Sociedade

Visto de fora. Uma revolução cavalheiresca e asseada

Na imprensa estrangeira, o golpe sui generis do país mais atrasado da Europa fez correr 
tinta. Para quem observou de fora, o 25 de Abril era o começo – mais do que necessário – de um caminho de incertezas

“Os portugueses sempre tiveram uma maneira muito sua de fazerem as coisas. Mesmo aquele sangrento espetáculo ibérico, a tourada, adquire em Portugal uma característica especial, cavalheiresca, pois o touro nunca é morto. Na semana passada, um grupo estreitamente coordenado de oficiais do exército aplicou essa tradição civilizada a um ato muitas vezes violento: um golpe militar.”

Começa assim um artigo sobre a Revolução de Abril publicado a 6 de maio de 1974 na revista norte-americana “Newsweek”. Durante semanas, a imprensa estrangeira acompanhou a mudança de regime em Portugal e muitos dos primeiros textos chamam a atenção para o lado invulgar do golpe militar que derrubou o “salazarismo caetanista”. Praticamente sem sangue derramado – vitimaria cinco civis e deixaria 40 feridos –, à partida desejado até pelos interesses económicos instalados e, no fundo, num primeiro momento muito pouco revolucionário. Também do outro lado do Atlântico, a revista “The New York Review of Books” falaria de uma revolução “asseada” ou “revolução liberal à moda antiga”, sugerindo que tudo estava em grande medida combinado.

“São precisos dois para fazer uma revolução sem sangue. Durante as últimas horas críticas do Estado corporativo português, Caetano e Spínola desempenharam o seu papel de forma magistral. Era perfeitamente possível haver uma oposição armada à conquista do poder. Tanto a polícia de segurança paramilitar como a Guarda Republicana poderiam resistir e tê-lo-iam feito se tal lhes fosse ordenado”, escreve o historiador Kenneth Maxwell, que viria a especializar-
-se em história ibérica e hoje é cronista do jornal “O Globo”. “Em 25 de abril, em vez de se retirar para o refúgio fortificado preparado pelo governo para tais emergências, Caetano dirigiu-se para o quartel da Guarda Republicana no centro de Lisboa [Quartel do Carmo]. Tratava-se do corpo da guarda que já fora comandado por Spínola. Nunca estivera em dúvida a sua lealdade ao poder. O quartel da Guarda Republicana era o sítio ideal para Caetano entregar o poder a Spínola, permitindo a ambos salvar as aparências.”

Um futuro para o país mais atrasado

Neste extenso artigo, um dos reunidos numa coletânea publicada pela Cadernos D. Quixote com as observações de repórteres e ensaístas estrangeiros sobre a Revolução dos Cravos, Kenneth Maxwell conta como estivera nas semanas anteriores em Portugal e ficara impressionado com o que viu. “Uma grande parte da província parecia ter sido visitada pela peste bubónica. Havia povoações inteiras moribundas, estradas desertas e campos abandonados. Vi nos muros, em ruínas de casas fechadas, escritos simples que denunciam a polícia e o elevado nível dos preços; em muitos cruzamentos encontravam-se guardas republicanos com carabinas e bicicletas – de pouca utilidade contra um exército, mas bastante eficientes contra velhas mulheres em vagarosos carros de bois”, descreve, para concluir que a política, a economia e a vida social portuguesas se tinham tornado “asfixiantes e irreais” – mesmo com aparentes bolhas de oxigénio, como os estrangeiros que invadiam o território “abandonado” pelos portugueses. Num cenário com algum paralelismo com o que o país vive 44 anos depois nesta matéria, Maxwell fala de de um milhão de turistas a entrar em Portugal em 1974. Sobretudo espanhóis e seguindo-se ingleses, franceses e alemães, mais os cerca de 10 mil “colonos” ingleses no Algarve, “velhos casais inofensivos”.

O atraso e a miséria que se viviam no país, aliados às perdas de 13 anos de guerra colonial, são apontados unanimemente como o pano de fundo da revolução. Dias depois do 25 de Abril e do fim da censura, não faltavam números para retratar aquele que era visto como o “país mais atrasado da Europa ocidental”, resume a “Newsweek”. A guerra em África tinha feito mais de 5 mil mortos e custado pelo menos 6 milhões de dólares. E todos os anos levava a que 100 mil jovens fugissem do país para evitarem ser “incorporados” no esforço militar.

“O nível de vida dos portugueses situa--se entre os mais baixos de toda a Europa; Portugal é o Estado europeu que possui o menor número de médicos por milhar de habitantes, a mortalidade infantil, entre 1967 e 1971, foi em média de 58 óbitos por 1000 nascimentos – em França é 15. Concede à educação nacional a parte mais débil do PNB (produto nacional bruto); 35% dos portugueses não sabem ler nem escrever”, elenca, por exemplo, um artigo publicado em maio no “Le Monde Diplomatique”.

Um cenário que em 44 anos mudou drasticamente, também na composição demográfica. O texto da publicação parisiense reforça que Portugal era então um dos países mais jovens da Europa – hoje é um dos mais envelhecidos. O resultado de uma corrente de “emigração maciça”, que desde 1961 tinha levado para fora 1,6 milhões de portugueses numa população de 8,8 milhões, era um território em declínio e o aumento da miséria. “Os campos esvaziam-se de homens, a população estagna, os projetos industriais são mal sucedidos”, continua o artigo do “Le Monde Diplomatique”, sublinhando ainda a “penúria de mão-de-obra” e o encarecimento da vida.

