Cultura

Manuel Resende. A razão dos ritmos antigos

O tradutor responsável pela visão de campo que temos da extraordinária poesia grega moderna, publicou três livros com a máxima discrição. Agora que foram reunidos, esta poesia prova ser um triunfo entre as lições tomadas dos clássicos e a juventude vivida na carne e no transbordo dos sentidos.


Do que há a ter em conta ao nível das comoventes patifarias em que assentam as mais barrigudas reputações líricas, muito ficou nesse nó truculento que Jorge de Sena deu quando os brasileiros se lembraram de lhe pedir, em 1966, a sua contribuição para uma antologia com o sugestivo título “Cartas aos jovens poetas brasileiros”. A coisa nunca chegou a sair – e sempre teria sido curioso ler a carta de Sena no contraste assassino em que se demarcava dos demais – mas, ainda assim, o preciosíssimo testemunho salvou-se, sendo publicado década e meia mais tarde, no JL.

Saltando logo por cima da circunstância (com as suas candentes e doces intenções) a que queriam amarrá-lo, Sena carreia o texto para onde mais lhe interessa, e oferece o mais preciso retrato da vida literária, cuspindo de rajada balas suficientes para deitar por terra qualquer convicção de que há ainda margem para alguém entrar por ali “forçando as portas”. Denunciando esse meio como “uma maçonaria como qualquer outra”, diz o que há a dizer a aspirantes, afoga uma a uma as ilusões que tenham de impor-se digna e inteiramente “com um livro, dois livros, uma crítica, duas, muitas, dirigidas contra a infecta pesporrência dos estabelecidos; pedir justiça, em vez de amabilidade; exigir inteligência, em lugar de um comércio de retribuições; procurar a camaradagem limpa, e não aceitar os gestos dúbios; enfim, tudo o que diz respeito à dignidade humana e da poesia, em vez da complacência com tudo e todos”.

E isto vem ao caso...? Vem, se o caso for o de Manuel Resende, cuja reunião dos três livros que publicou – com hiatos bestiais de permeio (1983, 1998 e 2004) – mais uns inéditos e dispersos, nos obriga a reapreciar a obra dando conta do sustento saboroso das suas proporções, da admirável alacridade que não disfarça a pestilência da época, e da satisfação que trazem versos com os ritmos estudados pela História: “Dentro do próprio cansaço, a pouco e pouco me vão latejando epopeias, me sobram do coração,/ Fisicamente, com doce dor de alegria e o medo de ser verdade,/ Bichos/ Que espreitam da noite uma clareira onde deitar a sua longa errância./ E cada um vai ocupando o seu lugar.”

Diante desta canção envelhecida em barricas generosas, da demarcação que traça face à sensaboria que se produz noutras caves, por mais jactantes carreiras, a surpresa é tanto maior diante de um poeta que nos poupa às típicas alergias da estação lírica, como vamos espirrando o ouro em pó que usam para adoçar a insipidez de versos que nem disfarçam a urgência nenhuma do que nos vêm dizer. Em tantos versos de Resende há como um golpe seco, o de um maduríssimo fruto que ao cair se sente próximo como se rachasse a terra. Sem trair a mais urgente entoação da poesia que não deixa de indignar-se, e não pode com tanta ironia, sabe deter-se como poucos, indo da cozinha a Sarajevo Srebrenica ou aos “Bombardeamentos de Dubrovnik”, de uma esquina numa retrete a “Tsintsum e Auschwitz”. Não se pense que há aqui aquele heroísmo tantã, ponte para esses refrões que parecem afectações dos brônquios, a língua das revoluções algo broncas. Testemunho de um século monstruoso cujos ecos têm já este pela garganta, mas com muito balanço, porque aqui “a ferida é mais funda e mais antiga,/ Escondida no Mediterrâneo ou no mar Cáspio, ou no Reno ou nas bombas de gasolina do Alabama, enorme e europeia,/ Percorreu todos os cantos da terra, em tudo cuspindo o seu vírus, e já é maior que nós. Como podemos com tanto mundo?”

E voltando lá atrás, e ao que disse Sena, percebe-se claramente o que faz esta terra a poetas como Resende, como Fernando Lemos, Rui Diniz, Carlos Poças Falcão, Paulo Teixeira e outros casos tão ou mais inquietantes, poetas a que não faltou a graça nem o ímpeto para forçar as portas, e parecem subtraídos por lonjuras que tantas vezes nada mais são que desinteresse. Não se pode deixar de sacrificar alguma coisa ao esquecimento, mas dá para desconfiar hoje que este tem recolhido a mais fina antologia da poesia portuguesa contemporânea, ao passo que nós nos temos de contentar com os inesquecíveis chatos, esses exemplos da nossa mais ordinária propensão lírica, cientistas na hora de enriquecer o verso de efeitos soporíferos.

