Catalunha. Um par de mensagens deixam coxo o processo

A TeleCinco capturou imagens de textos em que Puigdemont atira a toalha ao chão e se diz “sacrificado”

A mais dolorosa e constrangedora machadada dos últimos meses no processo independentista catalão surgiu ontem de forma súbita e improvável. A veterana apresentadora televisiva Ana Rosa Quintana anunciou de manhã, emocionada e prometendo “salvar a Espanha”, que o seu programa obtivera o “maior furo jornalístico” da sua carreira ao capturar as imagens de mensagens enviadas pelo ex–presidente catalão Carles Puigdemont a um seu antigo ministro regional, Toni Comín, também exilado em Bruxelas. Nessas mensagens, Puigdemont declara que o processo independentista está “acabado”, diz que sacrificou a sua carreira e liberdade em nome de um “ridículo histórico” e argumenta que o governo espanhol triunfou. 

Puigdemont e Comín confirmaram ontem as mensagens. Os dois independentistas atacaram os jornalistas que as obtiveram e Puigdemont, encurralado, negou as leituras mais evidentes dos textos enviados na terça-feira. “Sou humano, também duvido”, afirmou o ex-presidente catalão no Twitter, assegurando que o bloco independentista, ao contrário do que as suas mensagens dão a entender, está unido e resoluto. “Se os do [artigo] 155 se convencem que o independentismo está dividido, vão ter um enorme desgosto. Com a sua pluralidade ideológica, a unidade do independentismo está absolutamente garantida.”

Fica a sensação de que catalães e espanhóis descobriram a careca a Puigdemont e à estratégia de se ver investido presidente contra as intenções do governo espanhol. A aliança independentista no Parlament começa a mostrar fissuras nesse ponto, sobretudo na ligação aos elementos do partido anticapitalista CUP, que recusam a estratégia de investir Puigdemont até às últimas consequências. O próprio Puigdemont já parece ter atirado a toalha ao chão. “Vivemos de novo os últimos dias da República Catalã”, escreveu a Comín. “Os nossos sacrificaram-nos”, acrescentou, falando das reviravoltas no seio dos independentistas.

As mensagens, para além disso, foram aparentemente redigidas num momento em que Puigdemont publicava nas redes sociais um vídeo em que se identifica como o legítimo presidente da Catalunha e no qual afirma que a aliança independentista está unida, firme e o investirá em breve. Comín garantia ontem que vai processar a TeleCinco, os independentistas não comentavam as declarações privadas de Puigdemont e os partidos da oposição agarravam-se ao caso e às fragilidades do processo. Inés Arrimadas, a líder do Ciudadanos da Catalunha, elogiou ontem a “valentia” de Puigdemont em ter reconhecido publicamente a “farsa” do processo independentista, “morto há muito tempo”. “Fica evidente que é um processo com pouco valor, poucas decisões e uma absoluta indefinição”, lançou ontem, por sua vez, um dirigente do PSOE, José Luis Ábalos.