão mais expansões da nossa parte – ainda é cedo, mas estes planos serão desenvolvidos no futuro”, garantiu à BBC em outubro passado.

E os trabalhadores, pá? Embora menos do que no passado, trabalhadores nas caixas de supermercados são ainda o normal nos países tecnologicamente mais inovadores, mas com este sistema deixarão de o ser. Levanta-se então a questão de quantos milhões de postos de trabalho estarão ameaçados em todo o mundo caso a Amazon decida vender o modelo às empresas do setor ou surjam alternativas semelhantes. Esta decisão não seria inédita se tivermos em conta que a empresa já vende a outras empresas espaços de armazenamento de informação do seu próprio sistema informático.

Segundo um estudo da consultora McKinsey, entre 400 milhões e 800 milhões de pessoas por todo o mundo poderão vir a perder os seus postos de trabalho em consequência do avanço da automatização até 2030. Com este sistema, o espetro da automatização ameaça os postos de trabalho de mais de 3,5 milhões de trabalhadores de caixa de supermercado, algo que a empresa defende, desde já, não ser o caso.

Para a Amazon, este sistema apenas altera as funções dos trabalhadores, não lhes elimina o posto de trabalho. “Nós apenas colocámos trabalhadores em diferentes tipos de tarefas em que pensamos que adicionam valor à experiência do cliente”, disse Gianna Puerini, vice-presidente da Amazon Go, ao “New York Times”.

Entre as tarefas referidas encontram--se o reabastecimento das prateleiras e o apoio ao cliente em situações de dúvidas ou problemas técnicos. Uma vez que o supermercado tem serviços de take- -away, os trabalhadores mantêm, por exemplo, as funções de preparar diariamente as refeições. Há também outras secções em que são muito úteis. A Amazon destacou uma em particular: a de vigilância do corredor de bebidas alcoólicas. Um trabalhador manter-se-á nesse local para garantir que menores – nos Estados Unidos, o consumo de álcool é proibido a menores de 21 anos – não compram bebidas com álcool, pedindo-lhes a identificação sempre que considerem necessário.

As bases para o sucesso da Amazon representam, no entender dos mais céticos em relação a esta revolução tecnológica, uma ameaça para os trabalhadores e seus direitos, tanto pela crescente automatização que a empresa utiliza no processo produtivo como pela disciplina que impõe aos trabalhadores.

No passado, a empresa foi mesmo acusada de explorar e violar os direitos dos seus funcionários. Segundo relatos em centros de distribuição no Reino Unido, os trabalhadores ficam tão cansados pelas longas horas de trabalho que chegam ao ponto de adormecerem em pé. A disciplina no local de trabalho é tão rígida que os trabalhadores têm tempo contabilizado para irem à casa de banho, algo que a empresa nega. Em períodos de grande fluxo de encomendas, como o Natal, os trabalhadores denunciam pressões para fazerem longos turnos, resultando em semanas de trabalho na ordem das 55 horas. A empresa nega que tal aconteça e, em comunicado de imprensa, rejeitou as acusações. “A Amazon oferece um local de trabalho seguro e positivo, com salários e benefícios competitivos desde o primeiro dia. Estamos orgulhosos por termos criado milhares de postos de trabalho permanentes nos nossos centros de atendimento no Reino Unido, nos últimos anos.”

No entanto, em fóruns online de emprego britânicos, as referências negativas à Amazon abundam: “trabalha-se que nem robôs” e “paranoia com a segurança do trabalho” são algumas das queixas. Entre as acusações encontra-se a de a empresa banir o direito aos fins de semana aos trabalhadores nos meses de pico do consumismo, novembro e dezembro.