Politica

Isabel dos Santos acusa o seu sucessor de “espírito de revanche”

Em entrevista exclusiva ao SOL, Isabel dos Santos fala de Carlos Saturnino, o homem que afastou da Sonangol e que o presidente João Lourenço escolheu para a substituir.

Acha que Carlos Saturnino não tem perfil para ser PCA da Sonangol?

Ficou demonstrado o espírito de revanche que anima o atual Conselho de Administração da Sonangol, após a sua apresentação do balanço dos 100 dias, na qual o único foco foi o ataque pessoal aos administradores anteriores. Carlos Saturnino é um homem emotivo, vingativo e demonstrou pouca ética profissional. Foi entre 2002 a 2012 responsável pela Direção de Negociação de Concessões e blocos petrolíferos, ou seja, tem um legado nesta empresa que lhe retira legitimidade para assumir o necessário corte com práticas e comportamentos do passado.

Por que o afastou da Sonangol?

Só tomámos esta decisão depois de estarmos seis meses na empresa e depois de um diagnóstico profundo. Foi uma decisão muito ponderada e refletida pelo Conselho de Administração anterior, já que Carlos Saturnino estava a três meses da reforma, mas foi baseada em razões muito objetivas. Quando entrámos na Sonangol, em junho de 2016, foi desenvolvido um diagnóstico minucioso, que nos deu o detalhe sobre a real situação em que se encontrava o grupo. Passo a citar:

«1 – No caso da Pesquisa e Produção, presidida por Carlos Saturnino, detetámos perdas de 859 milhões de dólares em 2015.

2 – Era uma empresa complexa, com muitas linhas de reporte, sobredimensionada, demasiado burocrática, com processos muito lentos.

3 – A empresa trabalhava desde 2015 sem um orçamento definido.

4 – Estavam registados 1.000 fornecedores no sistema, um número demasiado elevado.

5 – Existiam 180 milhões de dólares de faturas não pagas e algumas não registadas a fornecedores.

6 – A P&P [Sonangol Pesquisa & Perfuração] não conseguiu manter a operação do bloco 2 e não registou potenciais custos de 85 milhões de dólares referentes a esse bloco.

7 – Adicionalmente houve custos de 88 milhões de dólares que não vão ser possíveis de recuperar.

8 – Não foi feito uma provisão e registo de 148 milhões de dólares nas contas dos compromissos assumidos com os colaboradores, pensionistas e seus familiares.

9 – Existiam dívidas com o Fundo Social.

10 – Houve grande investimento no sistema informático, mas muitos dos documentos e faturas estavam ainda na gaveta e eram processados manualmente.

11 – Havia problemas com várias negociações nos blocos petrolíferos, nos anos anteriores, nomeadamente com a China Sonangol e a Cobalt, que deram origem a litígios em tribunal.

12 – A P&P não cumpria com as normas de segurança, saúde e ambiente.

13 – A produção da P&P baixou consideravelmente por falta de programa de manutenção».

Em dezembro de 2016, na posse de toda a informação e com o redesenho da organização, tomámos a decisão de mudar a estrutura de gestão da P&P, mudar a Comissão Executiva e mudar a primeira linha de direção da empresa. O objetivo era fortalecer a capacidade interna da empresa. Não se tratou só da substituição de Carlos Saturnino, mas sim de uma mudança de toda a primeira e segunda linha de gestão da P&P, pois foi alterado o organograma da empresa.

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