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A Ressurreição de Rubén Darío

Mais de cem anos depois da sua morte, chega a Portugal o laureado autor nicaraguense, o modernista Rubén Darío. A obra, que continua atual, vem pela mão da Colecção Avesso, da Editora Exclamação

 

No vale de Olominapa, entre as aldeias de Metapa e Tipitapa, Josefa Sarmiento é dona de uma mercearia. A sua irmã, Rosa Sarmiento, decidida a fugir de um casamento tumultuoso e com um bebé a caminho, abandona a cidade para ir viver com ela a Olominapa. Mas é nessa viagem ao interior da Nicarágua, numa carroça puxada por mulas, que as águas de Rosa rebentam. Nascia então Rubén Darío, futuro pai do modernismo castelhano e poeta errante que haveria de encantar tanto a Europa como a América Latina.

Poeta precoce, contista, jornalista e diplomata, Rubén Darío é uma das vozes mais importantes da literatura latino-americana. Nascido em Metapa em 1867, Darío foi desde cedo uma figura tão criativa quanto rebelde. Publicou os seus primeiros poemas ainda na adolescência, mas foi como funcionário da Biblioteca Nacional de Manágua que viria desenvolver as suas capacidades líricas, lendo avidamente literatura francesa e espanhola. Com a ajuda do intelectual chileno Eduardo de la Barra, publica em 1888 “Azul...”, o livro que marcaria a revolução modernista nas letras, reunindo poesia e prosa publicada anteriormente em jornais chilenos. Embora a publicação “Azul...” contasse com um sucesso limitado, chega às mãos do escritor espanhol Juan Valera, que haveria de prezar o talento de Darío, não sem criticar o seu “galicismo mental” e a sua obsessão pela literatura francesa. É, de qualquer modo, a menção de Valera que sedimenta o reconhecimento de Rubén Darío tanto na Europa como nas Américas.

Porém, a falta de traduções da obra do nicaraguano torna-o numa figura das letras hispanas imerecidamente inacessível, tanto na lusofonia como noutros idiomas. “Curiosidades Literárias e Outros Contos” vem contrariar essa tendência. Trata-se da primeira antologia de textos de ficção de Darío publicada em Portugal. Com versões de Rui Manuel Amaral e com prefácio de André Fiorussi (académico especializado na obra de Darío), é o quinto volume da Avesso, colecção pertencente à Editora Exclamação.

Com um imaginário muitas vezes exótico, erótico e ocultista, a poética de Rubén Darío estende-se à prosa não só nos temas como também no estilo. Na sua ficção persiste a influência do Simbolismo francês, em especial de Paul Verlaine (quem conheceria pessoalmente, num encontro parisino em 1893), mas também de alguns autores do romantismo como Victor Hugo. Edgar Allan Poe, mestre do terror, é outro autor que marcará a obra de Darío, sendo essa influência observável em contos como “A Larva” ou “Thanatopia”, ambos presentes em “Curiosidades Literárias e Outros Contos”.

Expoente máximo do modernismo na literatura, Darío veria mais do que metade da sua produção literária publicada em revistas e jornais, escrevendo crónicas onde retratava cidades, modas e costumes, onde reproduzia dialetos e revitalizava a língua espanhola como só ele o saberia fazer. A sua facilidade com as línguas e em especial com a linguagem torná-lo-iam um diplomata versátil, vivendo durante anos na França, Espanha e nos Estados Unidos. Falar de Rubén Darío é, ainda assim, falar da história da América Latina, e também da sua assumida postura anti-imperialista. Preconizava a união dos países sul-americanos e alertaria mais do que uma vez sobre as inclinações colonialistas dos Estados Unidos. Em 1904, escreve “A Roosevelt”, um poema arrepiante que serve como vaticínio daquela que viria a ser a relação entre o mundo e a potência norte-americana durante o século XX e o seguinte: 

É com voz de Bíblia, ou verso de Walt Whitman,

Que haveria de chegar até ti, Caçador!

Primitivo e moderno, simples e complicado,

Com um pouco de Washington e um pouco de Nemrod!

És os Estados Unidos,

És o futuro invasor

Da América ingénua de sangue indígena,

Que ainda reza a Jesus Cristo e ainda fala em espanhol. 

És soberbo e forte exemplar da tua raça;

És culto, hábil, opões-te a Tolstói.

(...)

Julgas que a vida é um incêndio

Que o progresso é erupção;

Onde colocas a bala

Colocas o porvir.

Não.”

O espírito de denúncia e o vigor na poesia de Darío poderão ter opacado o talento da sua prosa, mas foram as duas vertentes da escrita que lhe trouxeram o reconhecimento mundial. Na única visita registada de Darío a Portugal, em 1912, com o intuito de divulgar uma nova publicação literária, o jornal lisboeta “O Século” dedicava-lhe toda uma peça: “chegou ontem a Lisboa o notável escritor da Nicarágua Sr. Rubén Darío, que goza na América do Sul de um alto prestígio literário, que na Argentina lhe elevaram um monumento e também a Espanha lhe consagrou talentos, concedendo-lhe a pedido dos seus principais poetas, a grã-cruz de Afonso XIII. (...) O notável escritor era aguardado na gare do Rocio.” (O Século, 1912).

O que faz com que um autor continue a ser lido e permaneça, de algum modo, atual? Um sem fim de razões, certamente, entre elas a qualidade das ideias para um novo e melhor mundo, acompanhada por uma utilização sublime da língua que se renova sem se perder nos confins do tempo. Mais de cem anos passaram da morte do modernista nicaraguense, mas ainda estamos longe de ter aprendido com as ideias dele. Ler Rubén Darío é tão importante hoje quanto o era há cem ou cinquenta anos. Agora poderemos fazê-lo em português. 

“Curiosidades Literárias e Outros Contos” chega às livrarias em março.