Cultura

Vladimiro Nunes. “Há um bloqueio ideológico à esquerda e à direita em relação à Natália”

25 anos depois da morte de Natália Correia, falámos com o editor da Ponto de Fuga, que está a apostar no lado testemunhal da obra desta figura central da nossa cultura, dando-nos a ler o exame de raio X em que antecipou os vícios de uma revolução que chamaria para o primeiro plano “os medíocres"

 


A Ponto de Fuga leva três anos desde o salto mortal que foi ter saído do sonho de um tipo para as livrarias deste país. Não é muito mas, para uma pequena editora, são anos de cão, já se sabe, e também merecem contar por sete. Fez, portanto, o check out da adolescência, falta-lhe ganhar músculo, abrir alas num território onde os lírios não têm sombra, nem cheiro, não passam de conversa fiada.


Falámos com o editor, Vladimiro Nunes (n. 1977, Lisboa), que usa a corda que tem ao pescoço para se lançar adiante, e está a criar o tipo de catálogo que para uns lembra e outros explica o gosto de ter crescido em casa de pais ou avós que liam muito, que tiveram o cuidado de organizar a biblioteca de tal modo que as fases de crescimento pudessem ficar marcadas pela altura das estantes. Os centímetros cá fora eram metros interiormente. Crescer aos saltos como só os gigantes.


Depois de uma monumental reunião dos textos e intervenções de Natália Correia acompanhando a agitação do PREC, a Ponto de Fuga continua a recuperar a obra desta figura central da cultura portuguesa no século XX, e, com “dois livros irmãos” – “Descobri que Era Europeia” e “Entre a Raiz e a Utopia” – gira alguns graus sobre a boa vontade dos mais gerais projectos de canonização, que vão insistindo na pose literária de Natália, seja reeditando a poesia ou a ficção.


Volvido um quarto de século sobre o seu desaparecimento, o que começa a perceber-se é que ela enquadrou o mais restrito grupo de intelectuais que empinaram os horizontes das nossas expectativas, na arte, na cultura, na política, no que fosse. Uma figura que não se quis enterrada nas letras, que fez de tudo, e ainda inspirou os outros, que aprendeu muito com os seus mortos – “mortos vivíssimos como estrelas ferozes rangendo a impalpável vingança da higiene que os sepultou”. E talvez essa seja a grande lição que a sua morte só reforçou: “O morto ri-se. O riso é o seu reino inesgotável. A estação violenta de decifrar os vivos. Porque o morto sabe que não há morte. Há o sacrifício de um que se enrola na onda que o devolve noutro às areias do naufrágio. Não há além. Há vai-vem. O trabalho do escaravelho que no sonho da múmia carrega às costas a eternidade.”


Têm editado para o público infanto-juvenil, e literatura pura e dura. Esta forma de se posicionarem na edição foi planeada?
É a mesma linha de autores. O que tentamos fazer, se calhar com uma dose imoderada de idealismo, é partir da ideia de que a literatura infanto-juvenil está com uma certa pujança – e está, até se edita bastante e bem para a infância –, mas o que nos parecia é que havia uma certa primazia da ilustração sobre o texto. Sem desprimor para esta opção, o que queríamos era recuperar a centralidade do texto.


E como chegam aos autores?
Em épocas passadas, houve grandes autores a escreverem para crianças, escritores que não são conhecidos por isso. Começou por aí, uma tentativa de descobrir que pérolas esquecidas de grandes escritores tinham sido dedicadas à infância. E isto porque queríamos ter essa abrangência de públicos. De outro modo, fica sempre a sensação de que se está a fazer livros para leitores que estão a desaparecer, ou que já está formado, já é muito adulto.


É uma estratégia defensiva num mercado saturado?
Tentamos que a editora chegue a mais gente, e às crianças através dos pais, dos avós, etc. Por isso é que fomos buscar o Faulkner, a Gertrude Stein… que também não são livros fáceis. Mas, no fundo, estamos no campo da literatura, e dos consagrados dentro de uma lógica de modernismo, que é o mais interessante para nós, para mim sobretudo, que sou quem dirige a editora. E foi também uma forma de tentar perceber, dentro do quadro de autores e obras que vão sendo ignoradas pelas editoras maiores, onde é que podemos ir buscar coisas que para nós tenham valor, que mereçam ser divulgadas, e tentar alcançar o mais vasto público possível. Isto para viabilizar o projecto e conseguirmos continuar.


