Desporto

FC Porto. O fim do jejum e o fogo que não largou os dragões de Conceição

O nulo no dérbi entre Sporting e Benfica permitiu aos azuis-e-brancos festejar o 28.º título de campeão no hotel. Houve lágrimas de alegria, farpas às águias e até fogo a sério, com a garagem da unidade hoteleira a arder devido a uma tocha perdida. Acabou assim o maior jejum de títulos portista na era Pinto da Costa

“O renovado FC Porto de Sérgio Conceição trucidou o Estoril: foram quatro, mas podiam ter sido tranquilamente sete ou oito os golos dos dragões, tal a avalanche de futebol ofensivo demonstrada. Isto ainda agora começou, é um facto, mas se jogarem sempre assim, os azuis-e-brancos serão muito difíceis de travar nesta temporada”. Começava assim a crónica, intitulada “Não há mangueira que apague o fogo deste dragão”, do i sobre o encontro da primeira jornada entre FC Porto e Estoril, realizado a 9 de agosto no Dragão.

Nove meses volvidos, apetece dizer: na mouche! Com o empate do dérbi de Lisboa entre Sporting e Benfica (0-0) no sábado, os dragões festejaram o título no hotel, pondo fim a um jejum que já durava há cinco anos – o maior no longo reinado de Pinto da Costa como presidente portista. Não deu para ir para a rua com os adeptos porque ontem havia jogo com o Feirense – um mero pró-forma, claro está. Essa festa está agendada para a próxima semana, primeiro com o desfile na Avenida dos Aliados e depois com a receção na Câmara Municipal, a primeira desde 1999 – agora que já não há o “malvado” Rui Rio.

As celebrações da equipa às ordens de Sérgio Conceição, refira-se, acabaram marcadas por um susto: um incêndio que deflagrou na casa das máquinas do hotel onde a equipa estagiava para o jogo de ontem e que mobilizou 45 bombeiros, apoiados por 16 viaturas. A situação acabou por ficar resolvida sem a existência de quaisquer feridos ou problemas de maior, mas por precaução o plantel portista optou por mudar de hotel durante a madrugada. “Uma tocha foi lançada para dentro da garagem. Apenas um carro ficou afetado”, explicou um responsável da unidade hoteleira.

Antes disso, já muito havia sido dito pelos protagonistas do 28.º título nacional dos dragões. Com Sérgio Conceição à cabeça: tricampeão como jogador, tornou-se aos 43 anos igualmente campeão enquanto treinador, entrando num restrito lote composto por apenas mais dez nomes antes dele: Juca, Mário Lino, Mário Wilson, José Maria Pedroto, Fernando Mendes, Artur Jorge, Toni, António Oliveira, Augusto Inácio e Jaime Pacheco.

Na hora de celebrar o primeiro troféu na carreira de técnico, o homem tantas vezes irascível e temperamental mostrou a face mais emotiva e chorou ao dedicar o título aos pais, já falecidos. “Uma palavra para o presidente, que me deu a oportunidade de trabalhar num clube que me diz muito. Eu disse na apresentação que iria conquistar o título e que duas pessoas iriam estar muito contentes: os meus pais. Dedico-lhes isto. Estou muito contente pela minha família, pelos meus cinco filhos”, afirmou Sérgio Conceição, antes de ser engolido por dezenas de adeptos que não arredavam pé do local.

Marega resumiu tudo assim: “Ser campeão é enorme!” Uma frase simples, sincera, dita por aquela que é, porventura, a grande figura do FC Porto 2017/18. De patinho feio e motivo de chacota para os adeptos (inclusive os seus) a melhor marcador da equipa no campeonato (22 golos), o maliano foi a cara deste dragão: fulgurante, possante, vertiginoso, por vezes atrapalhado mas sem nunca perder o foco nem o objetivo. Massacrante. Demolidor.

O título portista encerra ainda outra curiosidade: permite a André André e Gonçalo Paciência imitar os feitos dos pais, André e Domingos, também eles campeões nacionais pelo FC Porto enquanto jogadores. Curiosamente, tanto André, médio defensivo, como Domingos, avançado, foram sete vezes campeões nacionais pelos dragões.

