Economia

Autoeuropa. Instabilidade regressa, trabalhadores votam hoje destituição da CT

Referendo foi marcado depois de um abaixo-assinado ter recolhido as assinaturas necessárias para votar a continuidade ou não da entidade liderada por Fernando Gonçalves. O presidente da CT diz que “aguarda o resultado com serenidade”

A instabilidade regressou à Autoeuropa. O i sabe que os cerca de 5700 trabalhadores vão hoje a votos para decidir se a Comissão de Trabalhadores (CT) liderada por Fernando Gonçalves irá continuar a manter-se em funções. Esta iniciativa surgiu pelas mãos de um grupo de trabalhadores que não se sente representado por esta estrutura. O referendo foi marcado depois da realização de três plenários que tiveram lugar na segunda-feira e de um abaixo assinado ter recolhido as assinaturas necessárias.

O referendo foi confirmado ao i por Fernando Gonçalves e será realizado “tal como vem descrito nos estatutos da Comissão de Trabalhadores”, acrescentando ainda que “aguarda o resultado com serenidade”. 

O i sabe que para a CT ser destituída é obrigatório que dois terços dos trabalhadores votem, bastando depois uma maioria simples para determinar a saída dos atuais representantes laborais. 

Na base da marcação da votação está o descontentamento de alguns trabalhadores com a prestação da CT, entre o que foram as promessas feitas e o resultado das negociações laborais, dando origem à laboração ao sábado. 
Já as negociações para um novo acordo para o trabalho em laboração contínua – a partir de agosto, altura em que será implementada uma quarta equipa – ainda não arrancaram. O i sabe que este processo inicial irá começar a 11 de maio e, segundo a CT, tem como objetivo a obtenção de uma compensação justa para os trabalhadores abrangidos por esses novos horários.

Este braço-de-ferro entre os próprios trabalhadores não é novo. Já em janeiro, um grupo de trabalhadores fez uma vigília à porta da fábrica, garantindo que não se sentia representado pela estrutura liderada por Fernando Gonçalves e, nessa altura, fez um abaixo-assinado para apresentar várias propostas alternativas às solicitadas pela Comissão de Trabalhadores. 

Foi com base nesse documento criado pelo movimento Juntos que os trabalhadores aprovaram dois dias de greve para fevereiro, altura em que entraram em vigor os novos horários de trabalho, mas acabou por não avançar. Isto porque, para que a paralisação se concretizasse seria necessário que fosse convocada pelos sindicatos, como o Site-Sul, que foi o rosto da última greve.

Este abaixo-assinado recordou ainda que “o trabalho por turnos já é uma forma de organização do trabalho prejudicial à vida familiar e à saúde dos trabalhadores”, lembrando ainda que, “segundo o contrato coletivo em vigor, a fábrica não tem permissão para impor laboração contínua e trabalho ao sábado à noite sem o consentimento dos trabalhadores”.

Novos horários e acordo fechado Os novos turnos arrancaram em fevereiro – 17 turnos semanais, onde já estão incluídos os sábados. Mas só em março é que foi aprovado o pré-acordo com a administração da fábrica de Palmela, assente num aumento salarial de 3,2% num mínimo de 25 euros para este ano com retroativos a outubro.

Também acordada com a administração foi a passagem a efetivos de 250 trabalhadores que estão a termo, assim como o pagamento de um subsídio que equivale a 10% do ordenado-base a trabalhadoras grávidas. Foi ainda aprovado o “pagamento de uma gratificação de 100 ou 200 euros em abril de 2018 conforme a antiguidade” do trabalhador. 

Nessa altura, ficou estipulado que a compensação para os novos horários de trabalho ao fim de semana seria objeto de uma negociação autónoma. Esta foi a solução encontrada pela fábrica de Palmela para satisfazer as encomendas do novo SUV. A meta já foi anunciada: atingir até final do ano um volume de produção na ordem dos 240 mil veículos até ao final do ano, a maioria dos quais é o modelo T-Roc.

Ao que o i apurou, neste momento já estão a ser produzidos diariamente 870 veículos, dos quais 650 correspondem ao novo SUV, o que dá uma produção de 26 a 27 T-Roc por hora. Mas a ideia é aumentar para 28 a 29 por hora com vista a dar resposta à crescente procura. 

E as contas são simples: com mais T-Roc a saírem da fábrica, as exportações devem acelerar. Em janeiro, as vendas ao exterior do setor automóvel subiram cerca de 46% em termos homólogos, equivalente a cerca de 680 milhões de euros, devido essencialmente à fábrica de Palmela. 

Aliás, a corrida aos novos modelos já levou a Autoeuropa a parar vários dias por falta de peças. A primeira ocorreu a 15 de dezembro. O episódio voltou a repetir-se entre 26 e 29 de dezembro “devido a quebra no fornecimento de peças críticas”. Já este ano, a fábrica também parou a 31 de janeiro, mas apenas durante o turno da tarde. Em fevereiro, a Autoeuropa voltou a estar parada mais um dia. O motivo era o mesmo: falta de peças. O mesmo aconteceu de 24 de março a 2 de abril. Esta paragem deve-se ao facto de os fornecedores não terem conseguido dar resposta às exigências da unidade face ao aumento da procura de veículos a gasolina, em detrimento dos motores a gasóleo.