Internacional

Coreia do Norte. Kim abre a porta à paz e à desconfiança

O jovem ditador norte-coreano propõe eliminar o arsenal nuclear mais imprevisível no mundo se os norte-americanos derem garantias de paz.

O jovem e errático ditador norte-coreano manobrou as peças do tabuleiro diplomático internacional de forma inesperada e possivelmente transformadora. Kim Jong-un propôs a uma equipa do executivo sul-coreano uma cimeira multilateral com vista a eliminar o arsenal nuclear que desenvolveu a muito custo nas últimas décadas, e que o regime considera vital para a sua sobrevivência, se existirem garantias de que o país está a salvo de uma invasão americana.

A proposta é surpreendente, mas não inédita. O anterior Kim prometeu o mesmo pelo menos a três presidentes americanos, voltando sempre atrás na proposta, recebendo pelo caminho um balão de oxigénio e terminando com programas militares mais robustos.

Para Kim Jong-un, no entanto, esta é uma jogada nova. O líder norte-coreano anunciou-a na segunda-feira, no seu primeiro frente-a-frente com uma delegação do Sul, a primeira a cruzar o paralelo 38 em mais de uma década. A equipa, liderada pelo chefe da Segurança Nacional do governo sul-coreano, anunciou esta terça-feira os sucessos da viagem de dois dias, na qual se reuniram duas vezes com o reservado ditador, uma durante a tarde e outra ao jantar.

“O lado norte-coreano declarou claramente a sua vontade de se desnuclearizar”, afirmou o governo de Seul, em comunicado. “Disse claramente que não tem razões para ter armas nucleares se a ameaça militar ao Norte for eliminada e a sua segurança garantida”, avança o mesmo comunicado.

O conselheiro presidencial na área da Segurança Nacional sul--coreana disse esta terça aos jornalistas em Seul que Kim Jong-un se mostrou surpreendentemente flexível e que entregou à delegação mensagens especificamente destinadas ao governo dos EUA, para já confidenciais.

O responsável, Chung Eui-yong, adiantou ainda que Kim nem sequer insistiu em que a Coreia do Sul e os Estados Unidos cancelassem os exercícios militares conjuntos do próximo mês, adiados por causa dos Olímpicos de Inverno. Além disso, o líder norte-coreano prometeu uma moratória nos testes balísticos e nucleares até que a diplomacia se conclua ou fracasse por completo.

Hesitações 

A proposta norte-coreana, a confirmar-se, pode mudar por completo o jogo de tensões no mais quente foco de guerra nuclear no planeta. Até esta terça-feira, as grandes figuras na guerra fria asiática falavam de abrir negociações como uma perspetiva para um futuro distante. EUA, Japão e, menos forçosamente,

Coreia do Sul afirmavam que só aceitariam negociar com o Norte uma redução nas duras sanções internacionais caso Pyongyang aceitasse eventualmente destruir as ogivas nucleares fabricadas desde que testou a primeira bomba atómica nos subterrâneos, em 2006, sob Kim Jong-il, o pai do atual líder. Para o Norte e praticamente para todos os observadores e analistas, a condição parecia inaceitável.

Há muito que Pyongyang considera as armas nucleares como a mais forte garantia de que o sistema internacional não se volta contra o regime e a sua liderança não termina da mesma forma que Saddam Hussein ou Muammar Khadafi. O consenso internacional até esta semana defendia que Washington, Tóquio e Seul acabariam por ter de reconhecer a Coreia do Norte como uma potência nuclear, como fizeram a contragosto com o Paquistão e a Índia, por exemplo.

No entanto, salvo o caso de as sanções internacionais terem enfim vergado um regime que sobreviveu à fome extrema na década de 90, nada mudou nos cálculos norte-coreanos que justifique a abertura desta semana. Em Washington, há mais desconfiança que otimismo. “Pode ser falsa esperança, mas os Estados Unidos estão dispostos a ir com força para um lado ou outro”, escreveu Donald Trump no Twitter.