Economia

Algarve. “Se fossem os turistas a votar, tínhamos tudo aqui”

Empresários criticam falta de investimentos nas infraestruturas e serviços do sul do país e falam em perdas significativas no turismo

Nos últimos anos, as obras na Estrada Nacional 125 (EN 125) atrapalharam a vida de quem escolheu rumar até ao sul do país. Os constrangimentos no tráfego e a falta de alternativas levaram os empresários e os utilizadores a pedir a suspensão da cobrança de portagens na A22/Via do Infante até que as obras estivessem concluídas. No entanto, a situação naquela que foi considerada pelo governo a estrada mais mortífera do país continua a dar que falar. Para os empresários, um dos efeitos mais imediatos tem sido a perda de turistas.

Ao i, Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), explica que “a 125 está em obras há nove anos e há zonas para as quais não existe calendarização. Todos dizem que o Algarve tem de ter bons serviços, mas há desinvestimento e ainda aumentaram as portagens.”

De acordo com a AHETA, ainda que não existam para já dados concretos para apresentar, “há mais acidentes e vítimas e o número de turistas espanhóis tem vindo a baixar. Claro que tudo vai piorando porque nem sequer há alternativa. Se os turistas votassem, teríamos tudo aqui. Mas não votam e o Algarve tem poucos eleitores”.

A verdade é que, no entender dos empresários da região, não tem sido feito nada “no sentido de aguentar a procura. Anunciamos que o Algarve é muito procurado, mas não asseguramos a qualidade de serviços necessária para que isso continue a acontecer”.

Apesar de muitos continuarem a procurar o sul do país, Elidérico Viegas diz que “há cada vez mais serviços a funcionar pior. Vai dos serviços de segurança ao hospital central. Nós temos políticos que são algarvios e que conhecem bem estas realidades, mas têm complexos ou então esquecem-se. Além disso, haverá sempre o problema de não haver força política”.

Polémica das portagens A questão das portagens da Via do Infante é uma das que mais se têm levantado, até porque as obras de requalificação começaram a atrasar desde cedo. A requalificação da EN 125 foi adjudicada em 2009 ao consórcio Rotas do Algarve Litoral. A ideia era fazer um conjunto alargado de intervenções para acabar com o estacionamento nas bermas da estrada e facilitar o escoamento do trânsito, num projeto que implicava a criação de cerca de 60 rotundas e a construção de variantes em Lagos e Faro. Mas o projeto foi sendo adiado ao longo dos anos e só arrancou definitivamente em 2015, numa versão mais curta e muito mais barata. Entretanto, já a circulação automóvel na EN 125 tinha aumentado muito como consequência da introdução de portagens na Via do Infante, em dezembro de 2011.

Turismo exige mais 

Um dos argumentos usados para reivindicar mais investimento no Algarve tem a ver com o turismo. De acordo com os dados avançados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2017, o sul do país conseguiu bater todos os recordes anuais de dormidas, hóspedes, passageiros e proveitos. “Todos os destinos nacionais atraíram aos estabelecimentos de alojamento turístico mais hóspedes ao longo de 2017, num total nacional de 20,6 milhões de hóspedes, a que corresponde um aumento anual de 8,9%”, explica o INE. Neste indicador, a quota de mercado do Algarve é de 20%.

No entender de Elidérico Viegas, estes números deviam servir para dar força aos investimentos no sul do país: “Com a importância do turismo nas exportações, não se entende que nada se faça para aguentar a procura no Algarve.”