Em Lisboa cantou-se “Penta ciao” A festa, é preciso referi-lo, não se cingiu aos Aliados nem ao Porto. A capital de Portugal, por exemplo, vestiu-se de azul e branco: nas imediações da Casa do FC Porto em Lisboa, no Saldanha, ecoaram ad eternum os cânticos de “O campeão voltou”, ditos por centenas de adeptos que acabaram por entupir o trânsito no local. E do Saldanha ao Marquês de Pombal é um pulinho: de repente, a estátua estava rodeada de azul e branco por todos os lados, obrigando mais uma vez ao corte do trânsito naquela zona e circundantes.

Houve outro cântico, todavia, a marcar a noite. E esse não foi só entoado pelos adeptos: até os jogadores portistas o cantaram a plenos pulmões na sua celebração no hotel. É – pasme-se – alusivo ao Benfica e ganhou vida no passado fim de semana, quando as águias perderam em casa com o Tondela e praticamente disseram adeus ao título. A “música” chama-se “Penta Ciao”, é uma adaptação da canção popular italiana “Bella Ciao”, popularizada pela afamada série espanhola “La Casa de Papel” e alude, obviamente, ao fim do sonho encarnado em chegar ao pentacampeonato – um feito só conseguido até agora pelo próprio FC Porto, entre 1994 e 1999.

Champions, permanência e subidas O empate no dérbi, é preciso frisá-lo, deixa o Sporting em vantagem na luta pelo segundo lugar. Os leões “só” precisam de vencer agora na deslocação ao recinto do Marítimo, na última jornada, para garantirem a vice-liderança e consequente apuramento para a terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões, pois têm vantagem no confronto direto sobre as águias. O agora ex-tetracampeão nacional, por seu lado, tem de triunfar na receção ao aflito Moreirense, na Luz, e rezar por um deslize leonino na Madeira.

Estas são as contas em relação à luta pela liga milionária. Logo abaixo, e depois do empate caseiro com o Boavista na abertura da jornada, o Braga ficou com o destino definido: irá terminar o campeonato em quarto lugar. Ontem, o Rio Ave garantiu igualmente o quinto... sem jogar, pois o Marítimo foi derrotado em Chaves por concludentes 4-1. Resta aos vila-condenses esperar que o Aves não vença a Taça de Portugal – caso contrário, serão os avenses a ir à Europa, com o Rio Ave a ficar em casa.

Por falar no Aves, o conjunto orientado por José Mota voltou a fazer história: três semanas depois de conseguir o inédito apuramento para a final da Taça, logrou atingir a permanência na I Liga pela primeira vez. E em grande estilo, vencendo por 3-0 em Moreira de Cónegos, já depois de na passada semana ter batido o Estoril noutro encontro absolutamente crucial. Notável.

Pelo contrário, os cónegos ficaram em situação muito complicada: têm apenas três pontos de vantagem sobre Paços de Ferreira, Vitória de Setúbal e Estoril e vão à Luz na última jornada. Esta será uma luta hercúlea, onde está incluído também o Feirense, que na derradeira ronda receberá o Estoril – os canarinhos bateram ontem o Vitória de Setúbal (2-1) e voltaram a sonhar, afundando ainda mais os sadinos, que recebem o Tondela no próximo fim de semana. Já o Paços é hoje anfitrião do Rio Ave, deslocando-se para a semana a Portimão.

Falta falar nas contas da II Liga, que neste fim de semana ficaram fechadas em termos de subidas. E com duas festas insulares: Nacional e Santa Clara. Os madeirenses, orientados pelo antigo internacional português Costinha, festejaram no sábado, no aeroporto – um ano depois de assim terem recebido também a notícia... da descida –, após a derrota caseira da Académica diante do Cova da Piedade (1-2). Ontem, confirmaram o título de campeões ao vencer em Arouca por 1-0 – um resultado que, de imediato, matava as esperanças de subida dos arouquenses. Já os açorianos estão de volta à I Liga após 16 anos de ausência: um 3-0 sobre o Real Massamá confirmou o segundo lugar. No que respeita a descidas, Sporting B, Gil Vicente e Real já estão despromovidos, havendo ainda mais sete equipas a lutar pela permanência: Varzim, Famalicão, Oliveirense, Benfica B (que recebe a sua congénere do FC Porto na última jornada), Covilhã, Braga B e União da Madeira.