Internacional

Eleições no Brasil. Como fica a campanha presidencial sem Lula

O PT insiste que vai registar a candidatura do ex-presidente a 15 de agosto, mas é cada vez mais improvável que Lula venha mesmo a disputar a eleição. Ciro Gomes e Marina Silva surgem como os principais captadores do voto lulista

“Lula continua sendo nosso candidato à Presidência da República e sua candidatura será registrada no dia 15 de agosto, conforme a legislação eleitoral”, afirmou a comissão executiva do Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro em comunicado na noite de segunda-feira, madrugada de ontem em Lisboa. O partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, detido numa cela da sede da Polícia Federal de Curitiba para cumprir uma pena de 12 anos e um mês por corrupção e lavagem de dinheiro, continua a defender que “a prisão é inconstitucional”, que foi uma “condenação sem provas por juízes parciais” e que se trata de “um desdobramento do grande golpe contra a democracia que começou com o impeachment sem crime da presidenta Dilma Rousseff”. Daí que pretenda manter Lula como candidato presidencial, ele que continua líder destacado nas intenções de voto para as eleições de outubro.

A cerca de seis meses das eleições e com quatro meses até à apresentação oficial das candidaturas, o cenário de um sufrágio com Lula parece cada vez menos provável, apesar de o PT aparentemente continuar sem plano B - até porque nenhuma figura do partido é capaz de manter as intenções de voto do ex-chefe de Estado, numa altura em que a imagem só do PT não é das melhores junto do eleitorado, embora continue a ser, de longe, o partido que mais votos atrai à esquerda.

Ao invés de ser um ato de desespero para um partido sem figura que substitua Lula na corrida, há quem veja na insistência na candidatura do ex-presidente uma fórmula pensada para conseguir a maior transferência de votos possível para o novo candidato que o partido apresentará quando já não puder mais. É um risco, mas seria um risco calculado. A intenção da cúpula do PT é aproveitar o máximo possível dos 35% de intenções de voto com que Lula tem surgido nas sondagens.

As primeiras sondagens sem Lula mostram que os principais beneficiados no novo cenário são Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva, que recebem cerca de 15% dos votos cada um, mas para onde irão os outros 70%, que agora estão entre os brancos, nulos e indecisos? A perspetiva é de Rubens Figueiredo, diretor-geral da empresa de sondagens Cepac, em declarações à Reuters Brasil.

No último discurso antes de se entregar às autoridades, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Lula insistiu em falar de dois jovens pré-candidatos presidenciais, Manuela d’Ávila, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e Guilherme Boulos, do PSOL, o mesmo partido de esquerda de Marielle Franco, a vereadora do Rio de Janeiro assassinada a 14 de março. Boulos também é líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto.

Datafolha retira nome de Lula Se o PT continua a insistir em Lula como candidato, uma das mais importantes empresas de sondagens brasileiras, o Instituto Datafolha, do mesmo grupo do “Folha de São Paulo” e do portal UOL, decidiu retirar o nome do ex-presidente das suas sondagens. A primeira pesquisa de opinião sem o candidato do PT será divulgada no domingo.

Aparentemente, ao invés de empalidecer o brilho de Lula, a sua prisão e a forma apressada como o mandado foi emitido parecem ter reforçado a sua imagem junto de parte da população. Escreve a colunista de “O Tempo”, Raquel Faria, que, segundo uma sondagem telefónica de monitorização (denominada trekkin), “a prisão de Lula fez bem à imagem do ex-presidente”, cujo apoio “explodiu”.

Sendo Lula retirado da corrida, o campo da esquerda fica mais aberto para candidatos como Ciro Gomes e Marina Silva, embora o ex-juiz do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, pré-candidato do PSB, seja agora alguém a considerar por esse eleitorado.

Para Carlos Siqueira, líder do PSB, “não dá para dizer quem mais ganha com a prisão do Lula. De facto, o Joaquim tem um perfil parecido com o do Lula, mas não nos podemos precipitar com previsões”, afirmou. “Com a indisposição que há do eleitorado com a classe política tradicional, acho que ele tem um espaço grande, com potencial bastante alto de ter uma boa votação”, acrescentou, citado pelo “Correio Braziliense”.

Outro que poderá beneficiar da transferência de votos de Lula é Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo que é do PT. Haddad lá esteve no Sindicato dos Metalúrgicos e foi um dos que Lula fez questão de apresentar à multidão presente para o ouvir. O partido estuda a possibilidade de o colocar como candidato a vice-presidente com Lula, para depois poder ser mais fácil manter os votos.

Pré-candidatos

Ciro Gomes, vice-presidente do PDT

Caetano Veloso já deixou nas redes sociais uma mensagem de apoio ao pré-candidato do PDT à presidência: “Respiro fundo, espero o tempo andar, presto atenção em [Guilherme] Boulos, na adorável Manuela [d’Ávila], no anúncio da divina Marina e na chegada de Joaquim Barbosa. Assim vou me preparando para, com mais firmeza, votar em Ciro Gomes, como uma homenagem a Lula, ao FHC [ex-presidente Fernando Henrique Cardoso] do real, aos esforços para engrandecer o Brasil.” Não parece certo que haja uma transferência direta de parte substancial do eleitorado de Lula para Ciro - há quem não lhe perdoe não ter estado no Sindicato dos Metalúrgicos no último discurso do ex-presidente antes da prisão.

Marina Silva, Rede Sustentabilidade

Já apresentou a sua pré-candidatura à presidência duas vezes, sem que lhe prestassem muita atenção. A primeira foi no princípio de dezembro, a segunda no dia em que Lula foi preso, que aproveitou para dizer que era “um dia difícil” porque um ex--presidente da República “está próximo a ter que cumprir a pena pela condenação dos crimes que praticou”. Uma afirmação que não lhe granjeará muitos fãs entre os eleitores de Lula, de quem foi ministra do Meio Ambiente, antes de cortar com o PT e se lançar na política por sua conta. Ficou em terceiro lugar nas últimas duas eleições presidenciais, com uma subida de mais de três milhões de votos entre uma e outra: mais de 19 milhões em 2010 e mais de 22 milhões em 2014.

Joaquim Barbosa, ex-juiz do Supremo (PSB)

Parece ser a única candidatura com peso proveniente de fora dos partidos, algo que pode jogar a seu favor, tendo em conta a má imagem que os mesmos têm hoje junto do eleitorado. Além disso, o ex-juiz do Supremo Tribunal Federal, que se filiou no PSB para poder avançar com a candidatura presidencial, tem a vantagem de há muito manter um discurso contra a corrupção. O homem que a “Time” incluiu em 2013 entre os mais influentes do mundo tem um percurso que o trouxe da pobreza (fez limpeza, trabalhou numa gráfica) até à mais alta instância do poder judicial brasileiro, onde esteve de 2003 a 2014 (escolhido pelo então presidente Lula da Silva), tendo sido presidente do STF entre 2012 e 2014.

Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo (PT)

O ex-prefeito de São Paulo é o coordenador do programa de governo do PT para as eleições de 2018. Estava no palanque em que Lula discursou antes de ir para a prisão e foi um dos que o ex-presidente apresentou. Será ele, provavelmente, o plano B do partido para as eleições, primeiro apresentando-se como candidato a vice e depois assumindo como pretendente à presidência se, a 15 de agosto, a candidatura de Lula não for aprovada pelo Tribunal Superior Eleitoral. O ex-chefe de Estado deixou instruções a Haddad para dialogar com outras formações políticas sobre as presidenciais e, segundo o “Folha de São Paulo”, teria sido ele a dizer a Haddad para se preparar para assumir o seu lugar.