Cultura

Muita uva, Nicanor

Nicanor Parra, o antipoeta chileno que morreu na semana passada com 103 anos, só podia ficar com os pés de fora de qualquer epitáfio ou elogios fúnebres com que tentassem fazê-lo descer calmamente para debaixo do solo, e para falar da sua teimosa existência, um dos seus raros tradutores portugueses, Miguel Filipe Mochila, mostra porque é tão importante para a sua biografia aquilo que realizou como tudo aquilo que recusou 

 

Na Biblioteca Nacional de Espanha, no Paseo de Recoletos em Madrid, nas imediações do bairro pijo de Salamanca, dois longos corredores exibem os quase sempre faustosos retratos – maioritariamente a óleo – dos diversos escritores e das escassas escritoras até à data distinguidos com o Prémio Cervantes. Vigiando uma das raras janelas que interrompem aquela claustrofobia cerimonial, num recanto onde se dão amiúde ajuntamentos de um punhado de adictos à cafeína convocados pela única máquina de venda automática de serviço, de uma não menos rara fotografia a preto e branco um físico de einsteiniano cabelo alvo, de negro trajado, apascentado num tédio mortal, dorme uma contínua siesta, e aborrece.

Este indivíduo disfarçado de cientista louco – e vice-versa – é Nicanor Parra, o antipoeta chileno que morreu em La Reina, no seu Chile natal, a 23 de Janeiro passado, e definitivamente não pertence àquela exuberante solenidade da sociedade dos autores. Conhecendo os seus antipoemas, canções populares, poemas visuais, artefactos e discursos, apetece olhar a inusitada fotografia com a prédica de Caetano Veloso em fundo – “Respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada, (…) vaca profana, põe teus cornos pra fora e acima da manada. (…) Dona das divinas tetas, derrama o leite bom na minha cara e o leite mau na cara dos caretas” –, dado que o viejo se propôs justamente profanar as vacas sagradas da cultura oficial.

O seu aborrecimento teve uma teimosia de 103 anos, sobrevivendo ao espantoso grupo de poetas entre os que irrompeu e com que rompeu, Vicente Huidobro, Pablo Neruda e Pablo de Rokha, a que aludiu no seu “Manifesto”, defendendo a antipoesia contra a “poesia de pequeno Deus”, a “poesia de vaca sagrada”, a “poesia em tom furioso”, respectivamente. Renunciando à retórica snob e hermética do modernismo de inícios do século XX, mas também à apologia progressista de certas vanguardas goradas pela ruína dos grandes projectos ideológicos que as décadas de 30 e 40 sanguinariamente perderiam, Parra haveria de responder a essa urgência de um projecto contracultural com a publicação, em 1954, de Poemas y antipoemas. Em confronto directo com a ortodoxia estetista ou académica vigentes, iniciava então uma crítica da sociedade de consumo e da cultura massificada, com a sua mania “ecoicida”, a sua inclinação suicida e ecologicamente catastrófica. Pretendia, então, “rever a história da cultura e ver em que momento a linha que sai do paraíso se desvia para o inferno.”

A antipoesia serviu-lhe justamente para derrubar as premissas em que a nossa civilização ancora e é por isso inquietante vê-lo posado na magna instituição sedeada na metrópole imperial. Dormir é porventura o seu modo de sonhar ali com a longínqua San Fabian de Alico, perto de Chillán, no sul do Chile, onde nasceu a 5 de Setembro de 1914, entre duas mãos cheias de futuros músicos, escritores, arquitectos e artistas plásticos. A sua irmã mais nova, Violeta Parra, é uma lenda que extravasa a dimensão continental e, no coração de Santiago, o museu que é dedicado à cantautora ostenta por estes dias um livro de condolências para que o povo chileno possa homenagear Nicanor.

Parra insurge-se contra a “poesia do Olimpo”, recusando a pretensa dignidade do literário, conforme sustentava em 1949, a partir de Oxford, em carta a Tomás Lago, que em 1938 o incluíra em Ocho poetas chilenos, reconhecendo a relevância da sua proposta: “a arte não pode ser senão uma reprodução objectiva de uma realidade psicológica, e esse fim não se alcança tratando de mostrar apenas o que se considera revestido de certa dignidade. Um poema deve ser uma espécie de corte feito na totalidade do ser humano, no qual se vejam todos os nervos, fibras musculares, todos os ossos e artérias, todos os pensamentos, imagens e associações”.

A defesa de uma “cultura propriamente tal”, contra as elites encafuadas nos círculos literários e nos corredores universitários, traça-a através de um discurso derruidor e assente no popular, na habla comum, na experiência quotidiana, que o sintonizaria com aquele Blas de Otero que afirmava querer escrever como as pessoas que almoçam bocados de palavras. “A poesia morrerá se não a ofendermos, é preciso possuí-la e humilhá-la em público. Depois logo se vê o que se faz”, diria num dos seus “Artefactos”.

Como fizera o patrono do principal prémio das letras hispânicas no seu tempo, chutando para canto a tradição narrativa pré-Quixote, o chileno assumia agora a pretensão de pôr termo a uma estética caduca. Noutro “Artefacto”, em 1972, haveria de dizer que “Como já perceberam / encontramo-nos / na pré-história da poesia”. Essa pré-história implicava, por conseguinte, uma assumida distância em relação a tudo o que a Madrid institucional representava. Em Abril de 2012, a cerimónia de entrega do Prémio Cervantes 2011, na palaciana Alcalá de Henares, decorreu com o premiado a 11000 quilómetros de distância, lendo textos sobre o autor do Quixote, com saquetas de chá a fazer a vez de marcadores das páginas, procurando arquitectar um discurso plausível, com a tardança que o aparato mercantil do prémio não pôde atender.