O dia em que tudo mudou

Os diferentes artigos publicados na imprensa estrangeira nos primeiros tempos após o 25 de Abril têm em comum o facto de não pessoalizarem o movimento militar, não sublinhando, por exemplo, figuras como Otelo Saraiva de Carvalho. Num longo testemunho publicado na revista espanhola “Triunfo”, um capitão pede mesmo que não publiquem o seu nome. “O nosso movimento não tem dirigentes, não os quisemos desde o princípio. Não fomos guiados por um espírito de ‘elite’ ou de grupo de eleitos. Funcionámos em equipa. Cada grupo de capitães estava encarregado de uma missão específica.” O destaque vai sobretudo para Spínola e, nos dias seguintes, para o regresso de Álvaro Cunhal do exílio em Paris e as expectativas de Mário Soares ou até de patrões como Champalimaud.

Ponto assente em diferentes artigos é o prenúncio deixado pela publicação, dois meses antes, do livro “Portugal e o Futuro”, pelo general António de Spínola, regressado de África e entretanto demitido por Marcello Caetano como rosto assumido de oposição. Um artigo publicado na “Time” a 6 de maio de 1974 diz que o livro foi como dinamite política e que a vontade de pôr fim ao envolvimento na guerra em África encontrou eco nos oficiais das Forças Armadas.

Seguiram-se os preparativos. “Proibidos por lei de participar em reuniões políticas, um número invulgar de portugueses – especialmente das Forças Armadas – aproveitaram o prematuro tempo primaveril de Lisboa para organizarem ‘piqueniques familiares’. Mas o verdadeiro objetivo destas surtidas estava menos relacionado com ‘sandes’ do que com subversão”, continua a revista norte-americana.

“Um documento fundamental circulou entre os conspiradores, o manifesto D.D. (de ‘democratização’ e ‘descolonização’). Ficou combinado que a senha do golpe seria transmitida pela rádio: às 10h55 da noite anterior à ação da Junta, um locutor anunciaria horas e transmitiria logo a seguir o disco ‘E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, a canção portuguesa concorrente ao último festival europeu da canção. Duas horas mais tarde, a emissora transmitiria uma canção folclórica contendo no texto as palavras ‘vila morena’.” O papel exato de Spínola nestes acontecimentos, considerava a revista com pelo menos dois repórteres em Lisboa, não era claro, “embora a vigilância regular da polícia secreta à sua casa, numa área residencial de Lisboa, o impedisse provavelmente de participar ativamente”.

O certo é que os planos foram cumpridos. “Como crianças após o seu primeiro copo de vinho, os portugueses estão ébrios. Uma semana após o golpe de Estado, Lisboa sacia-se de cortejos, de discursos, de canções. Os seus habitantes cobrem as estátuas, os corpetes, as lapelas e as metralhadoras dos soldados com flores vermelhas. Os antigos informadores da polícia são perseguidos como ratos (…) E por toda a parte se ouve a lengalenga ingénua e, ao mesmo tempo, ameaçadora, este slogan que crianças, civis e militares gritam em uníssono: ‘O povo, unido, jamais será vencido’”, escreve o jornalista André Pautard na “L’Express”, na primeira semana de maio, comparando a Revolução de Abril a um “Potemkine nas margens do Tejo”. Recuando aos acontecimentos de 25 de abril, fala do sinal, a canção “lancinante como um fado” “Grândola, Vila Morena”, e os movimentos militares em direção a Lisboa. “A multidão da capital ainda não sabe de tudo isto. Mas nos fortes de Caxias e de Peniche, os presos políticos estão ao corrente. Nas encomendas entregues de manhã havia cravos vermelhos, sinal combinado. A flor ficará como emblema, simultaneamente, do golpe de Estado e da libertação. Estes presos abandonarão rapidamente as cadeias, onde alguns definhavam desde 1947. Os antigos dirigentes da polícia política irão ocupar o seu lugar.”

A libertação dos presos políticos foi um dos gestos mais populares da Junta de Salvação, escreveu a “Time”. Enquanto aos primeiros dias já havia outros sinais de mudança. “Nos quiosques apareceram pela primeira vez jornais não submetidos a censura – e venderam rapidamente. A rádio difundiu um grande número de canções banidas pelo regime de Caetano”, lia-se na “Newsweek”, embora o “The New York Times” desse conta de alguma autocensura. “A imprensa coíbe-se geralmente de atacar o general Spínola, as Forças Armadas ou o governo. Até as revistas e os espetáculos burlescos, que satirizavam ainda que levemente o antigo regime, evitam fazer graça com o general Spínola ou qualquer dos atuais governantes”.

O futuro político parecia também incerto. “A questão fundamental que se levanta agora é se o povo e o movimento militar saberão cooperar com a democracia”, escreve o diário norte-americano a 16 de junho. Mas o passado ficara irremediavelmente para trás. “Lisboa, antes formosa e triste, é agora formosa e alegre. Antes, em cada esquina havia desconfiança, agora, em cada esquina há um abraço. Os aeroportos, as estações parecem feitos apenas para o regresso dos emigrantes, exilados. ‘O fim de 48 anos de lágrimas’ pintou-se num muro. Fala-se do ‘antigo regime’ mesmo só tendo passado cinco dias da queda do salazarismo caetanista”, retrataria a revista espanhola “Triunfo” no início de maio.