BE e PS, uma relação atribulada

Esta semana viveu-se a terceira grande crise. Até às eleições haverá mais, sem nunca pôr em causa a estabilidade governativa.

«O Governo falha compromissos com o país para cumprir compromissos que nem sequer foram pedidos por Bruxelas». A frase foi dita por Catarina Martins e serve como uma luva para o momento de tensão gerado pelo Programa de Estabilidade para 2018. Mas não foi dita esta semana. É de um debate quinzenal de janeiro. E prova como a crise desta semana é só mais um episódio de uma relação atribulada.

O momento mais tenso entre BE e Governo aconteceu há precisamente dois anos por causa da banca, depois de se saber que António Costa estaria a estudar a criação de um ‘banco mau’ para resolver o crédito malparado. 

«O BE não quer outra escorregadela como a do Banif, em que o Banco de Portugal fez o que entendeu, o Santander ganhou o que queria ganhar e o seu Governo ficou sem a maioria parlamentar», lançou então Catarina Martins a Costa, numa alusão ao momento em que foi à direita que o PS foi buscar os votos para viabilizar a solução encontrada para o Banif. O tom usado pela coordenadora do BE irritou os socialistas, mas a relação não saiu beliscada. 

Um ano e meio depois, o recuo do PS que levou ao chumbo de uma taxa sobre as energias renováveis voltou a justificar uma escalada de críticas no BE. Na altura, Mariana Mortágua acusou o PS  de «deslealdade», considerando que o partido «não honrou a palavra dada». A dureza das palavras justificava-se com uma reviravolta de que os bloquistas não estavam à espera. Numa sexta-feira, os socialistas votaram a favor da taxa proposta pelo BE, na segunda-feira seguinte chumbaram-na ao lado da direita.

De resto, a ‘coligação’ à direita aconteceu sempre que BE e PCP apresentaram propostas para mexer no Código do Trabalho ou, como aconteceu esta semana, para alterar as regras das carreiras contributivas mais longas.

Em todos esses momentos, o PS teve a ajuda de PSD e CDS para inviabilizar as pretensões dos seus parceiros mais à esquerda. «De toda as vezes que houve momentos de grande tensão nesta legislatura foram sempre à esquerda», assume uma fonte bloquista, que acredita que essa tendência se irá agravar à medida que se aproximam as eleições e uma vez que estão esgotados os acordos firmados em 2015.

Esta semana, a escalada foi assumida com Mariana Mortágua, a avisar que «não há Governos de minoria absoluta»  – a propósito do Programa de Estabilidade -, e Pedro Filipe Soares a acusar Costa de «rasgar compromissos» na questão das carreiras contributivas mais longas.

O tom é duro e está em linha com a estratégia definida por Catarina Martins para as legislativas: «Essa proposta fará o que o PS não fez, partindo do ponto onde o PS trava: em primeiro lugar, a abertura de um processo de alteração dos tratados europeus para uma redefinição da política do euro e da dívida; em segundo lugar, novos patamares de recuperação do país, na saúde e escola públicas, na dignidade do trabalho, no combate ao rentismo e na recuperação da propriedade de bens estratégicos na economia e no ambiente», lê-se no documento que serve de base à moção que vai levar à XI Convenção do BE.

Apesar das negociações que deverão continuar até ao final da legislatura, o BE – como, aliás, também o PCP – não vai deixar de vincar o que separa as suas opções das políticas do Governo. Um desses momentos será, como avançou o SOL, a apresentação de uma proposta para levar a votos a Lei de Bases da Saúde escrita por António Arnaut e João Semedo. O BE não vai abdicar de esticar a corda, mesmo que não esteja no horizonte um chumbo ao Orçamento de 2019.

A ideia é mostrar que o PS não está tão à esquerda como podia e evitar que os eleitores acreditem que Costa faria o mesmo sozinho do que faz preso aos acordos com BE  e PCP.