Economia

Férias da Páscoa. Diversão dos estudantes gera milhões, mas há quem não os queira

As viagens dão tanto dinheiro às agências, hóteis e discotecas que há entidades a oferecer viagens a quem reúna mais finalistas. Mas os problemas e prejuízos já levaram muitos destinos a bater com a porta

Quando se fala em viagens de finalistas existem, pelo menos, duas formas de falar do tema. Podemos escolher pôr o foco na vontade dos milhares de jovens que todos os anos esperam pela experiência que vão ter longe dos pais ou podemos ver como muita coisa tem mudado ao longo dos anos, nomeadamente, no que respeita à posição de quem recebe estes jovens. Os anos trouxeram novos destinos e até mais escolha, mas os problemas continuam a ser os mesmos e há destinos que trancaram as portas a este tipo de turismo e não pretendem voltar a abrir.

Um dos primeiros destinos a bloquear o acesso a estes grupos foi o Algarve. Durante vários anos este era o destino de milhares de jovens. Até que, em 1990, a Sporjovem – agência líder de mercado das viagens de finalistas –, vai para Benidorm. A partir daqui, o Algarve começa a ficar definitivamente para trás. “Este tipo de viagem começou nos anos 80 e o destino principal era Torremolinos”, começa por dizer Tiago Sanches da Gama, que, no passado, era responsável comercial da agência. Analisando por décadas, o responsável diz que “nos anos 90, os estudantes começaram então a ir para Benidorm”. Mas no final dessa década, já existiam mais destinos. Foi nesta altura que começaram a ser escolhidos destinos como “Salou, Palma de Maiorca, Ibiza e começaram os anos de Lloret de Mar”.

Mas a mudança de destino foi estratégica ou não havia alternativa? Ao i, Elidério Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), recorda esses tempos e diz que há já muito tempo que “os estabelecimentos da região começaram a evitar receber excursões organizadas, no sentido de travar as situações de instabilidade provocadas pelos estudantes, como distúrbios junto de outros clientes, mas também os danos materiais que provocavam e que depois era preciso compensar, o que gerava conflito”. Para impossibilitar que o destino volte a estar no mapa, são aplicadas cauções elevadas e, assim, afasta-se os finalistas. “As experiências que tivemos com estudantes não foram boas”, conta. Elidério Viegas recorda que muitos dos primeiros hotéis a receber, há muitos anos, estes grupos, não sabiam que eram estudantes finalistas. O sentimento generalizado entre os empresários é que é raro “não acontecer nada” e sustentam que o risco de receber estes estudantes não justifica o dinheiro que entra para o efeito. “Depressa se levantaram questões que normalmente não são tidas em conta: Começa a haver problemas de imagem e, como muitos são ainda menores, chega a haver problemas de legalidade”, sublinha. A alternativa passou então a ser Espanha com as suas mil e uma soluções. No entanto, também aqui começaram a existir problemas. Um dos destinos mais fortes, durante largos anos, foi Lloret de Mar. Mas o que começa, acaba e para trás ficou então este destino favorito de muitos, depois de, em 2010, ter morrido um jovem que caiu de uma varanda. Uma situação que se voltou a repetir em 2012. E foram exatamente estas tragédias que ditaram uma maior atenção em torno das viagens de estudantes finalistas. Multiplicaram-se, então, os destinos de forma a tentar evitar grandes concentrações. Recorde-se que tempos houve em que “só a Sporjovem levou para Lloret de Mar 14 mil jovens”.

Mas também houve problemas graves em destinos como Torremolinos. A última polémica aconteceu no ano passado depois de cerca de mil adolescentes portugueses terem sido expulsos do hotel por causa de vários desacatos nas instalações. O comportamento destes jovens acabou por ser notícia em vários órgãos de comunicação social locais que garantiram que o hotel em questão nunca tinha visto “nada igual”. Dentro deste “nada igual” cabe um pouco de tudo e, principalmente, danos na ordem dos milhares de euros. De acordo com a imprensa local, foram atirados colchões pelas janelas, arrancados azulejos e houve até televisões a ir parar às banheiras.

A tradição em números Só este ano, os números apontam para trinta mil finalistas portugueses em Espanha. Mas espalhados por diferentes destinos: Punta Umbría, Marina D’or, Benalmádena e Salou. As viagens custam entre 300 a 500 euros e os finalistas ficam em média seis noites.

No entanto, também as viagens para destinos com neve têm conquistado cada vez mais adeptos. Marta Cunha Grilo, blogger de viagens, recorda que, quando foi finalista, escolheu ir até Pas de la Casa. “É incrível a quantidade de portugueses que vivem em Andorra e escolher um destino destes é aquilo que podem imaginar: ski ou snowboard durante o dia (com direito a aulas para quem quer) e festa durante a noite”. Andorra é, aliás, um destino que ainda é procurado por muitos. Outros escolhem fugir das habituais promessas para massas e apostam cada vez mais em viajar em grupos mais reduzidos para destinos como Roma, Londres, Paris ou Amesterdão.

Ainda assim, há quem acredite que podem mudar os destinos e as gerações, mas é necessário não esquecer a idade com que estas viagens se fazem. Ricardo Martins Pereira, autor do blogue “O Arrumadinho”, salienta que “os putos de 16 ou 17 anos estão na idade de fazer asneiras, da afirmação, da gabarolice perante as miúdas, de se armarem em campeões, e não há prevenção alguma que mude isto”.

Mudam os tempos, mudam os destinos

Algarve e Torremolinos

• Até à década de 90, os destinos que tinham mais adeptos eram o Algarve e Torremolinos. Em 1980, por exemplo, foi discutido no parlamento um conflito que a deputada Rosa Represas dizia envolver “cenas de violências gratuita e vandalismo”.

Espanha ganha terreno

• Em 1990, a agência Sporjovem introduz um novo destino: Benidorm. A lógica de apostar cada vez mais em Espanha é simples: pesa a questão logística, conta a proximidade e ainda o preço. Mas no final desta década aumenta a aposta em destinos como Salou, Palma de Maiorca e Ibiza. Começam também os anos de ouro de Lloret de Mar.

Praia perde adeptos

• Depois da morte de dois jovens em Lloret de Mar, em 2010 e 2012, a oferta de destinos aumenta. Há cada vez mais jovens a procurar Roma, Paris, Londres ou até Amesterdão.