Economia

Em 2018 vão surgir mais 60 hotéis

Em 2018 vão surgir mais 60 hotéis e continuam outros tantos em processo de licenciamento, resultado do boom do turismo. A estes há que juntar ainda a oferta do alojamento local , que já disponibiliza mais camas  do que a hotelaria.

O crescimento do turismo, que vem batendo recordes atrás de recordes, tem impulsionado o aparecimento de novas unidades hoteleiras. Só no ano passado entraram em licenciamento 80 novos projetos de hotéis em Portugal. Um crescimento de 60% face às 50 unidades que tinham sido submetidas no ano anterior, revelou a Confidencial Imobiliário no âmbito da análise ao pipeline imobiliário. A esta oferta há que somar ainda o alojamento local (AL) que mais do que duplicou em dois anos e que, em termos de números de camas, já ultrapassa as que são disponibilizadas pela hotelaria tradicional.

As contas são simples: as 59.300 unidades de alojamento local em Portugal oferecem 229 mil camas, um número que bem fica acima das 181 mil camas oferecidas pelos 1.200 hotéis existentes no país, revela a a Associação Hotelaria de Portugal (AHP). E mesmo com o aparecimento de novos hotéis, o ritmo de crescimento de novas unidades em regime de alojamento local continua a ser sempre superior, o que irá continuar a aumentar a distância. A ideia de rentabilidade neste segmento continua a cativar os proprietários para este negócio, remetendo para segundo plano o arrendamento de longa duração. De acordo com João Queirós, Investigador da Universidade do Porto, «80 a 90 dias [no alojamento local] chegam para superar os ganhos com um ano inteiro de arrendamento permanente». 

E os números falam por si: no final de dezembro de 2015 existiam cerca de 28 mil unidades de AL, atualmente já ultrapassam as 59 mil unidades, revelou a secretária de Estado do Turismo. De acordo com Ana Mendes Godinho, parte destes alojamentos já existiam, mas estavam «fora do mercado normal».

No entanto, a obrigação legal de as plataformas como o Airbnb passarem a apresentar o número de registo dos alojamentos locais, que entrou em vigor no ano passado, ajudou à legalização de várias destas ofertas. Grande parte destas unidades está concentrada nas regiões de Lisboa (14.862 alojamentos) e do Algarve (24.257 alojamentos).
Face ao crescimento do AL, a Associação da Hotelaria de Portugal defende a necessidade de monitorizar e acompanhar oferta e procura desta atividade, uma vez que estamos perante quase 60 mil registos, sem esquecer os que ainda operam fora da lei. «Temos defendido que é fundamental que exista um equilíbrio entre quem habita e quem visita. Para que o turismo seja sustentável tem de haver um limite nas zonas que sofrem uma maior pressão turística», afirma, ao SOL, Cristina Siza Vieira, presidente executiva da AHP. 

Ofertas hoteleiras

O que é certo é que o número de novos hotéis em licenciamento continua a manter a tendência de crescimento que tinha já apresentado entre 2015 e 2016, quando registou um aumento na ordem dos 47%. Feitas as contas, no acumulado de três anos – entre 2015 e 2017 – foram submetidos a processo de licenciamento municipal um total de 164 novos projetos hoteleiros.

Lisboa e Porto mantêm-se como os dois concelhos que apresentam maior número de novos projetos em pipeline, embora municípios adjacentes como Sintra ou Matosinhos também tenham beneficiado de um acréscimo do número de novos projetos, principalmente em 2017, com três novos hotéis em carteira cada um.

«A dinâmica temporal mostra que o investimento hoteleiro tem cada vez mais saído de Lisboa, dispersando-se geograficamente e dinamizando mercados menos centrais. De facto, 60% do crescimento no número de novos projetos em carteira observado em 2017 teve lugar nas regiões não metropolitanas», revela Ricardo Guimarães, diretor da Confidencial Imobiliário.

Estes dados vão ao encontro dos números que têm sido avançados pela Associação da Hotelaria de Portugal, que apontavam para o aparecimento de cerca de 100 novos hotéis em Portugal e mais de 30 remodelações/ reaberturas entre 2017 e 2018, com as regiões de Lisboa e do Porto a concentrarem a maior oferta. 

Só para este ano, as estimativas da AHP apontam para 61 novas unidades e 23 reaberturas remodelações. «De notar que das 61 novas unidades, 22 já estavam previstas para 2017 e deslizaram para este ano», revela ao SOL Cristina Siza Vieira, presidente executiva da AHP. Fazendo uma análise por regiões, Lisboa e Porto/Norte continuarão a liderar, com 25 aberturas previstas para a capital e 10 para a cidade do Porto.