Inicialmente, ainda acalentaram a ideia de ter uma livraria.
Nós temos um espaço, e a livraria foi algo um pouco acidental. Quando chegámos à conclusão de que íamos ter um volume de trabalho que não permitia que trabalhássemos em casa…

 


Quando diz nós…
Eu e a Fátima, a minha mulher. Somos só os dois. Vamos tendo um pequeno núcleo duro de colaboradores externos que nos vão ajudando muito. Temos connosco, por exemplo, a Eugénia Antunes, que é uma belíssima tradutora e que fez para nós a Virginia Woolf; o Nuno Quintas, um guru da revisão, e que tem um certo peso na indústria, pelo que também nos vai aconselhando, traduzindo para nós...


A livraria ainda funciona?
A livraria é um pouco a sede da editora. Aconteceu ficarmos não num escritório mas numa loja com montra para a rua, mas isto numa zona da cidade que não é favorável à actividade de uma livraria. Tínhamos um catálogo pequeno e, por isso, inicialmente pensámos em pegar nas propostas de outros editores que respeitamos – numa lógica de: com quem te vejo, com quem te comparo –, e também de sublinhar quais são as nossas referências e cumplicidades, e abrir uma loja. Só que, com o tempo, isso revelou ser mais uma distracção do que uma forma de amortizar o valor da renda.


E actualmente?
O que acabámos por fazer foi manter o espaço, onde vendemos os nossos livros, além de o fazermos também online, e depois seguimos o caminho normal da distribuição, que é aquele calvário que toda a gente neste sector já conhece. A resposta, portanto, é sim e não. A livraria ainda existe para a venda dos livros da editora, mas é sobretudo um espaço de trabalho onde nos encontram as pessoas que acompanham o nosso percurso. 


Têm conseguido chegar às pessoas, com estes autores, vender bem?
Achamos que sim. Fazemos tiragens na casa dos mil exemplares, o que são tiragens pequenas para aquilo que é a prática da indústria. Mas é também esta a tendência: uma diminuição das tiragens para evitar ficar com os livros em armazém. E apertamos porque a expectativa de venda é, de facto, inferior a isso.


É difícil viabilizar um projecto como este?
 É, muito. Temos tido algum critério, mas também algum apoio no sentido em que caímos em graça. Os livros são divulgados, a imprensa olha para eles, as livrarias vão-os expondo. O facto de trabalharmos com uma grande distribuidora ajuda a conseguirmos essa presença nas livrarias, isto porque se os livros não estiverem na cara das pessoas desaparecem. Um projecto destes não é viável numa óptica de 300 ou 400 exemplares. A expectativa é irmos esgotando devagarinho as tiragens. Posso dizer, por exemplo, que exceptuando a Beatrix Potter, na chancela PIM!, nunca fizemos uma reedição. Mas também ainda não tivemos um fracasso rotundo. 


Como é que estruturaram isto de modo a conseguirem sobreviver?
Isso é uma pergunta para a qual buscamos a resposta todos os dias mas que ainda não temos. Embarcámos nisto de uma forma que é, a todos os níveis, suicidária. Eu tinha um emprego, de que saí, recebi uma pequena indemnização, pedi um micro-crédito, contei com o apoio de alguns amigos, algum dinheiro para o projecto poder ir avançando, e temos feito as coisas nessa base de uns livros terem de render o suficiente para garantir os seguintes, sabendo que a qualquer momento podemos ter a corda no pescoço e não sermos capazes de dar mais um passo.


E de que bóias se servem?
Não queremos entrar na tentação, não vou dizer fácil, porque no que toca aos livros nada é garantido… Mas não queremos editar coisas nas quais não nos revemos apenas porque têm potencial comercial. A ideia é tentar dirigir a nossa acção para as pessoas que ainda garantem uma certa massa crítica, que ainda se interessam e, de permeio, tentar apanhar alguém que, por uma referência daqui ou dali, ou porque os livros agradam do ponto de vista gráfico (e temos essa preocupação), ou têm uma boa história por trás, as leva a sentirem curiosidade, agarrando aqueles leitores que, numa abordagem imediata, não teriam o impulso de pegar nestes livros.


