Cultura

Czeslaw Milosz. De que falamos quando falamos de totalitarismo?

Com a chegada de "A Mente Aprisionada", num comboio que demorou 65 anos, o leitor português fica perante um livro de classificação difícil, onde os “temas de sempre” se vergam pela mão virtuosa de Czeslaw Milosz (1911-2004). Temos diante de nós um livro que não dá o flanco, mas que tem essa particularidade rara de poder convencer mais pelos motivos errados do que pelos certos

 

Uma das escapatórias de viver neste século é a de podermos, sempre que quisermos, sorrir ao ver os letrados carregarem aos ombros preocupações nobres do século passado. É recorrente ver gente atrapalhada com o cartão do partido a sair do bolso enquanto recorda uma crise académica, bem como não é difícil encontrarmos um jovem mal disposto que, entre marteladas no cobre da sociedade do espetáculo, não se reconhece no reflexo que vai ganhando nitidez. Nesta lógica, os regimes totalitários do século XX são, por excelência, um desses temas que todos querem agarrar.

Chegar a Milosz e a tudo o que a sua biografia representa é chegar ao testemunho directo de todas as ideologias e guerras que moldaram a Europa como a conhecemos hoje. Assim, dizer que Milosz era “polaco” é um facilitismo redutor. Milosz era polaco no sentido em que muitos escritores e intelectuais seus conterrâneos também o foram: por uma partilha identitária de lutas, de uma cultura anterior a si, de paisagens, e por uma reafirmação já no exílio, quando podiam delegar a luta aos vindouros, do seu apoio amoroso ao “país” que os vira nascer. Em suma, este é um livro de alguém que nasce e amadurece em territórios que passam de mão em mão, num jogo de soberania malabarista que faz com que, em poucos meses, bestas passem a bestiais, ícones a inimigos e ruas de nome X a nome Y. É com esta realidade bem presente que este livro é escrito em Paris entre 1951 e 1952 e editado no ano seguinte.

“O tema em discussão é a vulnerabilidade da mente do século XX perante as doutrinas sociopolíticas e a sua predisposição para aceitar o terror do totalitarismo em nome de um futuro hipotético”, diz-nos Milosz na nota inicial. Mais adiante, explica que irá demorar-se naquela que foi e é (na altura) a realidade dos intelectuais polacos, húngaros e lituanos e como estes se comportaram nas mudanças tumultuosas que implicaram o regresso ao antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial e às ideias então em voga: nacionalismo patriótico, nazismo, comunismo. Em poucos anos, o cidadão da Europa Central é obrigado a rever a sua posição no Mundo várias vezes. 

Aqui, surge o primeiro filtro do livro. O leitor distraído que veio porque lhe disseram que iria encontrar “um clássico no estudo do totalitarismo” começa a ter a sensação que vai desiludir-se, mas pouco tempo depois, esperemos, percebe que acabou de entrar num jogo autoral inteligentíssimo.

O livro abre com uma imagem de “Insaciabilidade”, romance de 1932 de Stanislaw Ignacy Witkiewicz, que retrata uma atmosfera decadente que envolve uma sociedade inteira onde as pessoas são infelizes e não têm esperança alguma. No meio de uma guerra que se adivinha entre um exército Oriental e outro Ocidental, surgem, no território que seria a Polónia do futuro próximo, vendedores ambulantes a impingir pílulas Murti-Bing. Murti-Bing é um filósofo mongol que concentrou uma «filosofia de vida» em comprimidos. Quem toma as pílulas sente-se feliz e sereno, longe das dores metafísicas. Quando, finalmente, os exércitos estão frente-a-frente prestes a defrontar-se, o exército Ocidental rende-se, e o murti-binguismo reina no país.

Depois de uma paz postiça, os cidadãos da referida nação que tomam regularmente as suas pílulas acabam por ganhar, aos poucos, tiques estranhos, como escrever odes e ter introspecções longas sobre o mundo e sobre si próprios. Incómodos idênticos aos tempos anteriores à conquista. Milosz corta a trama e remete-nos para o final do livro de Witkiewicz: um sentimento latente conflitua com as drogas e todos acabam esquizofrénicos.

A segunda imagem a que Milosz recorre eloquentemente é ao “Ketman”, conceito que ele encontra em “Les religions et les philosophies dans l’Asie centrale “, de Gobineau. Este último traz o termo ao Ocidente depois de viver vários anos em Teerão como diplomata ao serviço de França e, tentando elucidar o que seria este conceito, afirma que para o Muçulmano de então “aquele que detém a verdade não deve expor-se a si, aos do seu sangue ou à sua reputação à cegueira à loucura à perversão daqueles que Deus escolheu fazer nascer e manter no erro» e que «há ocasiões onde em que o silêncio já não basta, porque poderá ser tomado por aval. Nessas situações não há que hesitar. Não só devemos negar o que verdadeiramente achamos, como é nossa obrigação recorrer a todo e a qualquer ardil de modo a que enganemos o adversário.”

