Opiniao

O amigo da onça

«Eu sempre fui muito vaidoso», disse o ex-primeiro-ministro, acrescentando a seguir esta frase extraordinária: «Foi por vaidade que fui para a política».

Houve duas afirmações nos interrogatórios da Operação Marquês que, surpreendentemente, foram pouco valorizadas.
Uma foi feita por José Sócrates, em resposta a uma pergunta sobre os seus faustosos gastos pessoais.

«Eu sempre fui muito vaidoso», disse o ex-primeiro-ministro, acrescentando a seguir esta frase extraordinária: «Foi por vaidade que fui para a política».

Julgo que foi o primeiro político no mundo a dizer isto.

Muitos outros irão para a política pelo mesmo motivo, mas não o reconhecem.  

Sócrates foi o primeiro a admitir que não foi para a política por vocação, nem para defender os seus ideais, nem para servir o país – foi para a política por vaidade.

É claro que esta confissão, que se louva, esbarra em muitas outras coisas que José Sócrates disse antes.
Por exemplo, na comovida declaração que fez quando anunciou a sua demissão de primeiro-ministro, em 2011.
Com o coração nas mãos, Sócrates afirmou que a sua única preocupação fora sempre servir o seu país e os portugueses.

Escondendo toda a vaidade, o ainda primeiro-ministro apresentou-se então como um humilde servidor da causa pública, sem outro objetivo que não fosse o bem de Portugal e dos seus cidadãos.

Outra afirmação que não foi suficientemente valorizada pertenceu a Carlos Santos Silva.

Interrogado sobre se era amigo de José Pinto de Sousa (nome de Sócrates no processo), Santos Silva disse que ele estava seguramente «entre os seus dez melhores amigos».

Repare-se: não eram três, nem cinco, eram dez.

E isto contradizia flagrantemente o depoimento de Sócrates, que apresentara Carlos Santos Silva quase como um irmão, que conhecia desde os dez anos e era o seu «maior amigo fora da política».

Classificando-o apenas como um dos seus 10 maiores amigos, Carlos Santos Silva afastou-o na prática do seu círculo íntimo.

Quem tem dez amigos íntimos, quase como irmãos? 
Eu não tenho…

Esta revelação involuntária mostra que as razões pelas quais Santos Silva financiava José Sócrates não tinham que ver com amizade. 

Se Santos Silva tivesse de dar aos outros nove amigos o mesmo que dava a Sócrates, estava liquidado! O que movia as relações entre os dois homens não eram razões afetivas – era o negócio.

Torna-se óbvio que Carlos Santos Silva ganhava muito dinheiro com os ‘favores’ que fazia a Sócrates.  Aliás, o modo como este falava com Santos Silva não era o modo como se fala com um amigo. Nem sequer com um empregado que se respeita. Era o modo como se fala com alguém que presta um serviço: mandava-o ir a toda a hora a casa dele levar «fotocópias» ou «aquela coisa de que gosto muito», e não mostrava qualquer estima nem afetividade. E Santos Silva comportava-se como um criado às suas ordens – que lhe respondia sempre que sim, quase a medo, como se repetisse: «Sim, meu senhor».

Sócrates também não falava com Santos Silva como se fala com alguém a quem se pede dinheiro emprestado.Quem pede dinheiro, está numa situação de inferioridade e dependência que aconselha humildade. E Sócrates era tudo menos humilde. Ora, juntando as duas coisas – não sendo o dinheiro ‘emprestado’ nem correspondendo à ajuda a um ‘amigo’ –, só pode suceder uma coisa: o dinheiro era efetivamente de Sócrates e Santos Silva não passava de um fiel depositário a quem aquele pagava o serviço. Por isso Sócrates não lhe pedia nada – dava-lhe ordens. 

Antes de ter dinheiro escondido na célebre conta 006 do BES, em nome de Santos Silva, José Sócrates escondeu-o na conta do primo João Paulo, conhecido como ‘o Gordo’. João Paulo estava em Angola, tinha uns negociozitos e, portanto, era um bom esconderijo. Dificilmente lá chegariam. Sucede que este ficou exposto no caso Freeport – pois foi quem serviu de intermediário para um pedido de dinheiro num quarto de hotel – e Sócrates teve de arranjar outro esconderijo. Aí lembrou-se do tal amigo – que, tendo também negócios, podia receber muito dinheiro nas suas contas sem levantar grandes suspeitas.

O modus faciendi utilizado por Carlos Santos Silva para canalizar depois o dinheiro para Sócrates já foi abundantemente explicado:

1. Comprou casas à mãe de Sócrates com o próprio dinheiro deste, e a seguir a mãe passou o valor da venda para as mãos do filho a título de doação;

2. Passava cheques dessa conta 006, que mandava levantar, e depois o valor era entregue a Sócrates (ou ao seu motorista) em dinheiro;

3. Fazia levantamentos dessa mesma conta e levava o dinheiro pessoalmente a casa de Sócrates;

4. Entregava-o a amigas de Sócrates que este indicava ou a uma senhora que serviu de correio entre Lisboa e Paris, quando o ex-primeiro-ministro estava na Science Po;

5. Comprou a casa de Paris, que ficou em seu nome, mas que Sócrates decorou e mais tarde passaria certamente para a sua posse; 

6. Pagava as prestações de uma quinta no Alentejo usada pela ex-mulher de Sócrates, Sofia Fava.
 Etc. etc.

Julgo que este caso, que foi exemplarmente investigado, já não oferece dúvidas a ninguém. Várias entidades com as quais Santos Silva não tinha quaisquer relações depositavam-lhe dinheiro no banco – e este arranjava depois maneira de canalizar esse dinheiro para o círculo de Sócrates (que gastava a um ritmo assustador de dezenas de milhares de euros por mês). Mas se, por absurdo, o juiz vier a achar que aquele dinheiro era mesmo de Santos Silva, então este está metido num grande sarilho, pois não tem modo de explicar aquelas quantias que recebia.

Como justificará os depósitos feitos em seu nome por Helder Bataglia ou pelo saco azul do Banco Espírito Santo? E onde estão as faturas dessas quantias que recebeu? Teria graça vermos Carlos Santos Silva atrás das grades e José Sócrates cá fora, a rir-se. Aí, o amigo servi-lo-ia até ao fim. Depois de lhe servir de testa-de-ferro, faria o favor de lhe servir de duplo para o substituir na prisão.  E nesta história Sócrates surgiria aos olhos de todos como o verdadeiro ‘amigo da onça’.