Desporto

Taça de Portugal. Dragões e leões contra o futebol das cavernas!

Hoje (20h15), FCPorto e Sporting têm em mãos, pelas suas qualidades individuais e coletivas, a possibilidade de nos fazer esquecer estas tranquibérnias que parecem tornar-se insuportavelmente infinitas

Há muitos, muitos anos, quase 18, num restaurante chamado Caminetto, na Viale dei Parioli, para lá do Campo di Marzo e do jardim zoológico, em Roma, tive a oportunidade de perceber a ligação que Sérgio Conceição queria ter com o sucesso. Conversa longa, intensa. Mancini também lá estava, na mesa do fundo, com o ar envelhecido que sempre teve. E Fernando Couto. Eram duas horas da tarde, o bulício da cidade não tinha quebras, não havia intervalos na babilónia das suas ruas entupidas de trânsito como se sofresse das coronárias ou estivesse à beira de uma arteriosclerose. Só lá mais para a noite, quando as pessoas recolhiam aos subúrbios de Magliana, Garbatella ou Centocelle, e se podia caminhar tranquilamente pelo brilho exibicionista da Via Veneto, onde se estacionam Ferraris e Lamborghinis na beira do passeio, pela escadaria harmónica da Piazza Spagna, ou ficar por momentos a absorver o silêncio da Praça de S. Pedro completamente vazia, onde raros peregrinos noturnos vêm ver o centro de Roma sem ver o Papa.

Sérgio estava longe de se imaginar como treinador do FC Porto. Se calhar, até longe de se ver como treinador, mas havia nele uma ambição, uma vontade, uma gana, como dizem os espanhóis.

Não me admira, portanto, este seu FC Porto. É uma equipa com gana. E está nessa correia de transmissão entre treinador e jogadores a realidade de um líder do campeonato que, até este momento, tudo fez para o merecer.
Mas este é um FC Porto-Sporting.

Sporting à italiana, diz Jorge Jesus.

Foi um Sporting à italiana que conquistou a Taça da Liga, batendo precisamente o seu adversário de hoje na meia-final de Braga, ainda que só após as grandes penalidades.

Não foi um Sporting à italiana que perdeu no Estoril sem apelo nem agravo.

Foi um FC Porto de pulmão cheio que venceu o Braga no sábado que passou.

Recordações

Há um livro curiosíssimo da autoria de Eduardo Pereira de Araújo, publicado em 1971, que compila todos os jogos, equipas, resultados e estatísticas dos encontros entre o FC Porto e o Sporting de 1933 a 1971, iniciando--se precisamente com a final do Campeonato de Portugal de 1933, que só se decidiu através de uma finalíssima depois dos empates no Campo Grande (1-1) e no Ameal (0-0). Venceriam os portistas o desempate no Campo do Arnado, em Coimbra (3-1), tornando-se os primeiros a conquistar a prova que passou a chamar-se, a partir de 1939, Taça de Portugal, por muito que isso custe a um grupo recente de revisionistas, aliás como foi oficialmente decidido num congresso da federação datado precisamente do início dessa época.

Mas deixemos, para já, as tranquibérnias que só servem para empobrecer o futebol jogado, o futebol corrido, o futebol-do-dá-e-leva, como escrevia o inimitável Carlos Pinhão, e vamos deitar uma olhadela ao que pode vir a ser, esta noite, mais um dos clássicos renhidos, curiosamente com muita raridade reduzido a zero-a-zero, como sucedeu no último.
Assim de repente, será fácil atribuir ao FC Porto alguma dose de favoritismo. Tem sido, até ao momento, um conjunto mais compacto, mais agressivo e mais persistente – não sei porque me soou de súbito ao ouvido a voz do velho Alves dos Santos a falar de arreganho e pertinácia, palavras caídas num lamentável desuso. Além disso, convenhamos, o leão que vimos na Amoreira, sem Bas Dost e Gelson, figuras fundamentais para Jesus no que houve de época até aqui, exibiu fragilidades competitivas comprometedoras, sobretudo na luta pela conquista do meio-campo, parecendo estar num momento de quebra de ritmo.

Claro que estas coisas são tão subjetivas como tudo o que se escreve tendo por base um simples resultado. Não queria ir por aí. Apesar da vitória na Taça da Liga, o Sporting dos últimos jogos tem penado muito mais do que aquele que iniciou a época. Um facto! Que pode ser passado a ferro no caso de uma vitória nas Antas, por exemplo.

Diria que muito dificilmente o jogo de hoje terminará com sentença lavrada e transitada em julgado. Não sou muito de acreditar que qualquer das equipas consiga um resultado que a leve para a segunda mão com um conforto à prova de calafrios, mesmo que essa segunda mão seja, caricaturalmente, incrivelmente, grotescamente, mazombamente, só no dia 18 de abril!!! Valha-nos Deus, se é que Ele existe e tem a paciência infinita para se debruçar sobre estes assuntos tão portuguesinhos e tão pequeninos. Atirar com o jogo de volta de uma meia-final para mais de dois meses após o de ida é algo que ultrapassa qualquer tipo de entendimento e retira muito peso ao peso gigante que o FC Porto-Sporting merece. Além de ser uma absoluta falta de respeito por quem gosta de futebol, futebol autêntico, não o futebol das tabernas (esse, ainda assim, num estado de certa pureza popular) nem o futebol das cavernas, aquele que se disputa quase diariamente em qualquer canal de televisão entre gente que se insulta, que se diminui perante os espetadores a níveis baixíssimos de educação, que agride quem está do lado de cá da pantalha através de uma linguagem que deveria estar suficientemente distante dos seus horizontes para ser sequer balbuciada, quanto mais gritada ao ponto mais alto dos decibéis.

Cabe aos jogadores e treinadores fazerem-nos esquecer essas batalhas degradantes que entram, como jatos de lixo, pela casa adentro de um povo que se quer civilizado. Cabe a FCPorto e Sporting levarem consigo para dentro do relvado a tradição garrida de uma rivalidade de muitas e muitas décadas, agarrando-nos ao jogo de princípio ao fim pelas suas qualidades técnicas, pelas suas estaturas físicas, pela elasticidade técnica dos seus treinadores. É isso que interessa!

Depois, no dia 18 de abril (!!!), far-se-ão contas finais.