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Também já fui finalista. Um retrato de diferentes épocas e gerações

Todos os anos, nas férias da Páscoa, milhares de estudantes do ensino secundário e superior aproveitam a mítica viagem de finalistas. O i foi visitar o passado de algumas personalidades que aproveitaram destinos diferentes em épocas diferentes

ANOS 60, António Bagão Félix 
"Ainda tenho o postal de uma espanhola"

“Estudei no Liceu Nacional de Aveiro e as coisas eram muito diferentes. Primeiro tivemos o baile, em dezembro de 1964. Depois, na Páscoa, fizemos a viagem até Espanha. Contando com todos os cursos éramos 106, 47 alunas e 59 rapazes. Não sei quantos foram, mas não éramos muitos. Eu tinha 16 anos e foi a minha primeira viagem ao estrangeiro. Numa semana, sempre de autocarro, fomos a Sevilha, Córdova e Granada. Foi muito divertido, mas foi turismo. Não havia a lógica de estacionar e ir para as festas. Ir beber uns copos era uma questão que não se colocava. Não se sabia o que era álcool, e tabaco não fumava. Mas era uma altura em que os rapazes se aproximavam mais das raparigas. Ainda tenho o postal de uma espanhola com uma dedicatória afetiva. Mas eram outros tempos. Íamos todos de fato e gravata e havia um corte completo com a família porque não havia telemóveis.”

ANOS 80, Jorge Gabriel
"Éramos bandidos. Só tinhamos bailes"

“No meu tempo, estas viagens eram muito caras. Não era qualquer pessoa que as podia fazer. Só iam as famílias mais ricas. O país estava a recuperar financeiramente dos anos 70 e eu estudava na Amadora. O máximo que nós tínhamos eram os bailes da escola. Mas, como éramos bandidos, acontecia, por vezes, nem para isso termos autorização dos conselhos diretivos da escola. Mas não tenho pena nenhuma. Na minha casa não há esse hábito. Os meus filhos não vão. Não são os excessos que me preocupam, porque também já os cometi, mas estamos a assinar uma permissão para que menores o façam durante oito dias, sem supervisão. Acho que os pais também não devem dizer que sim a tudo e devem pensar bem na lógica destas viagens. Conheço casais que tiveram um choque quando souberam que os filhos tinham entrado em coma alcoólico.”

ANOS 90, Raquel Varela
"O cenário mais dantesco que vivi"

“Na minha altura foi tudo organizado pela associação de estudantes. A experiência marcou-me para toda a vida, porque foi o cenário mais dantesco que já vivi. O valor era irrisório. Não me recordo, mas era algo como o que seriam hoje 200 euros. Incluía autocarro, barco e hotel, com pensão completa. Foram 17 horas de autocarro, o que quase me matou, seguidas de nove de barco, creio, em que todos vomitavam, fumavam charros, riam e bebiam. Chegámos a Palma de Maiorca, a um hotel à beira da água, e cerca de 20 homens de várias empresas empurravam-se a oferecer bar aberto a noite toda por algo como 2 mil escudos, com bebidas brancas rascas à descrição. Não havia nada em redor a não ser hotéis, praia e discoteca na cave. Eu não censuro a boa vida nem sou contra bebidas. Mas não concordo com esta história de ir só para beber. Os excessos têm vindo a piorar muito e há situações cada vez mais graves.”

ANOS 70, Herman José
"Não havia erva nem tabaco"

“No meu tempo eram os alunos que organizavam as suas viagens. Nós organizámos uma para Londres. Eu tinha 17 anos [em 1971] e a viagem tinha tudo incluído. Fomos tão felizes que, por vezes, tento compreender a experiência de liberdade absoluta. Mas não havia erva, nem tabaco, nem álcool. Éramos um grupo de 30 e fomos nós que organizámos tudo. Havia muita gente rica, mas também havia quem não tivesse dinheiro para fazer a viagem e nós fizemos com que todos conseguissem ir. Claro que ter ido com professores também fez muita diferença. O ser humano precisa de ter regras. Se eu fosse livre, vinha para casa todos os dias a 230 km/h. Ou seja, a juventude chega onde deixamos. Além disso, há a questão da educação. Os comportamentos também têm muito a ver com o que se passa em casa. Aquela minha viagem foi a primeira que fiz a Londres e foi inacreditável. Fomos ver espetáculos, monumentos, etc.”

Final da década de 80, Fátima Lopes
"Fui guia durante quatro anos"

“Fui guia em viagens de finalistas durante quatro anos. Foram os últimos quatro da década de 80 e os grandes destinos da altura eram Benidorm e Torremolinos. E era muito divertido. Apesar de ser guia, ia para as discotecas com eles e divertia-me da mesma maneira que eles. O maior problema nesta altura era não haver telemóvel. Quando havia um problema, era tudo mais complicado. Os meus maiores medos eram os excessos com álcool e o aluguer de motas de água. Mas, felizmente, nunca tive nenhum problema grave em mãos. É evidente que se faziam as mesmas coisas que se fazem agora. Eram noites e noites sem dormir, mas ninguém sabia o que os miúdos estavam a fazer. Agora, a comunicação social dá mais atenção e até já vi jornalistas a acompanhar viagens. Naquela altura, não havia nada disto. Sinceramente, acho que estas viagens são boas e há coisas que fazem parte. Devem ser feitas na idade certa.”

ANOS 90, Rita Pereira
"Ajudei muitos amigos a voltar"

“Quando fui, ainda não tinha 18 anos e nem sequer estava no 12.o. Fui no final do 9.o porque era a altura em que se seguia para agrupamentos diferentes. O destino foi Lloret de Mar, mas correu tudo bem e diverti-me muito. Eu nunca fui de grandes excessos e não sou apaixonada pela noite, não tive grandes problemas. Mas claro que também ia sair e ainda ajudei muitos amigos a voltar para o hotel. Lembro-me que tínhamos várias atividades e que algumas delas eram jogos do género caça ao tesouro. O prémio eram dez bebidas grátis para essa noite. Era engraçado. Mas o melhor da minha viagem foi a oportunidade que tive de me aproximar de outras pessoas. Havia uma rapariga com quem me dava bem na escola, mas de quem me aproximei muito nessa viagem. Hoje em dia é a minha melhor amiga e posso agradecer a Lloret de Mar. Aliás, aos 18 anos, foi com ela que fui viver e sou madrinha do filho dela.”