Internacional

Pérez Esquivel. “Lula é um lutador social que está na prisão”

Nobel da Paz de 1980 lançou uma petição para candidatar Lula ao Nobel que já tem 100 mil subscritores

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Prémio Nobel da Paz em 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel continua a ser uma referência nas lutas sociais em toda a América Latina. Entre outras coisas, é atualmente o presidente da Liga Internacional pelos Direitos e a Libertação dos Povos, jurado do prémio internacional de Direitos Humanos de Nuremberga e do prémio Félix Houphouët-Boigny da UNESCO. Agora resolveu lançar a iniciativa de candidatar o ex-presidente brasileiro ao Nobel da Paz. Para isso pôs a correr na internet, no site change.org, uma petição de modo a reunir assinaturas de apoio ao seu projeto – que em três dias já tinha reunido, ontem ao fecho desta edição, mais de 103 mil assinaturas. O esboço da carta que será apresentada ao Comité Nobel em setembro está disponível na petição e fala de Lula da Silva como alguém que “através do seu compromisso social, sindical e político desenvolveu políticas públicas para superar a fome e a pobreza do seu país, um dos de maior desigualdade estrutural no mundo”. Para Pérez Esquivel, “a paz não é só a ausência da guerra, nem evitar a morte de uma ou mais pessoas, a paz também é dotar de esperança o futuro dos povos, em especial os setores mais vulneráveis”. Ao i aceitou falar brevemente por telefone, a partir de Buenos Aires.

Porque decidiu fazer uma petição na internet para candidatar Lula ao prémio Nobel da Paz (hashtag #NobelparaLula)?

Por muitas coisas. Lula é um lutador social. No seu governo, com as suas políticas públicas e sociais, mais de 30 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema. Dignificou a vida do povo, deu-lhe saúde, educação e uma vida mais digna. E, isso, mais ninguém fez. Está reconhecido pelas Nações Unidas, pela Organização de Estados Americanos, que Lula implementou um programa a que ele chamava “fome zero”. Todas as políticas sociais que Lula fez a favor do povo, creio que essa é uma das causas pelas quais o querem impedir que seja de novo presidente do Brasil. A extrema-direita quer retirá-lo do cenário político. As acusações que lhe fazem não são reais, são infundadas, são resultado de manipulação política.

Colocou a petição na internet com o objetivo de conseguir 150 mil assinaturas e já superou mais de 100 mil, o que pensa disso?

De agora até setembro, que é quando irei propor oficialmente ao Comité Nobel, podemos conseguir muitíssimas mais assinaturas. Se em três dias já há 100 mil subscritores, até setembro haverá mais de um milhão.

Acredita que esta petição e a candidatura ao Nobel poderão ajudá-lo a sair da prisão?

Vamos ver. Parece que o tribunal vai rever a sua atuação. Parece-me que se reúnem na quarta-feira [amanhã] para ver qual será o caminho a seguir pela justiça. Porque, na verdade, não existem provas para acusar Lula de corrupção. Tal como também não houve contra Dilma Rousseff e, no entanto, destituíram-na da presidência.

Acha que o Comité Nobel pode estar recetivo a aceitar a candidatura de um político que foi condenado por corrupção?

Esperemos que sim, porque é um inocente que neste momento está na prisão. Assim como esteve Martin Luther King, como estivemos nós [durante a ditadura militar argentina que esteve no poder de 1976 a 1983], como esteve Mahatma Gandhi. São situações de violência institucional.

O que pensa da iniciativa de enviar cartas para a cadeia onde Lula está detido para transformar o cárcere num correio do ex-presidente do Brasil?

Parece-me bem, é também uma forma de pressão. Mas acho que se deveriam enviar cartas também aos juízes. Porque as cartas para a prisão ficam aí e não chegam a mais nenhum lado. Seria bom que o tribunal que o julgou e aprovou a crueldade cometida pelo juiz Sérgio Moro também receba cartas, para que os juízes percebam a injustiça que estão a cometer. 

Perante a situação atual no Brasil, com a frustração dos apoiantes de Lula em relação ao processo judicial, que consideram injusto, acha que poderá haver uma reação violenta no Brasil?

Espero que não. O povo brasileiro, até agora, tem agido dentro da lei. Não podemos esquecer-nos que o governo enviou o exército para o Rio de Janeiro e há mortos, feridos e presos, sobretudo nas favelas. Estamos perante uma política repressiva e há ameaças dos militares para que Lula não volte ao governo. Estamos perante atos de censura e um golpe de Estado mediático também. Neste momento, Lula é um preso político.