Segundo os dados disponíveis, ainda provisórios, abriram 45 novas unidades hoteleiras em 2017. A responsável lembra que «há vários fatores que condicionam a abertura de um novo hotel, quer sejam atrasos na aprovação e licenciamento dos projetos, dificuldades logísticas no cumprimento de prazos de abertura ou alterações/ redefinição na estratégia de posicionamento dos investidores», salienta.

Manter caminho de consolidação 

A par do aumento da oferta outra prioridade do setor tem sido o aumento do preço e a melhoraria da taxa de ocupação por quarto. A Associação da Hotelaria de Portugal acredita que é possível melhorar o preço tendo em conta o que o nosso país oferece em comparação com outros destinos. Essa necessidade também é reconhecida pelo Governo, que tem vindo a defender uma maior aposta no crescimento em valor, ou seja, subir as receitas turísticas e aumentar a rentabilidade das empresas.

Ainda assim, a AHP já admitiu que 2017 representou o ano da consolidação do setor com a hoteleira nacional a conseguir superar pela primeira vez os valores que foram atingidos em 2007 e que rondou uma taxa de ocupação de 67%.
No ano passado, os hotéis registaram uma taxa de ocupação média de 71% e já é considerado um «resultado histórico», tendo sido acompanhado pelo aumento dos preços, naquele que foi «o melhor ano de sempre nos indicadores operacionais».

A Madeira foi a região a apresentar o melhor resultado, ao alcançar uma ocupação média anual de 83%, enquanto Lisboa e Porto registaram taxas de 80% e 76%, respetivamente.
Já o preço médio praticado pelos hotéis subiu para 88 euros, o que traduz um crescimento de 10% face a 2016. Lisboa registou o preço médio mais elevado, de 107 euros, o que corresponde a um aumento de 14%, enquanto no Algarve o preço médio fixou-se nos 100 euros, mais 8% do que em 2016. Para este ano, as perspetivas são otimistas: «É expectável que se mantenha esta rota ascendente. No entanto, um dos grandes desafios para 2018 passa por continuar a trabalhar a trajetória de posicionamento de preço», diz Cristina Siza Vieira.

Setor quer novos recordes
A verdade é que o turismo continua a afirmar-se como um dos principais motores da economia portuguesa. Só no ano passado, as receitas com a atividade turística dispararam 16,6%, crescimento que se traduziu em 3,39 mil milhões de euros. Ao todo, os estabelecimentos hoteleiros receberam 20,6 milhões de hóspedes em 2017, o equivalente a 57,5 milhões de dormidas. 
O mercado externo foi o que mais contribuiu para as subidas no número de hóspedes e dormidas no ano passado, representando 72,4% do ano passado (71,5% em 2016), com 41,6 milhões de dormidas. Feitas as contas, em cada dez dormidas, sete são de turistas estrangeiros.
 Já o mercado interno contribuiu com 15,9 milhões de dormidas (mais 4,1%). 
O que é certo é que esta tendência de crescimento tem vindo a aumentar ao longo dos últimos anos. Em 15 anos, as dormidas cresceram 22 milhões – o único momento de inversão ocorreu em 2009 – e só em 2017 Portugal registou um aumento de quase quatro milhões de dormidas, com o país a beneficiar do estatuto de destino da ‘moda’.
Este crescimento refletiu-se inevitavelmente nas receitas turísticas que, no ano passado, ultrapassaram pela primeira vez os 15 mil milhões de euros. Feitas as contas, dá uma média de gasto diário de 41 euros por turista.
No entanto, a ideia é continuar a manter este ritmo e Portugal já tem um plano definido até 2027: atingir receitas turísticas de 26 mil milhões e 80 milhões de dormidas. E a atividade poderá ganhar uma maior fôlego se as metas de combater a sazonalidade forem cumpridas, uma vez que esta ainda é vista como «acentuada», principalmente no Algarve.
A ideia é simples: reduzir o impacto das variações da procura segundo a época do ano. Esta batalha, segundo Ana Mendes Godinho, tem vindo a ser ganha, já que há mais turismo ao longo de todo o ano, o que garante receitas nos vários meses e geração de emprego que não seja apenas sazonal. Outro aspeto a melhorar diz respeito ao aumento da permanência média dos visitantes.