Cultura

A Forma da Água. Ovos, água e um antídoto para quê?

A chegada às salas do último filme do realizador de  “O Labirinto do Fauno” vem embrulhada no título de filme mais nomeado  para os Óscares deste ano. Mas também numa polémica de alegado  plágio de uma peça  da década de 1960 

Não será preciso mergulhar fundo nestas águas para se chegar à base da receita de Guillermo del Toro para o seu último filme. Ovos, água e sexo, resumindo é isto, para uma história em que não há de faltar o lado negro da fantasia a pontuar a realidade, feito já marca do realizador mexicano. 

Virá então a misteriosa criatura emergir das águas para uma história de amor com uma das mulheres que fazem a limpeza do laboratório secreto em que é mantida em cativeiro – a criatura que a prisão desta mulher, Elisa (Sally Hawkins), invariavelmente, logo descobrimos ser outra. E será isto Del Toro a regressar a esse universo em que a fantasia vem rasgar a realidade, dura como bem a conhecemos desde “O Labirinto do Fauno”, sucesso maior do realizador mexicano, que apresenta este seu mais recente filme como uma homenagem ao bom romance gótico. 

Ele que, em entrevista ao “Guardian” a propósito deste filme, disse acreditar no mal como “um motor espiritual do nosso mundo, das nossas vidas, do universo, que funciona para criar o bem” – por isso, “necessário” como parte do ciclo de construção e destruição. E, numa outra, à norte-americana NPR, explicou como aqui aparece então “A Forma da Água”. Um filme que diz ter construído sobre “a ideia de empatia, de como precisamos uns dos outros para sobreviver”. Daí que o título original não fosse este mas “A Fairy Tale for Troubled Times” (um conto de fadas para tempos conturbados), revelou, acrescentando: “Acho que é um filme incrivelmente pertinente. Quase como um antídoto para muito do cinismo e da distância com que lidamos todos os dias.”

Antídoto e cinismo, ou nada pior do que, em inversão de papéis, a ironia da realidade a intrometer-se na fantasia. Recordista deste ano de nomeações para os Óscares (13 no total, à frente de “Dunkirk” e de “Três Cartazes à Beira da Estrada”), recordista de downloads ilegais da semana, “A Forma da Água” não chega, porém, às salas sem senão. Guillermo del Toro diz ter-se inspirado em “O Monstro da Lagoa Negra”, filme de terror a preto e branco estreado em 1954, com realização de Jack Arnold, de que se recorda da sua infância. A história é a de uma misteriosa criatura pré-histórica que aparece das profundezas da selva amazónica para ser capturada por um grupo de cientistas que se dedicará ao seu estudo. 

Pergunta dos últimos dias: ter-se-á o realizador esquecido de citar o resto das fontes de inspiração para o argumento, cujos créditos partilha com Vanessa Taylor? É que mais do que com “O Monstro da Lagoa Negra”, vejam-se as semelhanças com “Let Me Hear You Whisper”, uma peça do Pulitzer Paul Zindel, adaptada para a televisão pelo próprio em 1969: num laboratório da Associação Americana de Desenvolvimento Biológico, em que são levadas a cabo experiências com várias espécies de mamíferos, Helen, uma empregada da limpeza que nutre um carinho especial por um golfinho, fica em choque quando descobre que, não tendo aprendido a falar como esperavam os cientistas, o cetáceo é sinalizado para abate, para que seja dissecado o seu cérebro. 

Depois de terem surgido nas redes sociais as primeiras críticas a Del Toro pelas semelhanças com a peça de Zindel, veio o filho deste, David Zindel, falar ao “Guardian”: “Estamos chocados com o facto de um grande estúdio poder ter feito um filme tão obviamente procedente do trabalho do meu pai sem que ninguém o tenha reconhecido ou entrado em contacto connosco por causa dos direitos” – alegações que um porta-voz da Fox Searchlight veio já dizer não terem fundamento. Resta saber se o mesmo julgamento fará a Academia.