Opiniao

O regresso de Sócrates

Já se viu que Sócrates tem sete vidas como os gatos.Não se deixa abater.

José Sócrates foi convidado pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra para uma conferência com o título ‘O projeto europeu depois da crise económica’, mas o objetivo da sua intervenção era falar da «estratégia que desenvolveu [em Portugal] para sair da crise», segundo disse o presidente do núcleo de estudantes que o convidou. 

O convite, em si, nada tinha de extraordinário.

Aliás, os ex-governantes deveriam ter mais contacto com as universidades, transmitindo aos estudantes a sua experiência.

Uma coisa é ensinar teoria, outra é falar de experiências concretas – como, no caso dos políticos, das medidas tomadas em determinadas circunstâncias e dos resultados obtidos.

Ou dos processos de negociação com instituições nacionais e internacionais, designadamente com a União Europeia.
Aliás, julgo que foi essa a principal razão que conduziu o ISCSP a convidar Pedro Passos Coelho para dar aulas.
Será um privilégio para os alunos poderem contactar com uma pessoa que esteve à frente dos destinos do país num período dificílimo, sujeito a uma intervenção externa e com constantes avaliações por entidades supranacionais.

Assim, repito, a ida de José Sócrates a Coimbra não deveria surpreender ninguém.

Até porque já passaram por aquela faculdade outros protagonistas políticos, como o próprio Passos Coelho, Marques Mendes e Jorge Coelho, além de Teodora Cardoso.

A questão é que a conferência de Sócrates surge em plena polémica sobre a referida contratação de Passos pelo ISCSP, ainda por cima com a equiparação a catedrático.

E, nessa medida, o convite a Sócrates pode ser interpretado como uma resposta.

É como se os estudantes de Coimbra dissessem: «Convidaram o Passos? Então tomem lá o Sócrates!».

De facto, julgo que, se não existisse o atual alarido à volta de Passos Coelho, ninguém se lembraria de convidar José Sócrates para uma conferência na universidade.

E essa participação levanta outro problema.

Enquanto Pedro Passos Coelho aceitou o convite para dar aulas como uma forma de ganhar a vida, depois de ter deixado a política por tempo indeterminado, para José Sócrates, pelo contrário, estas aparições públicas são sempre aproveitadas para fazer política.

Já se viu que Sócrates tem sete vidas como os gatos.

Não se deixa abater.

Por isso vai encontrando formas de aparecer regularmente no espaço público, seja através de comunicados, de recursos, de conferências, da apresentação de livros, etc.

E esta foi uma ótima oportunidade, pois não resultou de uma iniciativa própria mas sim do convite de uma instituição universitária.

Mas, se Sócrates não desiste da política – fazendo lembrar neste aspeto (e noutros) Lula da Silva –, não se vê bem por onde possa furar.

António Costa é hoje líder incontestado do Partido Socialista e primeiro-ministro.

Marcelo Rebelo de Sousa é um Presidente da República popularíssimo e que já se percebeu que vai recandidatar-se, apesar de ter sugerido o contrário quando se candidatou há dois anos.

Por outro lado, o PS já deu todos os sinais de que não apoia Sócrates e quer mesmo demarcar-se dele.

Foi assim desde o início deste processo judicial, quando ele foi preso, e ainda mais depois de deduzida a acusação.
Qual poderá ser, então, o objetivo político de José Sócrates num prazo razoável?

Supondo que António Costa fica em S. Bento até fins de 2023, e Marcelo fica em Belém até 2026, quais serão as perspetivas de Sócrates? 

Uma delas é óbvia: quererá sempre reabilitar o seu Governo, insistindo na ideia de que a grande responsabilidade pelo resgate financeiro do país pertenceu à direita, ao chumbar o PEC 4.

José Sócrates fará tudo para limpar o seu nome perante a História, deixando de ser apresentado como o primeiro-ministro que conduziu Portugal à bancarrota, e atirando para outros esse anátema. 

Mais: apresentando o período em que foi primeiro-ministro como o último em que Portugal se modernizou – como disse na quarta-feira em Coimbra.

Por outro lado, Sócrates quererá vingar-se do PS pelo apoio que não lhe deu.

Que os adversários o ataquem, isso achará ele normal; mas que o seu partido o tenha abandonado e mesmo proscrito num momento tão difícil, isso é para ele intolerável.

Será este, pois, um dos objetivos políticos de José Sócrates nos próximos tempos: manter-se na ribalta para ir apontando o dedo àqueles que, entre os seus pares no Partido Socialista, o deixaram cair.

Neste sentido, o regresso de Sócrates será sempre um motivo de incómodo para António Costa.