Sociedade

Fizz. Os elogios ao trabalho do ex-procurador no ActivoBank e BCP e as suspeitas de fuga de informações

Diretora de compliance do BCP e presidente do ActivoBank foram ontem ouvidos em tribunal. Nenhum deles o escolheu, mas ambos disseram ter corrido quase sempre bem... tirando umas suspeitas no BCP

A diretora de Orlando Figueira no departamento de compliance do Millennium BCP, Isabel Raposo, disse ontem em tribunal que ficou com uma boa impressão do trabalho do antigo procurador do DCIAP, mas admitiu ter ficado com algumas suspeitas de que este passou informações do processo de um cliente à imprensa.

As declarações da responsável do banco aconteceram depois de, na quarta- -feira, o administrador do banco Iglésias Soares ter confirmado a tese da acusação ao referir que a saída do antigo magistrado do compliance do BCP para o ActivoBank, em 2015, surgiu após suspeitas de que Orlando Figueira passava a terceiros informações sigilosas da instituição bancária.

No caso Fizz, Orlando Figueira é suspeito de, a troco de contrapartidas que rondarão os 760 mil euros – montantes que diz ter recebido em salários e com um empréstimo –, ter acelerado e arquivado investigações que visavam Manuel Vicente, ex-vice-presidente de Angola.

Ontem, perante o coletivo, Isabel Raposo disse ter sido informada por Iglésias Soares da contratação de Orlando Figueira e que depois disso é que foram combinadas as condições. Recordou também que, já mais tarde, deu aval positivo para uma das renovações. A responsável do Millennium BCP respondeu ao tribunal desconhecer se foi feita alguma pressão para tal contratação, garantindo que nunca lhe pediram para agir de determinada forma, nem mesmo quando decidiu as renovações do procurador.

E mais: apesar de não ter escolhido ou saber o porquê da seleção, Isabel Raposo elogiou o trabalho do antigo magistrado: “O dr. Orlando Figueira era uma pessoa educada, correta, respondia às solicitações pedidas e os pareceres iam ao encontro dos pedidos. Nem sempre estávamos de acordo, mas porque ‘cada cabeça, sua sentença’.”

“Como pessoa, não tenho nada a dizer”, reforçou, para argumentar de seguida que a única coisa que não a deixou muito convencida foi a fuga de informação: “Na notícia [que não se lembra em que jornal foi publicada] apareciam frases mais coloquiais, de conversa, que tinham sido ditas no comité. Lembro-me de achar estranho como é que aquela situação foi parar a um jornal, e como a única pessoa nova era Orlando Figueira...”

Isabel Raposo queixou-se a Iglésias Soares mas, aqui, a versão de ambos diverge. É que enquanto, na véspera, o administrador do BCP dissera que foi por causa destas suspeitas que Orlando Figueira transitou para o ActivoBank, a diretora de compliance afirmou ontem não ter associado as duas coisas: “A transferência de Orlando Figueira foi já um mês depois de eu reportar a situação a Miguel Maya e Iglésias Soares.”

Uma das declarações mais polémicas foi o facto de admitir que existiam contas no banco cujo beneficiário total não era conhecido, havendo nalguns casos quase certezas – isto para justificar uma troca de emails apreendida em que se diz pensar que Manuel Vicente era o beneficiário final de uma sociedade.

Da parte da tarde foi ouvido Nelson Machado, presidente do ActivoBank, que também elogiou o trabalho de Figueira. Disse que a sua contratação não era uma necessidade mas que, depois de este lá chegar, ficou satisfeito com o seu desempenho. O antigo procurador esteve nesta instituição bancária até ser detido, em 2016.