Politica

Não são todos Centeno na 'Geringonça'

Bloco ataca Centeno e teme que o país seja penalizado para que o ministro possa brilhar em Bruxelas. Socialistas ignoram críticas e estão felizes com défice mais baixo da democracia.

Mário Centeno ganhou vida própria para o bem e para o mal. O ministro das Finanças foi, esta semana, o alvo do Bloco de Esquerda. Primeiro foi Mariana Mortágua a acusá-lo de ser «uma força de bloqueio». Catarina Martins  alertou depois que o país não pode ser penalizado para que Centeno «possa brilhar» em Bruxelas. Os socialistas desdramatizam e protegem um dos pilares do governo.

«O senhor ministro é uma força de bloqueio a despesas absolutamente necessárias e que ficam fechadas na gaveta (...) Isso não é compreensível quando se apresenta um défice que fica mil milhões aquém daquilo que tinha sido planeado no orçamento», disparou Mariana Mortágua, na audição de Mário Centeno, na terça-feira, na  comissão parlamentar do orçamento. Mortágua não deixou de referir a «enorme vontade do senhor ministro de ter uma boa reputação» em Bruxelas. «Não é apenas a boa reputação em Bruxelas que conta, mas também um governo que é capaz de satisfazer as necessidades da despesa aqui».

Centeno garantiu, na resposta ao Bloco, que «esta política de rigor não se faz por Bruxelas, faz-se pelos portugueses e sempre a pensar nas gerações futuras». E acrescentou: «A senhora deputada chama-me força de bloqueio e quero transmitir-lhe que não é essa a função do Ministério das Finanças (...)Na verdade só podemos poupar em juros se criarmos uma reputação de cumpridores e de credibilidade que a política económica em Portugal, infelizmente, não tinha». 

A resposta não comoveu os bloquistas que dois dias depois voltaram a atacar o ministro das Finanças. Catarina Martins, em entrevista ao Público, afirmou  que «é preciso ter cuidado, porque nós não podemos deixar que, para que Mário Centeno possa brilhar, os serviços públicos fiquem às escuras.». A coordenadora do BE criticou o governo por «ir para lá das metas», porque isso «quer dizer que há investimento na saúde, na educação, território, segurança, que não é feito».

O excesso de protagonismo de Mário Centeno, que foi eleito presidente do Eurogrupo no final de 2017, não é bem visto por alguns setores de esquerda. Daniel Oliveira, por exemplo, ex-militante do Bloco e comentador, defendeu que «o governo está a ir muito além do que é exigido» para «Mário Centeno poder fazer um brilharete na União Europeia que é onde ele quer trabalhar».

Do lado do PCP, Jerónimo de Sousa já tinha criticado várias vezes a obsessão do governo pelo défice. No debate quinzenal com António Costa, nesta quinta-feira, o secretário-geral dos comunistas voltou a lamentar que o governo não tenha utilizado a folga orçamental para resolver alguns «problemas urgentes no país. Decidiu levar ainda mais longe a obsessão com a redução do défice em vez de resolver problemas graves nos serviços públicos».

Centeno é intocável e só merece elogios do PS

Os socialistas desdramatizam as críticas vindas dos partidos que apoiam o governo. «Mário Centeno é um pilar deste governo. É quase intocável», diz um dirigente socialista. A eurodeputada Ana Gomes também não alinha nas críticas e defende que «o rigor nas contas públicas ajuda a manter a credibilidade no país». O deputado André Pinotes Batista defende o ministro com a garantia de que «os sucessos da equipa das Finanças e de Mário Centeno em particular são brilhantes, porque nos permitem continuar nesta trajetória de recuperação. Ninguém quer voltar para trás». Ricardo Leão, que pertence à comissão do orçamento, garante que o PS tem consciência de que  «ainda existe muito por fazer no aumento do investimento público nas áreas da Saúde e Educação». O deputado socialista não deixa, porém, de valorizar o  facto de o governo ter conseguido  atingir «o défice mais baixo de toda democracia portuguesa». 

BE quer fazer ‘o que o PS não fez’ na próxima legislatura 

O Bloco de Esquerda quer ser, a seguir às eleições legislativas, em 2019, «o eixo de uma proposta de governação à esquerda». Essa é uma das metas definidas num documento com as ideias-força para a construção da moção de Catarina Martins à XI Convenção do Bloco de Esquerda. «Essa proposta fará o que o PS não fez, partindo do ponto onde o PS trava: em primeiro lugar, a abertura de um processo de alteração dos tratados europeus para uma redefinição da política do euro e da dívida; em segundo lugar, novos patamares de recuperação do país, na saúde e escola públicas, na dignidade do trabalho, no combate ao rentismo e na recuperação da propriedade de bens estratégicos na economia e no ambiente». 

O documento define que o Bloco vai às eleições europeias em listas próprias e «apresenta-se ao ciclo eleitoral de 2019 em torno do seu próprio programa de governo e para disputar a representação da maioria».  A intenção do partido de Catarina Martins é apresentar-se nas legislativas com um programa que contemple «uma nova política de rendimentos, baseada em direitos do trabalho e na valorização de salários e pensões, o combate ao racismo, às desigualdades de género e a todas as formas de exclusão, uma revolução fiscal para uma economia mais justa e o financiamento de um Estado Social mais capaz». O Bloco reafirma ainda a necessidade de avançar com a reestruturação da dívida pública.
Os bloquistas fazem ainda uma avaliação dos últimos anos. Em relação aos acordos que permitiram viabilizar o governo liderado por António Costa, os bloquistas entendem que «interromperam a revanche contra o 25 de Abril e permitiram recuperar condições de vida e de mobilização». O documento destaca a «reposição de feriados, aumento do salário mínimo, eliminação de cortes e reposição das 35 horas e regularização de precários na função pública».

Sobre o mandato do Presidente da República, o Bloco afirma que Marcelo «a sua intervenção permanente dirige-se a limitar o Partido Socialista nas relações com os partidos à sua esquerda, o que tem merecido fortes elogios das confederações patronais». A moção da líder bloquistas alerta ainda que «agora, parte da direita, com Rui Rio à cabeça, quer assumir um eventual papel de muleta de um governo PS pós-2019, sob o objetivo principal de recuperar o centrão, e assim afastar a influência do Bloco do PCP».