Opinião

Um ano de crónicas...

Enviei a primeira crónica para o SOL, a propósito do 25 de Abril do ano passado, com um protesto pela ausência de referências ao marco da fundação da democracia: a Assembleia Constituinte. 

Este ano voltei a estranhar a relutância em lembrar, e reconhecer, a coragem dos deputados que enfrentaram a violência de colegas que prometiam as ‘mais amplas liberdades’, que eram as do partido único, do sindicato único, dos julgamentos populares, da mais férrea das censuras e, até, da extravagante, mas não inocente, nacionalização do teatro. 

Esta é a verdade histórica, que deveria ser ensinada nas escolas, pelo menos enquanto tiverem assento no Parlamento pessoas que usaram todos os meios - até o cerco à Constituinte - para ludibriar o povo.

Há um ano, o SOL disse-me que teria à disposição uma coluna com um limite de 3.000 caracteres. Achei um exagero, mas depressa percebi o engano, quando tive de recorrer ao ‘corta e cose’ para respeitar o limite. O exercício fez-me recordar uma história da Grécia Antiga, a que recorro sempre que alguém entra em ‘modo de repetição’.

Perante mais uma ameaça persa, a Assembleia de Atenas enviou a Esparta um pedido de ajuda, pela voz do mais brilhante orador. Viciado na retórica, o homem entrou por um discurso eloquente, mas tão longo que o presidente do Senado o advertiu: «Não percebemos a última parte do teu discurso e já esquecemos a primeira». 

O insucesso fez com que fosse enviado um novo emissário, mas com instruções para «ser contido nas palavras». Chegado ao destino, o homem pousou um saco e disse: «Está vazio, encham-no!». Rápido, o presidente atalhou: «Terás ajuda, mas, para a próxima, sê menos prolixo: que está vazio, todos vemos, que o queres cheio, bem o sabemos».

A verborreia é um vício que nem o uso do tweet está a corrigir. Multiplicam-se os que gastam meia hora a papaguear o que poderia ser dito em dois minutos. 

Há uma máxima em Direito que postula: «O que abunda não excede», bem interpretada pelo Professor Adelino da Palma Carlos quando aconselhava os estagiários: «Em tribunal, os argumentos fortes devem ser ditos pelo menos três vezes, para que se instalem na cabeça do juiz». 

Mas o argumento só vale em tribunal. Fora dele, ‘o que abunda’ só serve para tornar turvas as teses que deveriam ser transparentes.

Na nossa Primeira República, ficou célebre o discurso de mais de 9 horas do deputado João Camoesas. 

Para conseguir a aprovação de uma moção de censura − só possível com os votos dos correligionários do Norte, chamados à pressa a Lisboa −, o deputado começou a falar à meia-noite do dia 16 de julho de 1925 e só terminou passadas as nove da manhã do dia seguinte. 

O esforço foi em vão, mas valeu-lhe um coro de aplausos, tão longos como o discurso, nos jornais afetos ao Partido Democrático. 

A referência mais notável resumiu-se, porém, a duas breves linhas: Brito Camacho - líder do Partido Unionista, e fundador e diretor de A Lucta - escreveu secamente: «Dizem que o deputado Camoesas é um grande orador. O que eu admiro é aquela bexiga!».