Causa-Efeito

A dissonância vista de fora

A Economist concorda que o tão anunciado ‘virar de página da austeridade’ foi um hábil facelift

A revista The Economist fez na sua edição da semana passada um resumo lúcido dos dois anos da ‘geringonça’ portuguesa. Esta publicação, tendencialmente liberal, é possivelmente a primeira publicação internacional a conseguir dissecar os aspetos de conjuntura internacional e de dinâmica política interna que possibilitaram tanto a formação do atual governo como os resultados que a economia portuguesa tem vindo a consolidar. O exemplo português é apenas mais um que demonstra que cada vez mais, no mundo global de hoje, a política económica responsável está cada vez menos ideológica, e que o sucesso político é fortemente predeterminado pela herança económica que se recebe.

Em rigor, a Economist vem agora sintetizar aquilo que começava a ser evidente há cerca de um ano atrás, que o tão anunciado ‘virar de página da austeridade’ não foi senão um hábil facelift para uma nomenclatura de ‘consolidação orçamental’; possibilitado por uma comunicação política mais tática (cínica?) e facilitado pelo crescimento económico assente em exportações e investimento privado. Ou seja, na substância a política económica pouco se alterou: a redução do défice continuou - de forma mais dissimulada - a ser o foco principal e os cortes nos salários dos funcionários foram substituídos por reduções drásticas nos recursos disponibilizados aos respetivos serviços. O artigo chega a quantificar que os cortes no investimento público executados pelo Governo de esquerda português chegaram a ser os mais agressivos de toda a União Europeia em 2016...

A conclusão segue de forma lógica: «O sucesso do governo de esquerda português advém do facto deste não se comportar como um governo de esquerda. Estando fixado no défice e dívida em vez de no investimento e serviços públicos. Um governo de centro-direita estaria a fazer praticamente o mesmo». Bastaria à Economist verificar o programa eleitoral do PàF para confirmar este mesmo ponto. Seguramente ficariam surpreendidos ao notar que até na reposição de cortes - sobretaxa e CES - a política económica para esta fase do ciclo seria em grosso modo idêntica dos dois lados da barricada. Quem conseguiu antecipar esta realidade há um ano atrás - agora óbvia até para observadores externos - teve a possibilidade de encaixar fortes ganhos nas obrigações soberanas nacionais, visto que nos prazos mais longos as valorizações atingiram uns fulgurantes 50% desde então.

Contudo é desapontante verificar que passados mais de nove meses desde o artigo sobre esta forma de ‘dissonância democrática’, o Governo português se mantenha apenas em modo de ‘não estragar’ o modelo que recebeu do antecessor, não procurando nesta fase de crescimento a ambição maior de prosseguir a dinâmica reformista. Parece que essa esperança terá de ficar forçosamente adiada para a próxima legislatura, altura em que o provável reeleito António Costa não enfrentará nova corrida eleitoral e terá do outro lado um Rui Rio aberto a pactos de regime. Posto isto, resta-nos esperar que a conjuntura económica continue afável e aguarde pacientemente por estes sempre egocêntricos timings políticos.

 

*Gestor de portfolio multi-ativo no BiG - Banco de Investimento Global