Cultura

Miguel de Carvalho. “O fecho de livrarias tem levado a um cortejo público de vaidades”

Livreiro há 23 anos em Coimbra, Miguel de Carvalho deixa a cidade e leva o seu acervo de quase 50 mil livros, não abrindo mão da defesa do livro face à avalanche de lixo editorial

Para começar, o que se segue? Que transplante faz da raiz deste projeto enquanto livreiro? E em que medida encara o futuro na perspetiva de falhar de novo, falhar melhor?

Segue-se a busca do oiro dos tempos em que “… a um canto morre em agonia o primeiro grito / O gato parte à aventura pelos telhados, pelos vales e pelos Sonhos” (Henrique Risques Pereira). Na realidade, não levo só para outra terra a experiência, o espólio livresco e os contactos reunidos ao longo de 25 anos de atividade, levo uma liberdade, um amor e um conhecimento úteis para semear um novo bosque num lugar com terra mais fértil que aquela que acabo de deixar. A esterilidade não resulta só dos tempos e das catástrofes, naturais ou outras, pelos quais passamos, mas resulta da passividade do poder local no desenvolvimento cultural e comercial da Baixa histórica coimbrã em detrimento da realização de simples estruturas de base. As estruturas que refiro são as que garantem a afluência do público local à Baixa, em alternativa às ofertas turísticas, obviamente também importantes. Quanto ao futuro e a eventuais falhanços, só posso garantir que ambos começam pela mesma letra. (risos)

Tendo em conta que deixa Coimbra para trás ao fim de 25 anos, o que morre com este espaço?

Morre com este espaço a possibilidade de agregar nele, e ao mesmo tempo, dezenas de pessoas, em torno de um escritor, de um poeta, ou de um outro criador qualquer, que escolhia o local para a reunião e partilha entre gente dos seus círculos. Falo assim de cultura viva, independente de subsídios, numa casa que para muita gente era considerada como segunda habitação. O futuro espaço não permite este tipo de atividades e estará focado na compra e venda de livros selecionados, curiosos, raros e antigos. 

Qual é o aspeto mais doloroso desta despedida e mudança?

O aspeto mais doloroso reside no facto de me afastar de um conjunto, embora reduzido, resistente de clientes que teimam em circular pela Baixa para me visitarem, não só para se inteirarem das novidades bibliográficas, mas também para usufruírem de um breve convívio em local mais apropriado para o efeito, fora dos frenesins das suas vidas profissionais e privadas. Estou certo de que não perdi amigos e clientes, simplesmente não estarei tão perto deles à hora e no local que me procuravam.

Em que medida lhe parece que a cidade perde um projeto de caráter cultural importante? 

O projeto que julgo que esta cidade perde com este encerramento é o de uma dinâmica cultural viva e independente das letras e das artes, longe das salas e bilheteira conventuais que este governo local considera como uma “cultura” de mediação para animação e entretenimento. Citando a opinião de um amigo sobre esta minha despedida, “o que o poder promove são bancas de souvenirs com spray a cheirar a ares de cultura, mas com tudo menos o cheiro à grandeza do tempo passado sobre os livros ou o passar da história vivida pela história dos livros”.

Despede-se da cidade dos estudantes desiludido?

Apesar de tudo isto, não me despeço desiludido porque “Coimbra tem mais encanto na hora de despedida”, já se sabe.

O que mudou nas últimas décadas que levou a que certas cidades prescindam de um pulmão do espaço público como são as livrarias que não as cadeias, adaptadas aos centros comerciais?

Falhou o poder local ao voltar as costas ao centro histórico da Baixa, ao contrário do que assistimos na grande maioria das capitais distritais. Apesar deste abandono, Coimbra tem público interessado no comércio alternativo, incluindo espaços livreiros. E creio que o interesse se estende a outras cidades. Os encerramentos livreiros em Lisboa e Porto estão relacionados com a pressão turística que faz disparar o mercado imobiliário, e não com a falta de um público leitor. Este ainda permite manter as portas abertas se não houver acréscimos de custos relacionados com a orgânica empresarial das livrarias. Mas enquanto houver pressão turística, não há nada a fazer.

O que acha que as livrarias independentes terão de fazer para evitar serem irradiadas do centro das cidades?

Sem dúvida, é uma forma de resistência realizar, dentro de uma livraria, uma programação cultural cuidada e pensada no sentido de não esgotar e não fragilizar as relações e os tempos dos seus públicos, mas antes suscitar-lhes maiores e mais encorpados interesses, com base na diversidade de produtos dentro de uma lógica bibliófila. Urge a bibliofilia e só depois o seu mercado.

O que não pretende repetir daquilo que fez nos últimos anos? 

Não pretendo repetir absolutamente nada nem começar nada de novo, a não ser seguir o caminho natural do acaso, que foi o que me guiou sempre ao longo da vida. Tenho a sorte de possuir uma excelente família e bons amigos de quem recebo, no conjunto, apoio incondicional e absoluto. Garantindo e reforçando estes alicerces, e com base na experiência adquirida e nas visões de negócio neste meio livresco, sou autossuficiente para prosseguir pelo desconhecido.

O que ainda o move, o que o leva a manter-se do lado dos livros quando a maioria dos leitores parecem conformados com a ideia de que o livro se tenha tornado outro produto de consumo indiferenciado?

O que me mantém ao lado dos livros é o simples facto de que eles aproximam pessoas e, por vezes, umas de outras dentro de círculos com valências diferenciadas. Estes são agregadores, lembrando as pequenas bolas de mercúrio. É com base neste mundo de relações e de histórias centradas no livro que construo uma cartografia de, como uma vez escrevi, “desejos progradantes para lugares imaginários”, para dela me servir dos trilhos, dos meandros e das margens no quotidiano.

Como foi ver uma vez mais o cortejo de choradeiras pelo fecho de uma livraria forçada a fechar por falta de clientes?

Curioso perceber, embora sem admiração, que as reações ao encerramento de livrarias dão lugar a um cortejo público de vaidades. Isto eu testemunhei recentemente com a partilha entusiasta do artigo do “Público” de 1 de março que anuncia o fecho da minha casa livreira. A publicação, segundo a estatística associada, ascendeu a mais de dois milhares de partilhas concentradas numa única rede social. Pelo que pude constatar, este elevado número de partilhas fez-se acompanhar de lamentações, choros e clamores aos céus por tamanha desgraça. Desconheço número tão elevado de clientela da minha livraria, pelo que concluo ser este fenómeno um choro coletivo perante a própria passividade ou pela ausência de visitas às livrarias. Tal fenómeno corresponde a um moribundo comportamento coletivo que esconde a degradação de um valor que é o da leitura, ou a falta dela quando bem qualificada.