Há então ainda margem para fazer a vida como pequeno editor?
Estes livros, mesmo tendo tudo contra eles, no que toca a um potencial de vendas imediato, acabam por encontrar um núcleo fiel de leitores, e, tratando-se de autores de referência, conseguem ter uma permanência um pouco maior nas livrarias e neste ciclo de consumo rápido, de culto da novidade… Pode ler-se menos hoje, mas daqui a cem anos ainda se vai ler a Virginia Woolf, o Faulkner, e nós queremos ficar do lado desses autores intemporais, e tentar que os nossos livros se aguentem nas livrarias à espera daqueles leitores que acabam sempre por aparecer.


Autores como Reinaldo Ferreira, o Repórter X, alguém que causou furor há um século, é uma referência que já quase se perdeu. Estão também a lutar pela Natália, uma figura que está ainda bem viva no imaginário cultural do país, mas correndo o risco de ser cada vez menos lida. Porque é tão difícil fazer algo pela memória contra o atropelo do programa de novidades?
Por um lado parece haver uma predisposição subterrânea para que, no contexto certo, as pessoas se lembrem e arrisquem revisitar essa memória. Isso aconteceu-nos com o primeiro livro da Natália. Agora, parece-me que figuras como ela ou o Reinaldo Ferreira, todas estas figuras maiores têm em comum uma ideia libertária da vida, um humanismo que não é artificial, que não se prende a nenhuma corrente, nenhuma obrigação com o ar do tempo, com o tentar parecer alguma coisa. Portanto, para além da inteligência e do valor literário destas figuras, há ali uma sinceridade que ainda fala para quem continua a procurá-la em si mesmo. E, por muito difíceis que estejam os tempos, acho que as pessoas continuam à procura disso, e de serem captadas por esse estímulo.


Qual é o desafio particular no que toca à difusão da obra da Natália?
Ela não é uma autora fácil, mas aqui também se tratava de fazer uma abordagem pelo ângulo certo. E isto até em termos de oportunidade de revisitarmos aquele discurso que foi mal compreendido na sua época, e que hoje tem tudo para ser compreendido. Há autores que falam para o futuro, e a Natália falou muito para o futuro.


O primeiro livro funcionou?
Quando começámos por editar o “Não Percas a Rosa” estávamos em cima dos 40 anos do PREC. E é muito interessante revisitar aquele livro, que foi tão pouco lido, e aquela perspectiva que foi tão mal amada, à esquerda e à direita na época, para percebermos hoje, à distância de 40 anos, que ela não só escreveu fazendo todo o sentido, como estava certa. Foi aquilo que aconteceu, não foi outra coisa. Acho que hoje já temos as lentes e o distanciamento para conseguirmos olhar para aqueles textos naquilo que eles são e naquilo que eles realmente significam. 


Pode dar exemplos dessa percepção crítica, do que ela pressentiu que estava para vir e veio?
É muito simples, basta abrir o “Não Percas a Rosa”. É um diário que ela começa a escrever num repente, na madrugada do 25 de Abril, com os tanques na rua desde as três da manhã. Às seis toma a decisão de começar um diário, e começa. As primeiras frases desse diário não são propriamente um programa mas um raio X absolutamente penetrante não só daquilo que se estava a passar mas daquilo que se viria a passar com aquela revolução.


Ela não deu nem um dia ao optimismo?
No momento de festa ela pode ter sido considerada uma desmancha-prazeres, alguém que vem estragar a celebração, vem dizer coisas feias, meter o dedo na ferida em que ninguém queria mexer, porque o que toda a gente queria era embriagar-se daquela liberdade… E tivesse eu vivido naquela época o mais provável é que fizesse o mesmo… Mas quase nos arrepia hoje ler o que ela escreveu naquela madrugada, com os tanques na rua há três horas. Como é que uma mulher conseguiu escrever de rajada uma coisa daquelas? E é esse arranque que quero partilhar porque ilustra muito bem aquilo que estou a dizer:
“O alvoroço redobra-me a ansiedade. A iminência de ver florir por fora a Primavera que sempre trouxe dentro do meu amor à liberdade morde-me o coração como uma alegria insuportável. Joguei sempre no impossível. E agora? Só os medíocres sabem o que fazer com a vitória. Pois haverá duas. A vitória que dará aos medíocres a oportunidade de estragarem o impossível, na frustrada demonstração de que é possível a felicidade dos povos. É este, de resto, o destino das revoluções. Quanto à minha vitória, ela oferece-me o ensejo de, no impossível possibilitado, desmascarar esta pretensão dos medíocres, com os olhos postos em impossíveis a haver. Por outras palavras: não me imagino a frequentar as aulas de qualquer revolução vitoriosa.”


