Médicos à espera do concurso escrevem ao ministro: “somos a cara do SNS”

O documento foi dirigido ao ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes

Um grupo de médicos recém-especialistas em Medicina Geral e Familiar decidiram demonstrar o seu descontentamento pela demora na publicação do concurso para Médicos de Família enviando uma carta aberta ao ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes.

Nela, os médicos explicam que concluíram o percurso formativo a 16 de outubro de 2017 e que desde essa altura que aguardam pela abertura do concurso. "Alguns, cansados de esperar, abandonaram o SNS rescindindo os seus contratos", pode ler-se no documento. 

Os signatários da carta afirmam que "diariamente milhares de utentes", entre os quais idosos, grávidas, pais de crianças e tantos outros, os questionam para saber se podem ser os seus médicos de família. "Desde o término da nossa especialidade que fazemos consultas avulso a utentes sem médico de família. A utentes que poderiam ter médico de família atribuído há quase 4 meses!", denunciam, quando existem "mais de 700.000 portugueses sem médico de família".

A situação é, para os médicos, mais grave por se encontraram "literalmente a 'tapar buracos'. Tentamos exercer a Medicina de Excelência que aprendemos e treinámos, mas temos imensas dúvidas em relação ao futuro destes utentes". 

A incerteza do futuro profissional é outra das questões que tem marcado o dia-a-dia destes profissionais: "É com profundo lamento que desde outubro de 2017 exercemos funções na incerteza do nosso futuro. Será esta semana que o concurso é publicado? Será na próxima? Será este mês?". E questionam quanto mais tempo terão de ficar à espera. 

Uma incerteza que não se limita á carreira profissional, mas que se estende à prória vida familiar, questionando o ministro sobre como podem "planear a vida das nossas famílias". "Muitos de nós já constituímos famílias, inclusive com filhos em idade escolar. A assimetria na distribuição de profissionais nos cuidados de saúde primários dita que muitos de nós irão exercer funções a centenas de quilómetros de distância", lê-se na carta. 

A contratação de médicos via empresas de trabalho temporário é outra das preocupações destes profissionais, visto que estas são, segundo eles, contratadas a "custos avultados e muito superiores", ao mesmo tempo que "se esquece [o Estado] de nós". 

Por fim, os médicos insurgem-se contra as promessas por cumprir do ministro da Saúde por este ter prometido na Assembleia da República lançar o concurso "dentro de dias", mas passadas várias semanas nada ter sido feito. 

A carta a que o i teve acesso é também do conhecimento do ministro das Finanças, Mário Centeno, do primeiro-ministro, António Costa, do presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, e do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.