EUA. Sexo, política e impostos

O máximo conselheiro económico do presidente americano partiu. Stormy Daniels, por sua vez, regressou.

O conselheiro da Casa Branca para os assuntos económicos, e, para muitos, o grande canal de contacto entre o presidente americano e o mundo da alta finança e empresas, anunciou que se demitirá nas próximas semanas em protesto contra a imposição de tarifas na importação de alumínio e aço. Gary Cohn, e não Michael Cohen, o advogado que comprou o silêncio de uma atriz pornográfica sobre um caso com Trump – a esse voltaremos mais tarde – não é só a mais recente figura a abandonar o governo americano nas últimas semanas: é também um dos mais importantes nomes da administração, a cargo de um dos poucos órgãos de governo sem escândalos e bom funcionamento.

Os mercados reagiram esta quarta-feira à demissão de Cohn e à guerra comercial que o levou a abandonar um barco no qual enxaixou surpreendentemente bem tendo em conta que é democrata e também ex-presidente do banco Goldman Sachs – Donald Trump passou a campanha a insultar os banqueiros de Wall Street, mas rodeou-se de vários assim que chegou à Casa Branca. O índice industrial americano Dow Jones abriu 200 pontos no negativo, ou 1%, e o dólar desvalorizava a toda a linha. Também na Europa várias praças reagiam negativamente às notícias americanas.

O tumulto nos mercados alimenta-se também do anúncio oficial, em Bruxelas, do plano de retaliação europeu às tarifas de Trump. A notícia de que a Comissão Europeia preparava tarifas próprias contra importações americanas veio a público na segunda-feira, mas, esta quarta, a comissária do Comércio anunciou oficialmente que, se é uma guerra comercial que Trump deseja, então a comunidade tem preparado um pacote de impostos extraordinários à importação de produtos que vão desde as calças Levis, t-shirts, bourbon do sul americano e Harley Davidsons. “As guerras comerciais são más e fáceis de perder”, escreveu o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, respondendo à frase lançada há dias por Trump, que disse que este tipo de conflitos são “bons e fáceis de ganhar”.

Governo emagrecido

A Casa Branca vê-se profundamente emagrecida por uma vaga de demissões que evocam pretextos diferentes mas parecem ser o resultado de uma única causa: o estilo errático e radical de Donald Trump, que, no caso das tarifas anunciadas há uma semana – e que correspondem a taxas genéricas de 25% na importação de aço, e 10% na de alumínio – não ouviu Cohn, as principais vozes do seu Partido Republicano, e mesmo os altos cargos na Casa Branca. Na semana passada, Hope Hicks, a diretora do gabinete de comunicação, demitiu-se sem grandes explicações; em fevereiro, Rob Porter, secretário da presidência, demitiu-se quando vieram a público alegadas agressões conjugais – num caso que ainda pode atingir o chefe de Gabinete da Casa Branca, o homem mais bem cotado em Washington –; e, também recentemente, saíram Dina Powell da Defesa, e o vice de Cohn.

O diálogo nacional sobre as leis americanas de compra e venda de armas ocultou grande parte do tumulto interno na Casa Branca da última semana, mas, por estes dias, os relatos de discórdia e má gestão recuperam força. Também esta quarta, Kellyane Conway, a assistente da Casa Branca e ex-assessora de Trump, foi acusada por um órgão nacional de ética de ter violado a chamada Emenda Hatch ao recomendar o voto num republicano nas eleições especiais no Alabama. O órgão não tem autoridade para punir Conway, que vem passando os últimos meses despercebida nos assuntos nacionais, mas recomendou a Trump um castigo disciplinar.

Atriz porno volta à carga

A atriz de cinema pornográfico que recebeu 130 mil dólares para não discutir em público os encontros sexuais com o presidente americano pouco depois de o seu filho mais novo nascer diz agora que o contrato de silêncio não obedece à lei uma vez que não foi assinado por Donald Trump. Este é o argumento de Stormy Daniels – cujo nome real é Stephanie Clifford – num processo apresentado terça-feira e no qual afirma que o sigilo deve ser invalidado.

No centro do caso está o advogado de longa data de Donald Trump, Michael Cohen, que no mês passado admitiu ter transferido 130 mil dólares para uma conta de Stormy Daniels para que ela não mencionasse os encontros com Trump nos anos 2006 e 2007. Cohn e Trump negam os encontros. Daniels, por sua vez, confirma-os sem, contudo, o dizer explicitamente, tentando contornar o sigilo.