Que outro lado é que descobriu nestes textos?
É este lado da Natália, que havia também na poesia dela… Por onde eu, como se calhar a maioria das pessoas, começámos a lê-la, na adolescência, nas aulas de Português... Mas havia ali um excesso ou teatralidade que nem sempre me atraiu muito, para ser sincero. Achava que tinha poemas muitíssimo bons, mas depois maçava-me um bocado aquela triangulação: romantismo, surrealismo, barroco. Aquilo nem sempre fazia sentido para mim.


E esta parece-lhe mais actuante?
Esta vertente mais reflexiva, diarística, das impressões de viagem (que é agora aquilo que encontramos no livro que acabamos de editar [“Descobri que Era Europeia”]), pareceu-me a faceta dela mais fácil de recuperar. Porque há para mim muito a ideia de que ela estava a falar para um tempo que não era aquele. E quanto a mim esse tempo chegou.


Talvez não haja figura tão central na cultura portuguesa do século XX, que congregue tantas facetas como Natália Correia. Porque é que também ela está hoje numa espécie de limbo?
Talvez isso aconteça por ser uma intelectual no sentido mais genuíno do termo. Não era uma académica, de resto, nem sequer completou um curso superior. Acho que isso pesa. Num país de doutores, em que o estatuto se mede pelos pergaminhos, ela não os tinha, nem social nem academicamente falando. Por outro lado, talvez se relacione com aquilo que muita gente considera terem sido as derivas políticas da Natália.


Há razões para rever a forma como ela se identificou politicamente?
A Natália tem aí um problema de fundo: deu muita pancada nos comunistas e esquerdistas, foi contra o radicalismo do pós-25 de Abril, e posicionou-se de forma muito clara contra isso, sofrendo as consequências até ao ponto de ser silenciada, de ver as suas colaborações na imprensa serem interrompidas por causa disso. Mas era uma mulher que, tendo gravitado na órbita do PSD, manteve sempre um grau de independência muito grande. Penso que, na altura, isso não foi muito bem entendido.


Hoje como é que ela é encarada?
Do ponto de vista político, como uma figura um pouco incoerente ou inconsistente. Mas parece-me que o que se passou foi precisamente o contrário. Como todas as pessoas seguras de si, e que o que advém de um desejo de quererem saber sempre mais, não se importou de mudar de opinião ou de posicionamento quando achou que determinadas figuras não eram aquelas que defendiam aquilo em que ela acreditava. Acho que persiste essa dicotomia política de ter ficado demasiadamente conotada com um partido de centro-direita, para que a esquerda pudesse ter por ela verdadeiro apreço, e lhe reconhecesse os pergaminhos de libertária, e é demasiado libertária e irreverente para ser acolhida pela direita. Portanto, há um duplo problema e, daí, a provocação de termos chamado para o lançamento de “Não Percas a Rosa”, dois comentadores políticos, um mais à esquerda e o outro mais à direita. 


Quem eram?
O Daniel Oliveira e o Pedro Marques Lopes. E é interessante perceber que se focaram em coisas diferentes mas que, na globalidade, tiravam dali precisamente esse estímulo libertário, embora com consequências diferentes. Parece-me que há um bloqueio ideológico à esquerda e à direita em relação à Natália. É demasiado irrequieta para que a direita a reclame, ou para que o PSD a reclame, a não ser numa perspectiva puramente histórica, ou ilustrativa, e deu demasiadas alfinetadas à esquerda para ser reconhecida como um ícone libertário. 


