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Clonagem. Quem quer clonar o animal de companhia?

Barbra Streisand lançou a controvérsia ao admitir que duas das suas cadelas são clones de outra que morreu. O i quis saber qual a política em Portugal e o bastonário dos veterinários garante: por cá, não se pode fazer

A polémica instalou-se quando se soube, na semana passada, que a atriz e cantora Barbra Streisand clonou a sua cadela. Foi a própria, em entrevista à revista norte-americana “Variety”, que admitiu tê-lo feito, e desde então a notícia incendiou a comunicação social e as redes sociais.

Como se lê na publicação, Streisand tem três cães da raça Coton de Tulear. Dois foram clonados de Samantha, a cadela que a atriz adorava e que morreu aos 14 anos, em 2017. As duas cadelas, Miss Violet e Miss Scarlett, foram clonadas a partir de células retiradas da boca e do estômago de Samantha. Ainda assim, como Barbra Streisand admite na mesma entrevista, “elas têm personalidades diferentes. Estou à espera que envelheçam para perceber se têm os olhos castanhos dela e a sua seriedade”.

O bastonário da Ordem dos Médicos Veterinários, Jorge Cid, não se mostra surpreendido com isso. “Teoricamente, a clonagem vai fazer um outro animal morfologicamente igual, só que, emocionalmente, psicologicamente, comportamentalmente, poderá não o ser. A pessoa tem um animal exatamente igual ao que tinha, mas com uma personalidade diferente”, explica ao i.

É certo que “poderá ser um capricho, provavelmente, mas há muitos caprichos, há quem compre uma carteira da Louis Vuitton…”, diz o bastonário. “A Barbra Streisand fez isso com boas intenções, gosta de animais e de ter animais iguais aos que tinha e dos quais gostava muito. É uma quase prova de amor, mas as pessoas levam coisas como estas para outros campos…”, acrescenta.

E em Portugal, é possível? Em Portugal, não se pode clonar um animal de companhia. A clonagem apenas é permitida em contexto de investigação científica. Isso leva Jorge Cid a dizer que, em Portugal, “é um não tema, não está na atualidade”. Na Ordem dos Médicos Veterinários, diz, o assunto nunca foi sequer discutido, “nem se pensa que venha a existir [a hipótese de clonagem de um animal de companhia] tão depressa”.

A solução para quem queira fazê-lo é recorrer a laboratórios em países onde a clonagem de animais é permitida. Mas não poderá ser na Europa onde, segundo Jorge Cid, também não é permitido. As opções são os Estados Unidos da América e a Coreia do Sul. O i tentou contactar vários laboratórios nos dois países para perceber se algum português já recorreu ao procedimento, mas a resposta foi inconclusiva: “Não podemos revelar informação confidencial.”

O bastonário garante que o animal pode, depois, ser trazido para Portugal. “As leis são bem claras, os animais, para entrarem no país, têm de respeitar determinados requisitos – nomeadamente, estarem em boas condições físicas e de saúde, terem as vacinas em dia. Até porque, em princípio, ninguém poderá saber se o animal foi clonado”, explica.

De resto, o procedimento é bastante dispendioso, com valores entre 40 mil e 100 mil euros, um fator que leva Jorge Cid a acreditar que os portugueses não recorram ao processo. “Duvido que o façam pelo preço, que é muito elevado, e realmente não garante que o animal vá ser igualzinho ao que tinham, sobretudo no aspeto comportamental, que é fundamental. Muitas vezes, as pessoas querem ter é o feitio, a maneira como o animal as tratava, a sua afetuosidade, e isso é que não é garantido.”

Ainda assim, para quem gosta da ideia, importa saber que o processo não causa dor ao animal. Essa é uma garantia dos vários laboratórios onde é possível fazer o procedimento que, de resto, consiste em retirar células do animal que se quer clonar – ainda em vida ou poucos dias depois de morrer –, que por várias semanas são multiplicadas e são depois integradas no núcleo do óvulo da fêmea dadora. Implanta-se, de seguida, no útero da fêmea.

A ética Questionado sobre o parecer da Ordem dos Médicos Veterinários quanto ao tópico, Jorge Cid reitera que é uma não questão que nunca foi discutida. Admite, ainda assim, que “é um processo que levanta questões éticas, morais e deontológicas”, e que só pode dar a sua opinião pessoal.

“Não tenho nada contra. Desde que seja salvaguardado o bem-estar animal e a ética, não vejo qualquer inconveniente em que possa ser feito”, confessa.

O bastonário nota que outras posições há, mais fundamentalistas. “Há quem não veja propósito em clonar quando há tantos animais para adotar… acho que isso é um falso problema”, acredita.

Jorge Cid estabelece uma analogia com os críticos das raças de cães, que defendem que deviam deixar de existir precisamente pelo motivo de haver tantos animais nas ruas e nos canis municipais. “Cada um terá liberdade de ter o que quer, a raça que quer, o tamanho que quer e, portanto, não tem obrigatoriedade de ir buscar um animal abandonado. Isso é uma opção. E em democracia cada um faz o que quer, desde que não prejudique o bem-estar animal”, defende.

Note-se que, depois da confissão de Barbra Streisand, a PETA – People for the Ethical Treatment of Animals, uma associação norte-americana dedicada à proteção dos animais, veio dizer que ia lutar pela proibição da clonagem de animais. “Todos nós queremos que os nossos queridos cães vivam para sempre, mas por mais que a clonagem pareça uma boa ideia, não é isso que conseguimos, muito pelo contrário. Cria-se um cão novo e diferente que tem apenas as mesmas características físicas do original”, disse em comunicado a presidente da organização, Ingrid Newkirk, que apontou ainda que a clonagem acentua o problema dos cães abandonados nos canis.