Opiniao

Patos do regime

Costa logrou a proeza única de comprometer a Esquerda, primeiro, e a Direita, depois, com a sua solução de Governo e a sua governação

À quarta é sempre mais fácil do que à primeira... E olhe, Senhora Deputada, quase lhe garanto que em 2020 ainda vai ser mais fácil». António Costa dirigia-se a Heloísa Apolónia no último debate quinzenal na Assembleia da República, horas antes de selar com um aperto de mão os primeiros acordos com Rui Rio.

Perante a primeira frase, Pedro Nuno Santos, sentado à direita de Costa, fez um sorriso  descomprometido e com o seu quê de dúvida, mas quase soltou uma gargalhada quando o primeiro-ministro terminou a segunda.

É um facto, António Costa tem todas as razões e mais algumas para estar confiante nos resultados que as urnas ditarão em outubro de 2019, se tudo continuar assim.

Porque as contas públicas estão controladas e apresentam indicadores claramente positivos e que merecem elogios externos e porque António Costa tornou-se referencial de estabilidade da política interna portuguesa, com quem todos parecem estar interessados em fechar alianças de legislatura ou pactos de regime. À Esquerda, primeiro, e à Direita, depois. 

Já para não falar da coabitação cúmplice, quando não mesmo a roçar a promiscuidade, com o inquilino de Belém.
À ciumeira da Esquerda, do BE aos Verdes, com os anunciados acordos de regime com o PSD, Costa responde que não há razão para tanto, porque a solução governativa está bem e recomenda-se e é à Esquerda que vai manter-se.

Enquanto isso, depois do todo poderoso superministro e presidente do Eurogrupo Mário Centeno ter ditado que o programa de austeridade é para manter, certo que mais para consumo externo do que para interno, veio o número dois do Governo, Augusto Santos Silva, paladino agora da terceira via e da ala mais à direita do PS, defender o reposicionamento do PS ao centro, ultrapassando pela direita o PSD de Rui Rio.

João Galamba, porta voz do PS, bem pode dizer que a posição de Santos Silva é claramente minoritária no partido.
Pode ser, mas não é no Governo. Ou melhor, não é em quem decide. Que, por acaso, até é líder do PS.

Costa governa de mão dada com Esquerda e estende a outra à Direita. Mas a verdade é que faz o que muito bem entende, seguindo o caminho trilhado e negociado com Bruxelas.

O discurso nada tem a ver com a prática. Mas não interessa.

Ou melhor, interessa tanto como o conteúdo dos acordos firmados com o PSD sobre descentralização e fundos comunitários, que, lidos e espremidos, nada acrescentam às costumeiras banalidades das declarações de princípios.

Quais pactos de regime quais quê... como bem resumiu Carlos Carreiras, a montanha pariu um rato. Não adiantam nada.

Ou melhor, adiantam. Mas a António Costa. Enquanto garante de consensos e de equilíbrios democráticos alargados, que o colocam na confortável posição de árbitro e moderador, com margem para, a cada momento, tomar as opções que entender.

A Bloomberg comparou-o com Tony Blair e com a terceira via.

Nada disso. Nem Costa tens os dotes oratórios do antigo primeiro-ministro inglês, nem muito menos uma linha ideológica próxima da de António Guterres.

António Costa é, acima de tudo, pragmático. Tem cinco vias e segue pela via que for preciso e que lhe for mais favorável a cada momento. Nem que para isso ponha o número dois do Governo a dizer uma coisa e o porta voz do PS o seu contrário.

Porque Costa é assim mesmo (o dia do debate quinzenal e da assinatura dos acordos com Rio é disso exemplo paradigmático). E tem a sorte de estar nos lugares certos nos momentos certos – o que não deixa de pressupor arte, sobretudo quando a Oposição se lhe rende.

A chegar ao último ano da legislatura em que, sem o PS ter sido o partido mais votado, conseguiu uma solução de Governo que trouxe para o arco da governação, pela primeira vez na história da democracia portuguesa, o BE e o PCP, Costa consegue ter no horizonte tanto uma maioria absoluta como a possibilidade de entendimentos com todos os partidos com assento parlamentar – do PCP e BE, ao PSD e até ao CDS.

Isso é que é absolutamente extraordinário.