Como compara uma figura como a Natália com estas pessoas que hoje vemos passarem pelas áreas da cultura e que muitas vezes nem têm um discurso que acompanhe qualquer visão desafiante?
As coisas passaram a ser pensadas a um nível muito superficial. Por isso é que já não temos agitadores, figuras que mudam o rumo dos acontecimentos. Isto no sentido em que as pessoas já não agem por um imperativo de consciência, seguindo uma vontade de querer compreender o mundo, por uma necessidade absoluta de fidelidade a si próprio, às suas convicções e pensamento, mas se movem por conveniências. Numa era em que a linguagem tem de ser muito filtrada, em que nós todos temos de ter muito cuidado com o que dizemos para não sermos incorrectos, mas depois não temos de nos preocupar absolutamente nada em ser consequentes com aquilo que apregoamos, estas pessoas teriam muita dificuldade em passar, porque se tornaram inconvenientes, indesejáveis. Precisamente porque dão luta, e porque podem desarmar-nos. 


A cultura já não é uma esfera essencial ao combate público?
Se há umas décadas tinham prevalência figuras políticas como o Cunhal ou o Soares que, goste-se ou não, eram inegavelmente homens de cultura, e que se fosse preciso combatiam nessa arena, hoje em dia não temos ninguém que seja capaz de o fazer. Por outro lado, também ninguém vai assumir que a cultura passou a ser descartável, ou menos importante, então o que há a fazer é arranjar uma cultura que case com esse registo de superficialidade que tomou conta de todas as esferas da vida pública. E ao ser cada vez mais difícil que figuras como estas floresçam e exerçam a sua influência habilitamo-nos a ter um vazio completo para o futuro, onde não seja possível fazer sequer uma sementeira pois falta o rasgo e faltam as influências que possam ajudá-lo a germinar. 


Como foi trabalhar no espólio da Natália, decidir ao que teria prioridade?
Isto passa sempre por pedirmos alguma orientação à Ângela Almeida, que é uma investigadora que vive nos Açores e conhece muito bem o espólio da Natália, que teve até algum convívio com ela na juventude… Ela fez-nos um levantamento e nós começámos a pensar nos livros que queríamos editar. Como disse no princípio, começámos pelos textos reflexivos, memorialísticos, diarísticos, estes registo de viagens, porque nos parece que é um pouco mais fácil levar as pessoas a relerem a Natália por aqui, e reapreciarem-na por aqui.


E o que descobriram de novo?
O que fizemos foi procurar no espólio todo o material que esteja relacionado com os livros que queríamos reeditar. No caso do “Não Percas a Rosa” fizemos uma comparação entre a versão publicada do livro e os manuscritos originais, fazendo o levantamento de alguns textos inéditos, reunindo as crónicas em livro, e tentámos encerrar aquele dossier PREC/25 de Abril num volume só. Aquilo deu 700 páginas, foi de facto um volume muito ambicioso. 


E correu bem?
Correu. Vamos com cerca de mil exemplares vendidos, não esgotámos a edição mas é um número simpático para um livro de 700 páginas que custa vinte e muitos euros. Desse ponto de vista correu até francamente bem. Para este livro [“Descobri que Era Europeia”] também estamos a arriscar uma tiragem simpática: fizemos dois mil. Alguns vão para organismos açorianos, mas vamos colocar à venda cerca de 1600 exemplares. Vamos ver como é que corre.


Qual é a actualidade deste?
É um livro que acaba por falar para a época que vivemos, em relação até à própria actualidade norte-americana. A Natália vai em 1950 aos EUA, na sua primeira visita, movida sobretudo por duas razões. A primeira foi o casamento recente com um norte-americano, que era meteorologista da TWA em Lisboa. Eles casaram em Marrocos, foi um casamento fugaz, mas havia essa questão de ir conhecer a família do marido…


Quando acabou o casamento?
Pouco depois. Por volta de 1951 ou 52. Terá durado uns três ou quatro anos. Descobrimos isso porque a cooperativa António Sérgio nos pediu para fazermos uma recolha de éditos e inéditos sobre cooperativismo e António Sérgio, e, naquelas coincidências engraçadas da vida, descobrimos que tinha sido o Sérgio a encarregá-la de uma missão que justificava a visita aos EUA, que era estabelecer contacto com o então Secretário-Geral do Partido Socialista, Norman Thomas, para conseguir apoios para a causa da oposição ao salazarismo.

 

Há paralelos entre a situação política que se vivia então e a que se vive hoje?

