Viver para Contar

Profissão: futebolista

Rúben Semedo percorreu, ao contrário, o caminho dos meninos que querem ser jogadores de futebol. Quando atingiu o topo, deitou a perder todo o esforço feito

Nos dias de hoje, as meninas querem ser modelos e os meninos jogadores de futebol. E os pais incentivam-nos. Inscrevem-nos nas escolas de jogadores que  pululam pelo país fora, na esperança de virem a ter em casa o seu Cristiano Ronaldo. 

Antigamente era diferente. Havia pais que batiam nos filhos quando eles voltavam para casa afogueados depois de tardes a jogar à bola na rua. Além de o futebol os desviar dos estudos, ainda concorria para estragar os sapatos – pelo que alguns miúdos os descalçavam antes dos jogos e jogavam descalços, acabando as partidas com os pés a sangrar. Hoje os pais compram chuteiras aos filhos, de preferência de marca.

Quando pensamos nos jogadores de futebol, vêm-nos à cabeça vidas faustosas, vivendas de luxo, carros de alta cilindrada, mulheres oxigenadas.

Ora, esses representam 0,1% dos jogadores de futebol ou nem isso. Aqui há uns anos, um canal de televisão transmitiu um documentário sobre o tema. Começou por uma reportagem com a equipa de juniores de um grande clube, suponho que o Benfica, onde todos os jovens alimentavam um sonho: chegar à equipa principal, ser uma vedeta, protagonizar talvez uma transferência milionária para um grande clube estrangeiro.
Era natural que pensassem assim: as grandes estrelas do futebol tinham começado como eles, a jogar nos juniores de clubes grandes ou mesmo pequenos.

Uns anos depois, o repórter foi ver onde estavam aqueles jogadores. Nem um já estava no Benfica. Talvez um ou dois jogassem num clube da 1.ª divisão portuguesa. Os outros atuavam em clubes da 2.ª divisão ou da 3.ª – e alguns estavam desempregados. Daqueles jovens cheios de sonhos restavam desilusões, esperanças desfeitas, muita amargura. 

Quase todos ganhavam pequenos ordenados e havia quem os não recebesse, pois os clubes tinham salários em atraso.

É esta a realidade da esmagadora maioria dos jovens que querem ser jogadores de futebol. Estudam o mínimo, investem todas as energias no objetivo de serem estrelas, passam a juventude concentrados nesse objetivo – e no fim acabam num clube medíocre sem nunca o seu nome ter aparecido num jornal.

E, claro, aos 30 anos ou pouco mais arrumam as botas e não têm futuro nenhum – visto que não aprenderam uma profissão e dedicaram ao futebol os melhores anos da vida. 

Diferente é a história de um miúdo chamado Rúben Afonso Borges Semedo. Nasceu na Amadora e começou num clube pequeno chamado Futebol Benfica, que apesar do nome nada tem que ver com o Benfica. Depois mudou-se para o Sporting, ultrapassando um a um todos os obstáculos: tornou-se profissional, passou a sénior, o clube emprestou-o, ele cresceu, voltou ao Sporting e finalmente ganhou um lugar na equipa principal. Jorge Jesus, o seu treinador no clube de Alvalade, disse que ele seria o futuro defesa central da Seleção Nacional. 

Aos 21 anos, Rúben Semedo cumpria o sonho de todas as crianças. 

Mas não ficou por aqui. As suas qualidades deram nas vistas lá fora e acabou por ser contratado por um prestigiado clube espanhol, o Villarreal, que pagou por ele 14 milhões de euros. 

Dir-se-ia que Rúben Semedo era um homem feliz. Tinha percorrido as etapas que os meninos têm pela frente quando começam a dar os primeiros pontapés na bola, ganhava 1 milhão de euros por ano e restava-lhe consolidar a sua posição no clube que apostara tanto nele. 

Pois foi nesta altura que começou a ter problemas com a Polícia – até se ver acusado de tentativa de homicídio, sequestro e roubo. Como compreender isto? O que poderia tê-lo levado a roubar? E para quê, se já ganhava tanto dinheiro? 

O caso era estranho. Até porque, dentro do campo, Semedo parecia um jovem tranquilo, jogando com pezinhos de lã e não se mostrando conflituoso nem agressivo. 

Acredito que a história da sua prisão ainda tenha muito para contar.

Ao que parece, a vítima da tentativa de homicídio era um indivíduo com cadastro que já teria enganado outros futebolistas. E diz-se que burlou Semedo em 40 mil euros. Se foi isto o que se passou, o resto é fácil de imaginar: o jogador planeou a vingança, pediu ajuda a dois amigos, raptou o fulano, sequestrou-o e roubou-o, talvez para recuperar o valor da burla. 

Só que ninguém pode fazer justiça pelas próprias mãos – e a Justiça espanhola não lhe perdoou: vai estar preso até ao julgamento. 

Rúben Semedo percorreu, ao contrário, o caminho dos meninos que querem ser jogadores de futebol. A esmagadora maioria nunca chega a jogar num clube grande; pois ele conseguiu-o e, quando atingiu o topo, deitou a perder todo o esforço feito. Quantos não gostariam de ter estado no seu lugar? E ele, depois de lá estar, deixou-se cair daí abaixo.
Resta-lhe agora contratar um bom advogado capaz de provar que tudo não passou de uma cabala em que a vítima foi ele. Mas vai ser muito difícil.

Até porque os espanhóis não têm especial simpatia pelos portugueses.