Opiniao

‘Nunca digas nunca’

Sempre que Centeno sonha em ser economista racional, Costa recorda que o ministro das Finanças se submete ao primeiro-ministro.

Gostei da frase de Centeno! Tão depressa afirmou que não haveria aumentos na Função Pública como se desdisse assim que Costa suavemente relembrou, de forma pública, que a economia se subordina à política. Sempre que Centeno sonha em ser economista racional, Costa recorda que o ministro das Finanças se submete ao primeiro-ministro. «Ainda não é tempo de discutir», Costa dixit. Centeno, com um sorriso amarelo, condescendeu.

Pudera! Há eleições em 2019, é preciso manter as grandes massas de eleitores felizes. «Devolvemos rendimentos a quem foi tão prejudicado nos tempos da troika» (leia-se, de Passos Coelho). Deram com uma e tiraram com a outra, digo eu. Menos IRS, mais impostos indiretos – e aí temos a carga fiscal mais alta de sempre. Mas o povo iludido gosta do sorriso de Costa! Centeno já devia saber que, em governos do PS, os ministros das Finanças subordinam-se sempre à política distributiva, mesmo que haja preocupação com a dívida pública. Pensar diferente é levar admoestações em público. Ponto final!

Mas se o Bloco e o PCP expressaram desagrado pela óbvia precipitação do iludido Centeno, a surpresa veio de Rui Rio. 
Entusiasmado com os duplos acordos sobre descentralização e fundos comunitários, sem perceber que está a ser usado por António Costa – que assim faz um aviso aos seus parceiros de esquerda que também pode contar com o PSD –, Rui Rio saiu-se com uma tirada socialmente justa ao sugerir para a Função Pública um aumento baseado nos índices de inflação. Aumento esse que quantificou em 300 milhões de euros, comparando-o (de forma populista) com a injeção de 3,9 mil milhões de euros na CGD. 

Rio ajudou Costa mais uma vez – e acredita que, no período eleitoral que se avizinha, poderá transformar em votos este apoio dado aos funcionários públicos. 

Mas, para mim, esta classe não muda o sentido de voto por uma tirada destas, quando anda tão satisfeita com Costa. Não troca o original pela cópia, por muita qualidade que esta possa ter mesmo a 3D. Oposição não é apoiar – e as diferenças têm de ser nítidas. Caso contrário, este centrão social-democrata torna-se cinzento, apesar do sorriso iluminante e genuíno de Costa, por ser monocórdico.

P.S. - Esta história das viagens dos deputados insulares mistura mais uma vez a lei e a ética. Por ser legal, não significa que seja ético. Salvou-se Paulino Ascensão (Bloco), que deu um exemplo de como um político tem de estar na política e na vida. Ao invés, Ferro Rodrigues, meu contemporâneo em Económicas, já esqueceu estes princípios. Pois acredito que o antigo dirigente do MES, que ele foi, desancaria sem piedade no presidente da Assembleia da República, que ele é.