São precisos exemplos? Basta ir à tômbola da academia, tirar um número entre a linhagem que vai de um Nuno Júdice a uma Tatiana Faia, passando por Luís Quintais. Tudo gente com quem se pode contar se o sono se estiver a fazer difícil e quisermos variar a dieta, deixando os carneiros por versos, puxando esse irmão retardado do pasmo que é o bocejo.

Da estreia com “Natureza Morta com Desodorizante” (1983) ao segundo “Em Qualquer Lugar” (1998) e, por fim, “O Mundo Clamoroso, Ainda” (2004), Manuel Resende parecia haver relegado para um plano secundário, e até destratado, o que há de sua safra quando comparado com a soberba perspectiva que nos deu dos nomes cimeiros da poesia grega moderna. E aqui há um paralelo que bem merece ser relevado com outro colosso discreto das nossas letras: José Bento. Aos 85 anos, tem uma obra poética em nome próprio e que, de tão vigiada, não toscaneja na sombra do monumental legado (uma biblioteca em si mesmo) que foi ficando da sua acção de missionário mandando cartas, fazendo mapas e trazendo ouro das suas expedições por todo o mundo hispânico. 

Resende cruza na sua poesia um ror de sombras e registos. Se não nos tem faltado os que da antiguidade exibem as velhas insígnias, neste poeta é o ouvido que prova estar apto a jogar linha entre as manias das vagas, sem trair o vigor desse “roxo mar que Ulisses navegou”, mas também não caindo na praia com a prepotência de um exército. Entre poemas bem longos que, com o passar dos anos, se foram abreviando, o ar sempre vibra, contagiado por esse trabalho “em renda fina”. E cabem num mesmo poema os versos ciciantes, o estalar dos dedos de mãos com raízes antigas, enquanto noutros, e mesmo quando o poeta fala de ruína, e do quanto se perdeu, damos por ousadias que vão além da homenagem àqueles “aristocratas debruando os nossos campos/ aqueles versos compridíssimos de ritmo e cor”.

Nunca menos que jovial, e no primeiro livro até o apanhamos whitmaniamente na rua, com Álvaro de Campos dando mais vida aos cartazes, hasteando a revolução que muito cedo já a pouco sabia, mas houve ao menos a ilusão que lhe deu para proclamar: “Eu é um pseudónimo de nós/ E nós o pseudónimo disto tudo./Subamos proletários a nossa ascensão até ao brilho ofuscante,/ Se conseguirmos manter esta erecção da cabeça”. E se isto são versos cuspindo as pétalas do cravo, ainda viram o milagre das ruas que vivem “como bichos nascendo do mármore,/ como pedra que de repente é músculos”, o que dá para honrar essa embriaguez que muitos de nós nunca chegaremos a gozar, a de termos sidos todos, ao mesmo tempo, rapazes, respondendo a um impulso tão espontâneo e vital: “Corramos de corpo em riste a entornar-nos de sol pela cabeça abaixo”.

Deve haver um valente reverso, um fulgor incontido, há alturas verdadeiramente altas e que vêm ainda saber com quantos contam, e tomam nota dos que maldizem por desfastio, reses, rendidos ao cinismo, e aqueles que ainda param a escutar se “se estendem as sedentas línguas verdes”. E no verso disso, mais recolhido, está o apuro cirúrgico hoje mais apreciado, que liga o intelecto aos nervos, esse “figo do avesso/ útero esventrado onde se eriça verde/ a carne da montanha que desliza e cai/ em milhares de focinhos com sede de água”. Resende é um poeta capaz de infundir na menor experiência o gosto de uma delicada cerimónia, tece a tal renda finíssima, mas enfebrecendo os detalhes. Os seus poemas nunca estão muito longe da força de cânticos, a sua igreja fica a céu aberto, vadiando, dançando de roda de um deus mais velho.

Esta edição que recebemos com verdadeiro júbilo merece, no entanto, um reparo. O preço de capa do livro – 25 paus – é uma maldade. É o tipo de licença que se dá uma editora que, por não ter sucumbido com o seu grande responsável (André Jorge), desde o seu desaparecimento parece estar a impor-nos uma taxa pelos seus muitos méritos, como se nos cobrasse a saudade (ou a griff). Com isto, é o músculo que noutros tempos flectiu que agora parece desfazer-se. E um livro como este, que teria sido uma belíssima ilusão e lembrança de como as coisas eram, do melhor que a Cotovia nos deu, torna-se proibitivo. E é com pena que muitos dos leitores que gostariam de descobrir agora este poeta, terão de esperar que se desembaracem dele aqueles que vêem na poesia menos que um bem essencial, um mero luxo.