Internacional

EUA. Doentes por armas e por vingança

Os massacres com armas de fogo são cada vez mais comuns nos Estados Unidos, com 1333 massacres entre 2014 e 2017. Jovem de 19 anos entrou no liceu e disparou rajadas de balas com calibre de guerra, com arma devidamente legalizada, matando 17 pessoas e ferindo outras 23


Massacres com armas de fogo nos Estados Unidos são uma realidade cada vez mais comum na vida dos norte-americanos – e não é de agora. Em 1460 dias, não menos que 1333 massacres aconteceram em solo norte-americano. Os dados são do Gun Violence Archive, uma organização não governamental que monitoriza a violência com armas de fogo nos Estados Unidos, e foram recolhidos entre 2014 e 2017. Em 2018, a organização já registou 30 massacres por todo o país. Para que os incidentes se incluam na definição de “massacres” é necessário que quatro ou mais pessoas sejam baleadas num ataque. Assim, nove em cada dez dias acontecem massacres nos Estados Unidos, uma realidade semelhante apenas a países assolados por guerras.

Quanto aos massacres em escolas ou nas suas proximidades, a Everytown for Gun, outra ONG com a mesma finalidade, registou 18, segundo a BBC. Entre 2013 e 2017, a organização registou 291 ataques com armas de fogo em escolas ou nas suas proximidades.

Os ataques a escolas começaram a ter uma maior visibilidade a partir de Columbine, em 1999, mas desde aí que a atenção mediática e social se tem tornado mais frequente – principalmente quando o número de vítimas é elevado –, com Virginia Tech (2007) e Sandy Hook (2012) a ficarem também para uma história já de si longa e trágica.

Uma realidade apenas possível, segundo estimativas de um estudo da Universidade de Harvard a que o “Guardian” teve acesso, por existirem 256 milhões de armas, tanto pistolas como semiautomáticas, nas mãos de norte-americanos – mais de uma arma por cada cidadão adulto a viver e a trabalhar no país. E a realidade parece não estar para mudar nos próximos anos.

O último massacre mediático Poucos minutos bastaram para que um jovem de 19 anos, Nikolaus Cruz, entrasse no liceu Marjory Stoneman Douglas, em Parkman, Florida, e matasse 17 colegas e professores, deixando outros 23 feridos. Depois do massacre fugiu, mas acabou detido uma hora depois. Tudo aconteceu na passada quarta-feira, pelas 14h30 (20h em Portugal continental). As motivações ainda são desconhecidas, mas sabe-se que Cruz tinha sido expulso do liceu e referenciado como “jovem problemático”, mas nada foi feito.

O que aconteceu esta quarta-feira em Parkman insere-se no modus operandi dos restantes massacres: premeditado e munido com equipamento militar, disponível em qualquer loja de armas norte-americana. Bem preparado e armado, com máscara de gás, granadas de fumo e suficientes carregadores com munições para uma AR-15, espingarda de assalto semiautomática, Cruz entrou no liceu empenhado em espalhar o terror entre os seus ex-colegas e professores. Seguindo o exemplo do massacre de Columbine, o jovem ativou o alarme de incêndio para, segundo colegas que viveram a situação, atrair a comunidade educativa para o exterior – cerca de 3100 alunos e uma centena de professores. De seguida, bastou-lhe disparar rajadas consecutivas de balas de calibre de guerra contra a massa humana. No chão ficaram 17 mortos e 24 feridos.

Causado o caos, o jovem decidiu fugir, mas viria a ser detido uma hora depois por dois agentes do condado de Broward.

Nikolaus Cruz já tinha suscitado alertas por parte dos professores do liceu. “Já fora identificado como uma potencial ameaça para os colegas estudantes no passado”, disse Jim Gard ao jornal “Miami Herald”. “No ano passado foi-nos dito que ele estava proibido de entrar na escola com uma mochila”, complementou. O que estava nessa mochila, o docente não soube dizer, mas um outro estudante, citado pelo canal norte-americano WSVN, afirmou que o atirador tinha armas em casa. Na sua conta da rede social Instagram, Cruz publicou fotos a gabar-se do arsenal que possuía. Numa das fotos é possível ver o jovem com uma pistola de 9 mm, semelhante à que os agentes da PSP utilizam em Portugal no cumprimento do dever.

Perante os sinais perturbadores, nada foi feito, tanto pelos professores como pelas autoridades. Agora encontra-se detido no estabelecimento prisional de Broward, acusado de 17 homicídios.

Heroísmo entre o caos Em situações de perigo, pânico e sofrimento, por vezes surgem pessoas que se destacam pelos seus atos na defesa de terceiros. Os pormenores do massacre ainda estão a ser conhecidos aos poucos, mas já há relatos de pessoas que protagonizaram atos de heroísmo.

Foi o caso de Aaron Feis, de 37 anos e treinador de futebol americano, no massacre de Parkman, dando a própria vida para proteger os seus alunos. Foi uma das 17 vítimas.

Quando Nikolaus Cruz entrou nas instalações do liceu e começou a disparar sem parar contra os seus ex-colegas e professores, Feis colocou-se à frente das balas do atirador, protegendo os seus alunos, mas perdendo a vida. “[O treinador] correu com tudo o que tinha em direção ao perigo para que todos ficassem seguros, e eu ouvi dizer que ele estava na frente de algumas pessoas protegendo-as, e ele realmente levou com as balas por eles”, disse um dos estudantes ao canal televisivo CNN. Relato corroborado por outro estudante: “Ouvi tiros e depois vi o atirador a ir atrás do sr. Feis, e vi-o a ser atingido.”

Ao ser conhecido o seu ato de bravura, as reações de estudantes e colegas não se fizeram esperar. Os responsáveis pelo programa de futebol do liceu escreveram no Twitter: “Morreu um herói e ficará para sempre nos nossos corações e memórias.”

Também uma funcionária da escola está a ser reconhecida como heroína por ter ajudado alunos que corriam, sem saberem, em direção ao atirador. “Graças a Deus que a funcionária nos parou”, disse um outro estudante à CNN. “Salvou a minha vida e a de outros 40”, concluiu.

Em declarações à CNN, uma professora, Melissa Falkowski, disse ter escondido 19 alunos num armário. A professora disse tê-lo feito simplesmente por a escola ter dado formação aos professores para o caso de um ataque do género no estabelecimento de ensino. “Consegui colocar 19 alunos num armário comigo. Este é o pior pesadelo que poderia acontecer”, disse. E deixou um sentimento que nestas situações parece ser comum: “Hoje sinto que o governo e o nosso país falharam e que falharam aos nossos alunos em mantê-los a salvo.”

Outros professores conseguiram barricar-se dentro das salas de aula, apesar de um deles ter sido morto enquanto tentava trancar a porta por fora. Professores e alunos mantiveram-se nos armários e nas salas durante 30 minutos, até a equipa de intervenção da polícia chegar ao local e poder criar um perímetro de segurança.

Esta quarta-feira morreram 17 pessoas e outras 23 ficaram feridas neste massacre, mas a pergunta mantém-se: quando será o próximo?

Os opositores a uma maior regulação da venda e porte de armas, principalmente a NRA, um dos lóbis mais poderosos nos EUA, têm argumentado que essa regulação vai contra a história do país e a sua Constituição. Nesta, a Segunda Emenda, aprovada em 1791, estipula que a população tem, pela via da constituição de milícias, o direito ao acesso e porte de armas, afirmando-se como um direito auxiliar e de apoio aos direitos naturais de autodefesa e de resistência a um poder opressivo, porventura o do Estado.