Depois de um período de euforia, imediatamente a seguir ao pós-guerra (II Guerra Mundial), rapidamente se percebeu que as coisas iam ficar como estavam e o país ia permanecer estagnado até um novo impulso que seria dado à oposição só na campanha do General Humberto Delgado, na qual ela, de resto, se envolveu militantemente. E é curioso perceber que a Natália vai conhecer os EUA numa época em que Truman era presidente, em que começa a célebre caça às bruxas, com McCarthy a ganhar poder, e há ali reminiscências muito curiosas em relação ao que se passa hoje, e ao que assistimos com o Trump. O que nós fizemos neste livro foi, não apenas recuperar a edição original, que é de 1951 – tinha havido uma edição, salvo erro, em 2002 ou 2003, que reproduzia integralmente a primeira sem quaisquer acrescentos –, nós inserimos aqui uma novidade. É uma edição revista, no sentido em que o exemplar da primeira edição que a Natália tinha na sua biblioteca estava completamente anotado, reescrito e acrescentado, com vista a uma segunda edição, que não foi a que saiu, e nós estabelecemos o texto a partir desse exemplar. Não sabemos muito bem quando é que ela terá feito essas alterações, mas suponho que uns 20, 25 anos após o livro ter saído. 


Isto obrigou-vos a um trabalho moroso de cotejar as duas versões?
Não porque as alterações não são, apesar de tudo, muito profundas. E aí está a prova da coerência da Natália. Talvez houvesse algum polimento em relação a certas inclinações de juventude, que rapidamente ficaram datadas, mas as alterações são poucas. É sobretudo um aprimoramento de forma, o acrescento de alguma breve reflexão… Não são mudanças estruturais. Mas há essa curiosidade: sendo a última vez que mexeu no texto, fazia sentido republicar o livro de acordo com o que é a última vontade expressa da autora, ainda que de forma directa em anotações à margem do livro. E depois tentámos localizar também outros textos que estivessem relacionados com essa viagem, que os havia. Até porque outra das missões dela foi escrever algumas crónicas para o “Diário de Lisboa” sobre a visita à América. Só foram publicadas três, que nós recuperamos, algum material fotográfico e recortes de imprensa da altura, porque fazia sentido neste livro, e porque gostamos sempre de dar aquele lado um pouco mais ilustrado às nossas edições. Depois há uma crónica extensa que ela publica no “Jornal Novo” em 1978, quando é convidada a ir aos EUA – a Berkeley, salvo erro, no âmbito de uma iniciativa cultural, e julgo que ia também ser homenageada. Publica, então, uma crónica com o título “América o Último Banquete”, em que basicamente faz a actualização dos 28 anos que, entretanto, tinham passado. Ela diz que, se já havia aquela estupidez latente no americano médio, o computador só tinha servido para agravar a situação. Em 1983, o PR de então, o General Ramalho Eanes, pede-lhe que o represente nas Comemorações do 10 de Julho, junto das comunidades portuguesas, e ela profere uma série de discursos relevantes, até porque falam muito da portugalidade, do papel das comunidades portuguesas no exterior, do universalismo português…

Que visão tinha ela da colonização portuguesa?

Acho que ela tinha uma concepção um pouco romântica dos Descobrimentos. Nós hoje andamos a descobrir os horrores da escravatura, e da colonização, e nesse aspecto algumas intervenções dela chegam a soar um pouco ingénuas, mas ela era, de facto, uma universalista, e, na perspectiva dela, o povo português tinha essa motivação primordial. Depois há uns textos muito curiosos que ela escreveu no avião. Uns textos diarísticos um pouco mais prosaicos, mas com muita piada. No fundo, este livro entre éditos e inéditos, acaba por arrumar a visão dela sobre o que é os EUA. Uma visão de quem olha para fora e, simultaneamente, se descobre interiormente. Ela diz que a melhor forma de conhecer um povo é visitá-lo em sua casa, e, implicitamente no título do livro, “Descobri que Era Europeia”, acaba por se descobrir a si própria, às suas raízes, e fazê-lo fora do espaço que nos é natural. Nos EUA ela sente-se europeia emocional e literariamente, reivindicando de uma forma muito forte essas raízes e pondo-as em confronto com a sociedade, história e política norte-americana.