Opiniao

O homem que disse ‘não’ a José Sócrates

Afinal, o blairismo não teve reprodução programática mais fiel em Portugal do que o engenheiro. 

Dos vários atos de contrição proferidos esta semana por dirigentes do PS, há um silêncio com simbolismo político. Pedro Nuno Santos não disse uma única palavra sobre Sócrates, Manuel Pinho e respetivo escândalo. Pelo contrário, Pedro Nuno assinou um artigo no Público intitulado «A social-democracia para além da ‘terceira via’», podendo ler-se nas entrelinhas ‘O PS para além de José Sócrates’. 

Afinal, o blairismo não teve reprodução programática mais fiel em Portugal do que o engenheiro. 

Pedro Nuno, que não é engenheiro nem fã de Tony Blair, trata-se de o único homem – e eventual herdeiro de António Costa – com o capital político para simbolizar a catarse em curso, precisamente por não ter de fazer parte dela. De Santos Silva a Vieira da Silva, do primeiro-ministro ao presidente da Assembleia da República, de João Galamba a Carlos César, a «vergonha» é assumida porque a «vergonha» é justificada: beberam todos de uma fonte que era charco. Enquanto Sócrates governava – e recebia dinheiro ‘emprestado’ –, enquanto Pinho governava – e recebia dinheiro de um banco –, Pedro Nuno disse «não». Foi dos poucos a recusar o convite para integrar um Executivo de José Sócrates. O ex-líder da Juventude Socialista não se deslumbrou com aquele que tantos encantou e isso faz com que hoje não tenha de passar pelo embaraço público dos demais, justificando  ao mesmo tempo o rumo que quererá trazer um dia para o partido. 

Se a sucessão a Costa fosse a jogo no próximo congresso, Fernando Medina seria massacrado por Pedro Nuno Santos e quem conhece a máquina sabe-o. Não tanto por Medina ser o pior presidente de Câmara que Lisboa já teve ou por ter sido secretário de Estado de José Sócrates, mas por Pedro Nuno representar uma mudança que o PS começa a entender como necessária para a sua redenção pós-Marquês. 

Para isso, para o seu partido ser legítimo agente das «intuições morais de justiça» dos portugueses, convém não esquecer que os secretários-gerais socialistas com histórico de maior sucesso eleitoral não estiveram longe do centro «moderado». Acautelar esse dado significa falar mais em Estado social do que em «social-democracia» e falar mais daquilo que realmente se quer para o PS do que daquilo que não se quer com o PSD. A esquerda de Pedro Nuno tem de ser uma esquerda que o eleitorado possa olhar como normal, segura e de confiança; não como trauliteira, oportunista ou corrupta. Séria o suficiente para assumir que a Europa falhou ao inviabilizar políticas sociais, o que motivou populismos, mas responsável que chegue para lutar por essas políticas dentro da Europa. Ou seja: para também não cair no populismo. Perder tempo com declarações ideológicas contra a «terceira via», quando a maioria do eleitorado não sabe o que é «terceira via» e os 10% ideologicamente desvairados já votam no Bloco de Esquerda, é perder uma oportunidade. Colocar os «excessos liberalizadores dos últimos 20 anos» no mesmo saco é corajoso, porque também critica uma governação que levou um país à bancarrota, mas é muito menos importante que a agenda que Pedro Nuno propõe «para o século XXI».

As pessoas, mais do que ideologia, querem ideias e soluções. A ideologia dá ‘likes’ no Twitter. As ideias dão votos na urna.