Sociedade

Perfil. O homem que não tem “medo de nada nem de ninguém”

José Silvano começou na JSD e deu nas vistas como presidente da Câmara de Mirandela. Pelo meio andou nos Rangers e serviu-lhe para a vida

“Como bom transmontano que sou, não terei medo de nada nem de ninguém.” Foi assim que o novo secretário-geral do PSD se apresentou na conferência de imprensa, na sede nacional do partido. Silvano tem a difícil missão de ajudar a ultrapassar o momento conturbado que o PSD está a viver e garante que o seu único objetivo é “unir” o partido para vencer as eleições legislativas em 2019.

A escolha não era óbvia. José Silvano é desconhecido na política nacional, apesar de ter entrado cedo para o partido. Ainda nos tempos de estudante inscreveu-se na JSD de Bragança. Licenciou-se em Direito e no final do curso foi chamado a cumprir o serviço militar. Para ficar mais perto de casa decidiu voluntariar-se para os Rangers, em Lamego. “Foi uma tropa violenta, mas serviu-me de muito para a vida. Ajudou-me a superar todas as adversidades da vida”, disse, em 2012, ao jornal “Terra Quente”.

A política começou a ser levada mais a sério quando chegou à direção da JSD de Bragança. Daí a liderar a concelhia de Bragança e, depois, a distrital foi um passo. Adão Silva, vice-presidente do grupo parlamentar do PSD e amigo de Silvano desde os tempos da JSD, garante que o novo secretário-geral “é uma pessoa muito trabalhadora e que tem uma relação muito fácil com as pessoas. O PSD precisa disso, precisa muito de relações muito afetivas, muito estreitas com as pessoas. Ele tem a escola dos autarcas”.

Foi como presidente da Câmara de Mirandela, cargo que ocupou durante 16 anos, que deu nas vistas na luta contra o encerramento dos serviços públicos no interior do país. José Sócrates governava, em 2006, quando o autarca decidiu colocar um outdoor gigante à entrada do distrito. “Aqui Termina o Portugal da Igualdade de Oportunidades”, garantia o cartaz utilizado como uma das armas na “guerra” contra a desertificação.

Ao longo da sua carreira política, o agora secretário-geral do PSD não perdeu uma oportunidade para defender o interior, mesmo que para isso tivesse de entrar em confronto com os colegas de partido. Quando Manuela Ferreira Leite se colocou ao lado do ministro Correia de Campos na polémica sobre o encerramento das maternidades, Silvano acusou-a de ser “centralista” e convidou-a a visitar a região para “ver quanto tempo demora uma grávida de Freixo de Espada à Cinta a chegar à maternidade”. É um defensor da regionalização, porque é a “única forma” de dar a volta aos problemas do interior, e da criação dos círculos uninominais para aproximar os eleitos dos eleitores.

Deu o salto para a política nacional, pela primeira vez, em 1995, quando Fernando Nogueira perdeu as eleições com António Guterres, após dez anos de cavaquismo. Cruzou-se nessa altura com Rui Rio, que também era deputado. Voltou a ser eleito em 2015, quando o PSD venceu as eleições, mas acabou na oposição com a inédita aliança à esquerda. O discreto deputado conheceu um dos momentos mais difíceis da sua carreira quando rebentou a polémica sobre as alterações à lei do financiamento partidário. Presidiu ao grupo de trabalho que foi acusado de fazer a lei em segredo.

Desde cedo na vida pública, José Silvano confessou, numa entrevista, não ter jeito para “os negócios ou para trabalhar no privado”. Os mais próximos garantem que não vira a cara ao trabalho. “É muito trabalhador. É um homem tranquilo e apaziguador. Quando é preciso é um homem firme, mas é sobretudo um tipo conciliador”, diz ao i Adão Silva. O ex-secretário de Estado das Comunidades José Cesário garante que “é um bom homem, determinado, extremamente trabalhador, honesto e humilde, coisas essenciais na vida pública”. O deputado social--democrata Luís Vales também lhe elogia a “humildade” e a “perspicácia”.

Silvano descreve-se a ele próprio como uma pessoa que consegue “concretizar, ajudar, resolver e pouco falar”. Na conferência de imprensa, na sede nacional do PSD, José Silvano prometeu “fazer tudo para afirmar o PSD na sociedade civil, com trabalho, empenho e proximidade com as pessoas no terreno”.

O nome escolhido por Rui Rio para substituir Feliciano Barreiras Duarte, após a polémica com o currículo, vai ser votado no conselho nacional, no dia 28. Rui Rio não tem maioria, mas José Silvano garante que “não tem receio” da votação. “Digo isto, mas não no sentido de desafiar ninguém. O meu único objetivo é unir o PSD para ganhar as eleições legislativas em 2019”, afirmou o novo secretário-geral, que desdramatizou a turbulência no partido com o argumento de que “é mais o que se propaga sobre o PSD do que o que acontece no PSD”.