Nessa manhã, na universidade de Alcalá, entre as autoridades que o protocolo ordenava, encontrava-se Patti Smith, que chegara à antipoesia através da admiração que nutria por esse Roberto Bolaño devoto de Parra, seu compatriota, e que dele disse escrever “como se no dia seguinte fosse ser electrocutado”. Com efeito, a antipoesia nascera de uma atitude radical, umbilicalmente ligada à projecção de uma vida que era a sua. Sobre a sua origem, lá para o ano de 1935, quando em conjunto com um grupo de amigos fundou a Revista Nueva no Internado Nacional Barros Arana, em Santiago do Chile, recordou o antipoeta: “O colégio era campeão de basquetebol e futebol, pelo que os atletas eram considerados heróis. A mim, ao Jorge Millas, ao Carlos Pedraza e ao Luis Oyarzún, que formávamos um grupo de intelectuais, chamavam-nos os filósofos e, de acordo com os desportistas, filósofo era sinónimo de palerma. Decidimos que tínhamos de reverter esta situação e para sermos aceites ocorreu-nos fazer um tipo de literatura humorística, com muitas graçolas e piadas, que fosse aceite por eles. Produziu-se um choque entre pedantismo e vulgaridade. Nós éramos os pedantes, eles os vulgares, e a síntese dialéctica entre ambos é a antipoesia.”

Licenciado em Ciências Exactas e Físicas pela Universidade do Chile, especializando-se em Mecânica Avançada pela Brown University de Rhode Island, estudou também cosmologia em Oxford. Durante 30 anos foi professor de Física na Universidade do Chile e em 1973 entrou para o Departamento de Estudos Humanísticos da Faculdade de Matemática, o que lhe valeu o repúdio de muitos esquerdistas, por não ter optado pelo exílio após a chegada de Pinochet ao poder. Coincidiu então com Enrique Lihn, poeta que foi o primeiro teorizador da antipoesia de Parra, e com o qual, a par de Alejandro Jodorowsky, fundara na década de 50 o jornal mural El quebrantahuesos. Durante o seu percurso académico deu aulas como professor convidado em Columbia, Yale ou Nova Iorque, granjeando admiradores um pouco por todo o lado.

Após uma estreia poética na senda de Federico García Lorca, com Cancionero sin Nombre (1937), e influído pelas leituras de Pound, T. S. Eliot, Blake ou Kafka, bem como por uma apropriação pessoal da psicanálise freudiana e do surrealismo, para o que a sua etapa inglesa foi decisiva, adoptaria definitivamente os princípios da antipoesia: retórica anti-retórica, ecletismo formal, uso de frases feitas e lugares comuns, recurso à ironia, à paródia, ao sarcasmo e ao humor negro, visão pessimista e reificação do absurdo e do anti-heroísmo, em ambiente predominantemente urbano, com um estilo fragmentário assente amiúde na colagem, no pastiche ou na montagem, quando não adoptando uma dimensão propriamente visual, herança da sua relação com o dadaísmo.

Em 1962, em Versos de Salón, título de teor irónico, enchia os decassílabos de sanções às solenidades poéticas. Seguiram-se, em 1969, Canciones Rusas e Obra Gruesa. Em 1972, com Artefactos, enveredava pela poesia visual, caligráfica e pelas colagens, que prolongará nas décadas seguintes. Em resposta ao golpe militar de 1973, publicaria Sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1977) e Nuevos sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1979), em que imitava grotescamente o discurso autoritário e religioso. Vieram depois Ecopoemas (1982), Chistes para desorientar a la policía poesía (1983), Hojas de Parra (1985) ou Discursos de sobremesa (1997), composições em que que palavra e imagem confluem, recorrendo a uma ortografia carregada de “&”, “x” ou “+”, antecipando a novilíngua das sms. Em 2004 publicou a sua tradução de King Lear de Shakespeare e em 2006 publicaram-se as suas Obras completas & algo + em Barcelona.

São 70 anos de uma acção irreverente, em ruptura permanente, em contínua invectiva e inventividade. Essa irreverência, a mesma que o seu sonolento retrato da Biblioteca Nacional atesta, levá-lo-ia a recusar entrevistas aquando da concessão do Cervantes, afirmando que toda e qualquer pergunta constitui “uma impertinência”. A mesma irreverência convertê-lo-ia em ícone dos jovens dos anos 60 do cono sul, de tal modo que, nas escadas que levam à porta da sua casa em Las Cruces, um grupo de jovens punkgrafitou essa palavra – “Antipoesia” – que se converteria em autêntica palavra de ordem, como cabe à poesia que não se esgota no livresco: “Vida em palavras / Um enigma que se nega a ser decifrado x professores / Um pouco de verdade e uma aspirina / Antipoesia és tu.”

Com tamanha vida e tamanha facécia, o Chile foi uma festa até ao fim para Nicanor Parra. No seu velório, celebrado na quarta-feira passada, houve até espaço para o justo alvoroço dos familiares, quando se aperceberam de que os responsáveis pela Catedral de Santiago se recusavam a fazer soar a música da Violeta sua irmã, contrariando a vontade de Nicanor. O seu sobrinho Nano prometeu que, no funeral em Las Cruces, celebrado na quinta-feira, a família se despediria de Nicanor “dançando e cantando”. O caixão onde o corpo do antipoeta antidescansa ostentava um dos seus “artefactos”. Nele pode ler-se a promessa de um antimorto. “Vou & Volto”.