Ketman Nacional, Ketman da Pureza Revolucionária, Ketman Estético, Ketman Profissional, Ketman Céptico, Ketman Metafísico e Ketman Ético são as várias secções criadas pelo autor para encaixar a intelligentsia das democracias populares de então, recorrendo sempre a pressupostos e crenças muito pessoais sustentados em factos económicos, sociológicos e históricos que nunca pesam na prosa, pois quem está a contar, assistiu. 

O que se segue é um golpe de misericórdia ao cepticismo do leitor desconfiado. Alfa, Beta, Gama e Delta são os capítulos que encontramos, e cada um corresponde à história de um escritor que Milosz não nomeia, mas para os quais oferece pistas para facilmente termos um rosto. É nesta secção que o livro se eleva. Tendo conhecido bem cada um dos retratados-arquétipos, o autor habilmente conta o que viu, o que ouviu e que transformações ocorreram em cada um deles (tendo alguns encontrado a morte, essa metamorfose derradeira) até à escrita d’A Mente Aprisionada. 

E quando podia julgar e sentenciar, pois já tem o leitor na mão, dá dois passos atrás, porque sabe o que é estar do outro lado e sabe que este é um livro que não esquece de onde vem: “Quem ler as declarações públicas dos quatro escritores discutidos nos anteriores capítulos dirá talvez que eles se venderam. Mas a verdade não é assim tão simples. Estes homens são, de forma mais ou menos consciente, vítimas de uma situação histórica. Saberem-no em nada os ajuda a romper as correntes; pelo contrário, tal consciência forja-as.”

Depois, segue-se um capítulo genérico e um último onde voltamos à problemática dos países Bálticos onde se reflecte sobre a tentativa soviética de eliminar os povos destes países por estes serem, na sua génese, anti-revolucionários, servindo todo o capítulo para fechar o livro numa meditação sobre que é o Horror e as suas variantes históricas: momentos datados e circunstanciais versus uma engrenagem onde um grande sistema logístico e burocrático trabalha no sentido da homogeneização. 

É interessante ler o texto de Tony Judt (que lecionou esta obra ao longo de trinta anos) no “The New York Review of Books”, onde ele refere a mudança que encontrou do outro lado da sala: se nos anos setenta a maior parte da aula era passada a explicar a uma turma de gente radicalizada o porquê de uma “mente aprisionada” não ser um bom mote de vida, em 2010 os jovens não concebiam que alguém se “vendesse” por uma ideia, ainda para mais de teor repressivo. Judt assinala que, se nos primeiros anos ele começava por explicar as causas que levaram à desilusão deixada pelo marxismo, na primeira década do século XXI tornou-se necessário explicar o porquê da ilusão em primeiro lugar. Já sem Judt entre nós há oito anos é evidente que, cada vez mais, aos professores vindouros, será cada vez mais difícil explicar o porquê das pessoas terem acreditado religiosamente no marxismo. Todo o ideal que não proponha satisfação imediata e com poucos ou nenhuns sacrifícios parece fútil e antiquado. 

Referimos no início que “A Mente Aprisionada” pode convencer pelos motivos errados não pelas suas falhas de construção ou análise, mas porque o leitor de hoje (bem como o jornalista que, por falta de espaço, tudo simplifica), está habituado a livros que escolhem lados, como se apontar o dedo aos maus da fita fosse o mais importante. Aqui não é e, ao longo do livro, Milosz escreve extensos capítulos em que, adoptando o ponto de vista do soviético crente na Nova Fé, demonstra, de forma clara,  que há uma lógica sólida na qual, para alcançar esse “futuro hipotético”, onde o homem não explora o próximo, há concessões a serem feitas pela elite cultural de cada nação do império. Dito de outra forma: se abrirmos o livro e lermos um excerto ao acaso, corremos o risco de ficar confusos e até nos perguntarmos, por que razão o autor se exilou e se tornou dissidente?

Escrito com a urgência de mostrar aos intelectuais e apoiantes marxistas de todo o mundo a fachada mais lamacenta do Partido, “A Mente Aprisionada” sobrevive à passagem do tempo, contrariamente a centenas de livros escritos sobre o mesmo assunto, porque transborda. Desconfiem de quem vos disser que este é somente um livro anti-estalinista e de quem comece a dissecar a construção intrincada dos vários capítulos que passam de erudição a relatos emotivos como num passo de magia. Este livro tanto olha para o rio violento como para a margem compressora do poema de Brecht.

Num mundo onde a complexificação das redes leva a uma maior segmentação e onde o Muro é a metáfora em voga, este livro sobrevive essencialmente por um aspecto: mostra da maneira digna e sem espaço para histeria que, infelizmente, não é difícil ser apanhado pela dança sedutora das Ideias e da História.